21/03/2017

Jukebox Encantada #6


TITÃS
JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS
(1987)

A infelicidade de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas é estar espremido entre duas obras-primas incontestáveis: Cabeça Dinossauro (1986) e Õ Blésq Blom (1989), referências que pulam facilmente, quase como reflexo, da boca de quem fala de grandes álbuns do rock brasileiro. Ainda assim, penso nele como sendo um amadurecimento da fúria punk do álbum anterior e um "estágio" fundamental (mais feliz, até) para o neotropicalista disco que o sucederia.

Em 1987, o Brasil convulsionava sob a pressão por eleições diretas (que viriam dois anos depois) e uma inflação galopante, mascarada por sucessivos planos "milagrosos". Existe uma regra não-escrita, segundo a qual, quando tudo vai mal é que a Arte vai bem. Nada mais natural, então, que o redivivo rock brasileiro estivesse inspiradíssimo, com as bandas parindo belos trabalhos (são de 1987, por exemplo, Que País É Este, da Legião Urbana, e A Revolta dos Dândis, dos Engenheiros do Hawaii).

Enquanto quase todo artista da época tinha uma balada pra chamar de sua, os Titãs - uma enorme e feliz "nação" de oito pessoas - tinham hinos rápidos e furiosos, para serem berrados a plenos pulmões. O amor estava no cardápio, mas não de forma a provocar isqueiros acesos nas plateias dos ginásios. Logo na abertura, Arnaldo Antunes, sobre apenas bateria e efeitos eletrônicos, literalmente, berrava:

Quem tem medo quer amor
Quem tem fome quer amor
Quem tem frio quer amor
Quem tem pinto, saco, boca, bunda, cu, buceta, quer amor
Ele quer, ela quer
Todo mundo quer amor de verdade

Por trás da aparente disposição de chocar (da qual os Titãs não se esquivavam), havia discurso afiado e fina ironia. O maior exemplo vinha a seguir: "Comida", a faixa cuja letra jogou os Titãs em praticamente todos os vestibulares dos anos seguintes. Provocativa ("você tem fome de quê?"), questionava o vazio da existência dedicada apenas ao trabalho. Arnaldo Antunes tornou-se a régua por qual todo poeta concretista metido a músico passou a ser medido. 

Refinamento poético, porém, era uma exceção. De modo geral, Jesus é bastante desiludido e direto, um autêntico álbum de protesto. Quanto ao som, as brincadeiras eletrônicas iniciadas em "O Quê?" (do Cabeça Dinossauro) foram expandidas, com resultados bastante felizes, especialmente em "Comida" e "Diversão" - a primeira, um funk pensante e contagiante; a segunda, um monumento do nosso rock, com programação rítmica exemplar, letra angustiada sublime e performance vocal espetacular de Paulo Miklos.

Em minhas audições, só sinto a temperatura baixar um pouco em "O Inimigo" e na fúnebre "Infelizmente". Embora pueris, "Mentiras" e "Armas pra Lutar" transbordam de energia punk. "Desordem" é um rockão sólido que pinta um retrato caótico do país naquele ano, mas que não soaria tão anacrônico, hoje em dia. Da mesma forma, "Nome Aos Bois" poderia ganhar novos nomes em sua lista de monstros e escroques, a cada ano.

TITÃS: Charles Gavin, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Sergio Britto, 
Nando Reis, Branco Mello, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos.

Embora fossem, essencialmente, uma banda pop, os Titãs tocavam e portavam-se como um dínamo de rock 'n' roll, com peso, discurso e atitude correspondentes. Tony Bellotto e Marcelo Fromer (morto em 2001) - respectivamente, solo e base - eram uma dupla formidável de guitarristas; Nando Reis estalava o baixo com peso funk e impunha dramaticidade à voz pequena; Charles Gavin descia a mão na bateria com precisão cirúrgica. Os demais vocalistas (Arnaldo, Paulo, Branco Mello e Sergio Britto, também tecladista), demonstravam versatilidade individual e conjunta. O crescendo criativo da banda só podia desaguar em uma obra-prima do calibre de Õ Blésq Blom, um disco que reflete grandes talentos, ambições e mentes abertas, mas, de modo geral, ainda percebo mais tesão de tocar rock 'n' roll neste disco aqui.

Enquanto escrevo, me vem a lembrança de que foi este meu primeiro disco da banda. A produção cristalina do onipresente Liminha (que também toca em algumas faixas) não o impediu de ser um cartão de visitas barulhento e contundente, uma porrada nos ouvidos e neurônios. Se fosse cantado em inglês, teria sido uma pequena revolução neopunk. Para mim, o ápice da energia dos Titãs como banda; o exato momento em que fincam pé no Olimpo e chutam as bundas de acomodados deuses.

Titãs - Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas
Lançamento: 23 de Novembro de 1987.
Produção: Liminha.

01 - "Todo Mundo Quer Amor"
02 - "Comida"
03 - "O Inimigo"
04 - "Corações e Mentes"
05 - "Diversão"
06 - "Infelizmente"
07 - "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas"
08 - "Mentiras"
09 - "Desordem"
10 - "Lugar Nenhum"
11 - "Armas pra Lutar"
12 - "Nome aos Bois"
13 - "Violência" (faixa bônus da edição em CD)

17/03/2017

Animal ferido


Já faz quase 20 anos que X-Men (Bryan Singer, 2000) fez os estúdios acordarem, mais uma vez, para o potencial lucrativo das adaptações de HQs - e Hugh Jackman já estava lá, a única unanimidade naquele e nos filmes que vieram em seguida. O ator certo, no papel certo, na hora certa.

A gente se acostumou a ver Hugh Jackman como Wolverine. Não importa que, entre os intervalos da franquia mutante, ele tenha feito diversos filmes de diversos estilos - ora, diabos, não importa nem mesmo que ele tenha sido indicado ao Oscar! Bom mesmo era quando ele ejetava as garras e fatiava um sujeito (ou vários!).

Acontece que Jackman, previsivelmente, se cansou de ser o carcaju. Desde o início da produção, Logan foi anunciado como sua despedida do personagem - e, felizmente, é uma saída de cena bastante honrosa: simples assim, Logan rivaliza com os melhores momentos das aventuras mutantes (em minha opinião, X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe), se é que não os supera.

A evidente inspiração em O Velho Logan, minissérie de Mark Millar e Steve McNiven, que apresentou ao mundo um Wolverine idoso, está limitada à aparência do personagem e à ambientação num futuro em que uma grande tragédia forçou Logan a guardar as garras. Envelhecido e visivelmente doente, ele opta por "sumir" e evitar problemas.

No filme, Logan trabalha como motorista de limousine de aluguel. Ao fim de cada dia, retorna para uma fazenda abandonada, onde vive recluso, contando apenas com a companhia do mutante rastreador Caliban (Stephen Merchant) e de um combalido Charles Xavier (Patrick Stewart), delirante e sob medicações que ajudam a manter seu poder sob controle.



Quando recebe uma proposta para levar uma garota até Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá, Logan inicialmente reluta, mas o envolvimento do ciborgue Donald Pierce e seus Carniceiros - mais o fato de que a garota, Laura (Dafne Keen), guarda espantosas semelhanças com o próprio Logan - o faz embarcar numa jornada de perigo e morte - mas, também, de emoção e descobertas.

O que faz de Logan um filme tão bom é o óbvio ululante: existe uma boa história sendo bem contada. Não é um amontoado de cenas "massavéio" pra impressionar adolescentes (e que se diga, como em Deadpool, a opção pela censura R fez toda a diferença), nem existe obrigação de interromper os dramas em curso pra inserir piadas (o humor existe, mas é espontâneo e discreto). 

Logan serve ainda para Patrick Stewart justificar seu título de Sir. Ator shakespeareano, ele deixa para trás a pose impassível de "velho sábio e sereno" e, sob a batuta de um diretor de atores bem melhor do que Bryan Singer, entrega uma performance emotiva e rica em nuances. James Mangold extrai de Hugh Jackman, também, seu melhor trabalho na série (e isso tem a ver com qualidade, não quantidade - quem já viu, entendeu). Coroando o afiado trio de protagonistas, a menina Dafne Keen é um verdadeiro achado, alternando selvageria e doçura igualmente generosas.


Para não dizer que tudo dá tão certo assim, o calcanhar-de-Aquiles dos filmes da Marvel é exposto mais uma vez: os vilões de Logan, embora não comprometam, não chegam a fazer a gente temer ou espumar de ódio deles. Boyd Holbrook como Donald Pierce é pouco mais que um leão-de-chácara com braço mecânico, e Richard E. Grant não causa grande impacto como Zander Rice. O caráter não-espetacular dos caras maus pode ter sido uma opção consciente, visto que o filme tem todo um jeitão pé-no-chão, mas, mesmo assim, vai pro caderninho de vilões meia-boca que comprometem os filmes da Marvel, de vez em sempre.

O mesmo trunfo que, quase duas décadas atrás, colocava X-Men acima de tudo que havíamos visto até então, é o que, hoje, consagra Logan como um filme redentor: é preciso haver dramas com os quais o espectador se importe, e é preciso que os personagens sejam transformados pela dor que enfrentam. Logan tem como protagonista um homem doente, atravessando o país com um sequelado que já foi a mente mais poderosa do planeta e seu pai de consideração, pra levar uma garota pouco sociável e que não teve infância a um encontro com supostos amigos, num lugar que talvez nem exista. Redenção, abnegação, utopia. Estas coisas tocam as pessoas nos músculos certos do coração.

Transformada em evento, a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine merece o status. Logan é o canto-de-cisne mais bonito no subgênero de super-heróis. Ele soprou vida real em um personagem que só existia em papel. É o tipo de proeza que a gente costuma atribuir a seres de outra grandeza.

03/03/2017

Teste dos 20 Anos - 1997


Em 1997, a música vivia tempos estranhos.

Quem mandava lá fora era o techno (de sonoridade mais suja e pesada que o technopop do começo dos anos 80, favor não confundir), a ponto de a maior banda do planeta, o U2, fazer um disco com alto grau de influência da tal coisa. Outra moda clubber, o drum 'n' bass, nascia para o grande mercado (morrendo já no ano seguinte, sem deixar saudade). O Metallica lançou mais um disco odiado (ReLoad) e o Oasis chegava ao megaestrelato com um disco chato, pontuado por bons singles (Be Here Now). Na black music, foi ano em que o mundo conheceu Beyoncé, via Destiny's Child.

No Brasil, Chico Science morreu, forçando a Nação Zumbi a achar um caminho sem ele - e acharam! Os últimos registros de estúdio da Legião Urbana chegavam ao público, um ano após a morte de Renato Russo. Nas rádios, reinavam o axé e o pagode romântico, mas o rock achava espaço, com a  alta popularidade do primeiro disco do Charlie Brown Jr.

Só esclarecendo, mais uma vez: tinha discos mais importantes pra comentar, tipo o Urban Hymns, do The Verve? Tinha, mas eu escolhi discos que eu ouvi por inteiro, no momento certo (ou seja, no lançamento, ou pouco depois disso). Conheço os discos acima, mas não escutei alguns deles por inteiro - até hoje! - ou só os ouvi muito tempo depois. Se seu disco favorito não está na lista, você pode deixar sua opinião (antiga e atual) sobre ele nos comentários.



THE BRAND NEW HEAVIES
SHELTER


Foi amor à primeira vista?
Eu já lia sobre The Brand New Heavies havia uns quatro anos, sem nunca ter chance de ouvi-los. Um elogio da Showbizz e uma promoção do saudoso Musiclub (lembra?) me levaram a comprar este disco. Logo tornou-se um dos meus discos favoritos, com sua mistura precisa e elegante de funk e soul, um oceano de melodia, num ano em que a estranheza dos anos 90 atingia uma espécie de ápice. Pop e chique até dizer chega!

Ainda rola gostoso?
Sim, sim! É o unico álbum da banda com vocais de Siedah Garrett e ela vai bem tanto em baladas açucaradas ("Feels Like Right") e magoadas ("Stay Gone", um passa-fora daqueles!), quanto em momentos funky ("I Like It", "You Are the Universe"). A banda tem outro vocalista fabuloso, o baterista Jan Kincaid, que canta a minha favorita, "After Forever". Tudo é de tão alto nível que a boa cover de "You've Got a Friend" (Carole King) acaba soando dispensável.


FLEETWOOD MAC
THE DANCE


Foi amor à primeira vista?
Eu só conheci este álbum em 1999, quando um amigo em Itumbiara (GO) o apresentou. Tratava-se do MTV Unplugged do Fleetwood Mac - o que era bastante estranho, sendo o disco tão elétrico. Rock folk setentista dos bons, com Lindsey Buckingham debulhando na guitarra e Stevie Nicks carregando lindamente no drama de "Rhiannon" e "Landslide". O grupo esteve oficialmente desfeito por 10 anos, mas os membros seguiam colaborando entre si, o que explica a sintonia ouvida aqui.

Ainda rola gostoso?
A versão de "The Chain" (a música dos trailers de Guardiões da Galáxia Vol. 2) contida neste álbum é minha favorita. Ainda é muito agradável escutá-lo, porque ele é cheio de músicas pop de primeira, como "Dreams" e "Say You Love Me" e as então inéditas "My Little Demon" e "Bleed to Love Her". Com o Fleetwood Mac saindo em turnê mundial este ano, não custa sonhar com uma passagem pelo Brasil.


GABRIEL O PENSADOR
QUEBRA-CABEÇA


Foi amor à primeira vista?
Ah, foi, sim! Dois anos antes, Gabriel tinha cometido um disco fraco (Ainda É Só o Começo), autorreferente e mal-humorado em demasia. Voltando sob a produção do DJ Memê (um mestre dos remixes e samples), Gabriel mostrou que dava pra fazer música alegre falando de coisa séria ("Dança do Desempregado", "Pátria que Me Pariu", "Cachimbo da Paz") ou nem tão séria assim ("2345meia78", "Eu e a Tábua", "Festa da Música"). Tocou e vendeu pra caramba, dando moral pra Gabriel abrir um show do U2 em BH, no ano seguinte.

Ainda rola gostoso?
Encarado como música pop, sim. Memê sampleou Chic, The Floaters, Hall & Oates e Jocelyn Brown (entre outros), criando bases matadoras pra Gabriel deitar seu rap, cujos temas sociais permanecem relevantes (violência, legalização da maconha, desemprego, abandono infantil), mas cujo compasso ficou datado e, agora, me provoca certa impaciência pelo uso exagerado de vozes coadjuvantes "engraçadinhas".


MORRISSEY
MALADJUSTED


Foi amor à primeira vista?
Depois do estranho Southpaw Grammar (1995), com algumas faixas quilométricas onde pouco se ouvia a voz de Morrissey, foi bom tê-lo de volta a um formato mais ortodoxo, mas este foi um disco que custou a me ganhar. Exceto por "Wide to Receive" (emocionante desde a primeira audição do primeiro acorde), tudo veio se acomodando aos poucos em meus ouvidos.

Ainda rola gostoso?
Não sei bem. Este é um disco que ouço pouco, embora goste muito de músicas como "Alma Matters", "Satan Rejected My Soul", "Roy's Keen" e "Papa Jack". Confesso que ando meio cansado de Morrissey, ultimamente, como já me cansaram antes outros artistas que amo. É só uma fase, eu sei, mas é este o momento em que escrevo. Como vários outros de Moz, este disco tem uma versão remasterizada, com faixas extras e com capa diferente.


RADIOHEAD
OK COMPUTER


Foi amor à primeira vista?
The Bends (1995), o anterior, tinha sido um discaço. Natural esperar coisa boa do Radiohead, mas a crítica exagerou tanto no endeusamento a este disco, que eu peguei um bode do cão (sic) antes de ouvir qualquer faixa. O Radiohead tinha ficado esquisito, mas de um jeito que ainda era bom. Minhas favoritas eram as mesmas de hoje: "Exit Music (For a Film)", "Let Down" e "No Surprises".

Ainda rola gostoso?
Hoje, para mim, Radiohead virou sinônimo de chatice. Claro, tem músicas formidáveis aqui e ali, mas tem muita, muita, muita esquisitice pela esquisitice. OK Computer, porém, segue sendo um grande disco, retrato preciso de um momento da humanidade, e minhas três favoritas são, afinal, atemporais.


SOUL II SOUL
TIME FOR CHANGE


Foi amor à primeira vista?
Corroborando o título ("tempo de mudança"), este foi um disco bastante diferente do Soul II Soul. Em lugar de house music, o disco tinha funk e pequenas concessões à chatice do drum 'n' bass (quase obrigatório entre 1997 e 1998). Em lugar de Caron Wheeler e outras divas, vocalistas masculinos em quase todas as faixas, exceto pela linda "Thank You". Desde a primeira audição, "Pleasure Dome", "Get Away" e "I Feel Love" grudaram bonito.

Ainda rola gostoso?
Engraçado como eu nunca considerei o positivismo de Jazzie B como sendo autoajuda - e é. Ele tem um modo de dizer as coisas que me agrada desde o primeiro álbum. Este aqui até que envelheceu bem e creio que deveria ter feito mais sucesso. "I Feel Love" (com vocais masculino e feminino) é mortífera numa pista de dança e as baladas continuam muito agradáveis. Infelizmente, Time for Change foi o canto-de-cisne do Soul II Soul.


TIMBALADA
MÃE DE SAMBA


Foi amor à primeira vista?
A Timbalada, naqueles históricos cinco primeiros anos de atividade, era a maior beneficiária da criatividade e talento de Carlinhos Brown. Mesmo sendo um disco mais "difícil" do que Mineral (1996), Mãe de Samba emplacou alguns hits, apesar da pegada mais roots, com mais peso percussivo e metais cristalinos de tão límpidos.

Ainda rola gostoso?
Não todo de uma vez, mas dá pra programar as faixas em duas metades, pra ouvir em momentos distintos. Ainda é arrepiante a participação de Alcione em "O Erro e o Concerto", e o pula-pula desenfreado de faixas como "Ai", "Bum" e "A Latinha" é um desafio pra minha energia de quarentão. Para irritar vizinhos intolerantes, nada melhor que a primeira ("Na Beira do Mar") e a última ("Mãe Oyá"), faixas que ainda ouriçam o que quer que seja africano dentro de mim.


TITÃS
ACÚSTICO MTV


Foi amor à primeira vista?
Depois do peso de Titanomaquia (1993), os Titãs haviam voltado ao pop em Domingo (1995) e parecia justo querer coroar isso com um disco acústico, um dos quatro cavaleiros do apocalipse (sendo os outros três: discos ao vivo, coletâneas vagabundas e techno). Era preciso muita má-vontade pra não se derreter com os arranjos modificados de músicas como "Flores", "Pra Dizer Adeus" e "Comida". Vendeu e tocou um absurdo!

Ainda rola gostoso?
Sim, pois estamos falando de clássicos perenes do rock nacional e de convidados sensacionais (Jimmy Cliff, Marisa Monte, Fito Paez), ora essa. As então inéditas ("Os Cegos do Castelo", "A Melhor Forma" e "Nem 5 Minutos Guardados") já davam mostra de que os Titãs seriam suavizados - naturalmente, devido à idade que chegava; e mercadologicamente, tornando-se irritantes ícones românticos e de autoajuda.


U2
POP


Foi amor à primeira vista?
Ora, na década de 90, após os irretocáveis Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), o U2 podia qualquer coisa e eu aplaudiria até peidos! Mas, em Pop, a mão techno pesou. Barulhinhos e deboche demais, em canções não tão inspiradas assim, ainda que dignas, em sua maioria. Apesar disso, foi muito ouvido e repetido, principalmente em seus momentos mais "padrão U2", como "Staring at the Sun", "If God Will Send His Angels" e o monumento western "Wake Up Dead Man".

Ainda rola gostoso?
"MoFo" era puro techno, e techno é uma coisa morta e nada saudosa. Passo por cima dela e de "Miami" sem dor na consciência.  Por outro lado, a cada ano que passa, gosto mais do riff de "Discothèque", a carta de intenções da época. Enquanto escrevo, me pego pensando em como seria se Johnny Cash tivesse encerrado este disco, também, cantando "Wake Up Dead Man". Que mundo lindo teríamos!


WYCLEF JEAN
THE CARNIVAL


Foi amor à primeira vista?
O estrelato conjunto dos Fugees durou pouco - dois discos. Em carreira solo, Wyclef Jean largou na frente de Lauryn Hill e Pras, poucos meses após o fim do grupo. Longo (24 faixas, entre canções e vinhetas) e cheio de participações memoráveis (Celia Cruz, The Neville Brothers, Rita Marley), o álbum mostrava uma diversidade musical e bom humor contagiantes, com pausas para momentos românticos e reflexivos. Caiu em meu gosto como poucos do gênero.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora seja inegável (e até inevitável) que a maioria das batidas estejam datadas. Ainda dá pra rir com o "julgamento" de Wyclef entre as faixas. Os samples e convidados ainda agradam bastante, especialmente The Neville Brothers, em "Mona Lisa" (que vocais, amigos!), e Lauryn Hill, que brilha e emociona em "Sang Fézi", flutuando graciosamente sobre a melodia de "House of the Rising Sun" e roubando o show do colega por breves e lindos segundos.