23/10/2024

Lanterna Verde (2023), por Geoffrey Thorne


É bastante difícil ser original quando um personagem já tem mais de 80 anos de história, estando presente mês a mês nas bancas, em revistas de linha, versões alternativas, participando de equipes e aparecendo em títulos de outros heróis.

Veja o caso do Lanterna Verde, por exemplo: existem elementos e eventos que são basilares em sua mitologia, aos quais seus autores quase sempre recorrem: a Tropa dos Lanternas Verdes (sempre dispersa e reunida), os Guardiões do Universo (sempre mortos e revividos), a Bateria Central (sempre explodida e reconstruída), Sinestro (sempre oscilando entre inimigo e aliado), e por aí vai.

Se, por um lado, mexer demais na essência dos personagens vai descaracterizá-los e desagradar a leitores, por outro, mantê-los presos sempre numa mesma cadeia de eventos pode levar à mesmice e à saturação (como muitas vezes já levou, diga-se, e não só com este personagem em particular).

O leitor de quadrinhos de super-heróis é um masoquista por opção, sendo capaz de bravamente resistir a uma fase medonha qualquer de seu herói favorito, apenas para buscar a geralmente fugaz satisfação de um lampejo de criatividade por parte dos autores. Veja bem, eu disse “criatividade”, não “originalidade”. A originalidade é bem-vinda, mas não é essencial à arte. Muita coisa muito divertida já foi feita reciclando velhos conceitos ou fazendo homenagens ao trabalho alheio. Não existe nenhum mal nisso. O autor de quadrinhos só não pode se esquecer de contar uma boa história.


O Lanterna Verde até que tem sorte, falando francamente. Após a longa e nem sempre tão inspirada fase de Geoff Johns (muito apoiada em ideias prévias de Alan Moore, provando o que eu disse no parágrafo anterior), seus títulos foram entregues a honestos operários da Nona Arte, como Peter J. Tomasi, Robert Venditti e, agora, Geoffrey Thorne, o homem por trás da fase reunida nestes três encadernados da Panini, que vai de Green Lantern (2021) 1 a 12, além de Green Lantern Annual e o especial DC: Love Is a Battlefield.

A Tropa está reunida em Oa para receber novas instruções, agora que deve funcionar como uma força policial de apoio à recém-criada Federação dos Planetas Unidos, e para o funeral de um Guardião. Durante o evento, ocorre um ataque terrorista: habitantes de um planeta exilado e regido pela magia acusam os Guardiões de roubar o Coração Estelar e impor ordem e ciência contra a vontade dos povos mágicos. O ataque deixa mortos e feridos e, quando o pior já parece ter passado, a Bateria Central explode, deixando vários Lanternas mortos e os sobreviventes sem carga energética. Apenas duas delas não são afetadas: a menina Keli Quintela, vulgo Lanterna Nerd, cuja manopla não se alimenta da Bateria Central; e Sojourner “Jo” Mullein, a Lanterna detetive da ótima minissérie Setor Final (2019), cujo anel tem origem e funcionamento excêntricos, que chega para ajudar a resolver o mistério por trás dos ataques.


Em paralelo, John Stewart e um grupo de Lanternas saem em missão a um setor muito distante de Oa, onde são emboscados. Resgatado pelos habitantes de uma colônia de mineração, John tem que protegê-los de escravagistas e ainda lidar com decisões difíceis sobre abraçar ou rechaçar um novo poder e toda uma nova existência à sua disposição. Todo o equilíbrio do universo depende de seus próximos passos.

Como se nota, Thorne apela sem pudor a alguns velhos truques do “lanternaverso”, mas toma decisões espertas. A mais notável talvez tenha sido integrar a lanterna Jo Mullein – nascida no selo experimental DC Young Animal, de vida curtíssima - ao universo tradicional, de forma natural e pertinente. Suas habilidades como detetive e relações-públicas trazem um frescor à Tropa, em que todo mundo é meio que somente herói de ação ou soldado. Outro ponto a favor é o descanso dado aos muito manjados Hal Jordan e Sinestro, que até aparecem, mas não tomam o centro dos eventos.

Ilustrado pelos artistas Tom Raney, Dexter Soy e Marco Santucci, que, se não brilham, tampouco comprometem, o roteiro de Geoffrey Throne ganha vida em momentos dignos da longa tradição cósmica da DC. Faz falta, porém, um desenhista superstar, como Ivan Reis, (que acompanhou Geoff Johns) ou alguém bem pirado mesmo, feito o J.H. Williams III. A escala de tudo é gigantesca, e só mesmo a falta de uma arte superior impedirá esta saga – com seus desdobramentos ousados, interessantes e cheios de propósito, mas tristemente abandonados pela DC na fase seguinte – de, futuramente, ser mencionada em pé de igualdade com as mais icônicas fases dos gladiadores esmeraldas.

2 comentários:

doggma disse...

Curti essa nova premissa dos Lanternas. Vou conferir, mas essa será nas importadas. Acabei de fechar os HCs da fase Johns e minha bateria central está pedindo arrego lanternístico!

Sobre a arte superior para dar conta da escala gigantesca de uma saga cósmica, fica a pergunta: quando é que o Pepe Larraz será enviado para Oa?

Marlo de Sousa disse...

DOGGMA, esta foi uma fase muito bacana dos Lanternas, vale a pena buscar esses três honestíssimos gibis. Tendo como pista o que ele fez em X-Men (especialmente em Planet-Size X-Men), o Larraz faria um ótimo trabalho, sem dúvida!