Uma crítica do quadrinho
Batman: Padrões Sombrios
Recentemente, tomei uma decisão radical: resolvi que vou quase zerar minha compra de quadrinhos. Exceto por algumas séries e fases que ainda desejo concluir, o plano é ficar apenas com A Saga do Batman e talvez, TALVEZ, a revista mensal de linha do personagem, que vem em boa fase. Dediquei 40 de meus 53 anos ao colecionismo de HQs, mas, agora, geralmente me falta tempo para ler tudo que compro - e, honestamente, às vezes me falta vontade. Olho para aquela estante cheia de livros ainda no plástico e, com frequência, fico pensando, "eu nunca vou (re)ler isso". Acho que já chega.
Sobre essa decisão, tenho ainda outra certeza: há muita coisa boa na minha coleção, mas, sem dúvida, os quadrinhos do Batman são aqueles que mais me doerá passar pra frente. Meu personagem favorito já está à beira dos 90 anos (e do domínio público) e muito já foi experimentado com ele - e não apenas em versões alternativas: o cânone do personagem já foi reimaginado mais vezes do que consigo me lembrar. Retcons, reboots, revamps... Pense numa "modinha" editorial qualquer: o Batman já passou por ela.
Embora alguns escritores ocasionalmente se esqueçam do fato de que o Batman é apenas um homem (ainda que no ápice da disciplina física e mental que se pode alcançar), colocando-o como alguém que antevê absolutamente tudo e dono de brinquedos tecnológicos que praticamente trabalham por ele, a essência original do personagem é sua versão mais cativante: um detetive que se preparou ao máximo para combater o crime e evitar que sua tragédia (o assassinato de seus pais) se repetisse com outros. Bobagens como backups mentais, robôs assassinos, e "babados" diversos envolvendo sua família empalidecem ante a força de suas características mais fundamentais.
"Só dói quando eu existo"
Foi por isso que, ao ler Batman: Dark Patterns em versão original digital, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, eu tive uma certeza muito forte: eu queria ter essa série na minha estante, em bom português e papel gostoso. Ironicamente, ela aportou nas nossas bancas quando decidi me afastar dos quadrinhos, mas, paciência. Tudo que há de certo e de bom sobre o Batman é visto nas tramas desenvolvidas ao longo de 12 edições, seis das quais compõem este primeiro volume. Batman: Padrões Sombrios é um golaço da DC - um gibi quase conservador, curiosamente, num período de grande reinvenção da editora, com a linha Absolute vendendo feito pão quentinho, varrendo as premiações e ditando tendência.
Dan Watters (Asa Noturna) escreve e Hayden Sherman (Absolute Mulher-Maravilha) desenha a série, ambientada no terceiro ano de atividade do Batman. Na primeira história, em três partes, ele investiga uma onda de assassinatos com pouca relação entre si e confronta um adversário de visual assustador, contra o qual sua força física pouco vale. O Homem-Ferida é uma autêntica criatura de pesadelos, de fazer o Pinhead de Hellraiser parecer um bichinho de pelúcia, com uma gênese trágica e uma motivação convincente. Se era de uma abertura impactante que o leitor precisava, "Nós Somos os Feridos" não deixa por menos.
"Cês tão pensando que eu sou o Batman do Tom King?"
Na segunda metade, um vilão clássico, Scarface, ressurge no comando de um edifício cuja própria arquitetura já representa um desafio, mas ainda abriga seguidores insanos e perigosos do boneco - e Arnold Wesker (chamado de "Albert", a certa altura, num erro que veio do original e a Panini manteve), o Ventríloquo, pode nem ser o maior de seus problemas. "A Voz da Torre" tem grandes momentos de Hayden Sherman, um artista que faz excelente uso de diagramações pouco óbvias e desenha um Batman que é puro Tim Sale, só que com narizes melhores. A sequência em que ele abre caminho distribuindo porrada por três andares é o tipo de coisa que amamos ver o Batman fazer.
Com o segundo volume já anunciado para setembro, Batman: Padrões Sombrios é o tipo de série que, ao longo das últimas quatro décadas, me fez perseverar em minha fé nos quadrinhos de super-heróis. É para presenciar momentos assim que a gente suporta Gotham destruída, o vai-e-vem da fortuna de Bruce Wayne, a degradação moral imposta a seus pais e a ainda não revertida perda de Alfred Pennyworth. Os escritores medíocres têm uma incrível sorte em contar com gente como Watters e Sherman para recolocar o universo e o coração do leitor de volta no eixo. Quadrinho obrigatório, mesmo para quem jurou que está parando.


