16/07/2026

Música & Mágica #14


ALANIS MORRISSETTE
Jagged Little Pill
1995

Em 1995, ainda faltava quase uma década para Pitty emergir como artista e, apesar dos esforços de todas que vieram antes dela (Rita Lee, Marina Lima, e até Marisa Monte), o pop rock brasileiro ainda era um terreno não apenas dominado por homens, mas, também, bastante machista. No ano anterior, os Raimundos haviam estreado com um disco arrasador, no qual as letras cômicas ajudavam a distrair um pouco o ouvinte do fato de que eles tratavam mulher feito lixo. No primeiro disco de Jorge Cabeleira, do mesmo 1994, "A História do Zé Pedrinho" terminava com "cinco tiros na cara daquela quenga safada". Vista sob a lente da vivência que só o passar no tempo permite, era uma época bem preocupante, mas éramos mais jovens e estávamos ocupados demais nos divertindo pra perceber.

Lá fora, não era muito melhor: o gangsta rap crescia e tomava as paradas, e "bitch" era o termo mais carinhoso que se ouvia, mas mulheres como Queen Latifah e Salt-N-Pepa botavam o dedo na cara dos fulaninhos e ajudavam as garotas a se sentirem mais donas de si. No rock, estava a pleno vapor o movimento Riot Grrrls, de bandas como Bikini Kill e L7, além de moças como PJ Harvey, Fiona Apple e Melissa Etheridge, todas cansadas de um sistema e de indivíduos que sempre as arrastavam para baixo nas relações pessoais e profissionais.

Lá no Canadá, a coisa bateu especialmente forte para uma cantora adolescente que havia lançado dois álbuns de pop que venderam muito mal e já ensaiava uma postura contrária à que esperavam dela na gravadora que a dispensou. Alanis Morrissette saiu de Ontário e foi viver em Los Angeles, nos EUA. Numa sucessão de acasos felizes, Alanis conheceu o empresário Scott Welch e, em seguida, o compositor e produtor Glen Ballard. Ambos acreditaram no talento vocal e poético da moça e a levaram para um selo feminista em essência: o hoje finado Maverick, co-dirigido por Madonna.

O primeiro fruto dessa união deveria ter vendido apenas o bastante pra Alanis garantir um novo álbum, mas a coisa simplesmente saiu do controle: apesar de toda a raiva e frustração de sua letra sobre irresponsabilidade emocional, "You Oughta Know", escolhida como primeiro single, explodiu em popularidade. Foi um divisor de águas tão potente na carreira de Alanis que muita gente, ainda hoje, pensa que Jagged Little Pill foi seu primeiro disco. Para mim, acostumado que estava a ouvir mulheres apenas no pop dançante ou romântico, foi um gratificante choque ouvir aquela garota de 19 anos esbravejar ao microfone, sobre a guitarra agressiva de Dave Navarro e o baixo pulsante de Flea, dos Red Hot Chili Peppers: "e eu estou aqui pra te lembrar da bagunça que você deixou ao ir embora".

Ao longo das suas 12 faixas (13 no CD, que tinha um mix alternativo de "You Oughta Know"), Jagged Little Pill é Alanis Morrissette chorando as pitangas de relacionamentos frustrados, reclamando da imaturidade de homens que esperam muito sem oferecer o mínimo em troca, e deixando claro que ela faz suas próprias escolhas e vive em paz com elas. No segundo single, "You Learn", ela diz que está tudo bem em surtar um pouco quando preciso: "eu recomendo meter os pés pelas mãos sempre que der, sinta-se livre". Cheia de anticonselhos, Alanis soava como alguém chapada de tranquilizantes sobre a batida malemolente, sampleada de "Mr. Loverman", de Shabba Ranks.

Por outro lado, o disco não era só choro e ranger de dentes: no belíssimo folk "Head Over Feet", Alanis é só elogios para o homem que consegue ser, ao mesmo tempo, namorado e melhor amigo: "você é o melhor ouvinte que já conheci / obrigado por sua paciência". Na indefectível "Ironic", ela lista uma série de reveses (nem sempre irônicos) em um tom comicamente resignado: "é como conhecer o homem de meus sonhos / e depois conhecer sua linda esposa". A lição é que coisas ruins acontecem quando a gente está distraído com as coisas boas, mas que a vida continua.

Alanis: "deu mole pra caramba, tremendo vacilão!"

Não é só nas letras que Alanis se destaca: dona de uma voz potente e cheia de maneirismos (que podem fascinar ou irritar, com pouca chance de meio-termo), ela e Ballard acertaram em cheio na execução, num equilíbrio difícil entre a potência do rock e a suavidade baladeira do pop. A música eficiente com certeza ajudou a mensagem de Alanis a afagar o coração das meninas e apunhalar o ego dos meninos - e por mais que algum deles possa dizer que ela canta essas coisas porque "não gosta de homem", a verdade é que quem não deve, não teme.

Pensar nisso me traz à memória alguém que conheci em 2001, um estadunidense em torno dos 35 anos, que visitava o Brasil com a família, para a qual trabalhei como intérprete. Em meio a uma conversa sobre meus ídolos na música, eu mencionei que estava ouvindo bastante este disco de Alanis, o que lhe fez comentar "she's a dangerous woman" (ela é uma mulher perigosa), com base na letra de "You Oughta Know". Imagine o que ele diria sobre "Your House", a faixa escondida do CD, uns cinco minutos após a última, em que ela invade a casa vazia do ex-namorado, vasculha suas coisas e chora em sua cama...

Lembrem-se de tratar bem suas namoradas, garotos. Elas guardam nomes, fatos e, às vezes, chaves.

* * * * *

Alanis Morrissette
Jagged Little Pill
Produzido por Glen Ballard
Lançado em 13 de junho de 1995

1. All I Really Want
2. You Oughta Know
3. Perfect
4. Hand in My Pocket
5. Right Through You
6. Forgiven
7. You Learn
8. Head Over Feet
9. Mary Jane
10. Ironic
11. Not the Doctor
12. Wake Up
13. You Oughta Know (mix) / Your House (a cappella)

14/07/2026

De tudo, ao meu amor serei atento


Uma crítica do filme
Obsessão

Ao ser perguntado qual é meu gênero favorito de filme, eu raramente tenho uma resposta definitiva a dar. Normalmente, digo que meu favorito é o drama (por ser um gênero menos sujeito a "modinhas") e aquele de que menos gosto costuma ser o terror (por conta de recursos manjados e por vezes desonestos, como o jump scare e o gore gratuito). Do início da década pra cá, porém, me vejo assistindo filmes de terror aos montes, porque o gênero se tornou um campo fértil de boas ideias.

Seja pela criatividade das tramas e reviravoltas, pelas grandes atuações ou pela beleza de sua fotografia (um valor que eu não costumava associar ao terror), filmes como Pearl, Noites Brutais, A Substância e Faça Ela Voltar estão entre as obras mais sólidas dos últimos anos, capazes de causar medo, repulsa e, o mais legal de tudo, refletir a sociedade e provocar discussão. Mesmo filmes de franquias que já chafurdaram em mediocridade, como Premonição, deram sinais de vitalidade recentemente.

A atual "febre" do terror é um filme que custou menos de US$ 1 milhão, mas já faturou mais de US$ 400 milhões, marca ainda mais impressionante quando vemos que ele não tem qualquer grande celebridade em seu elenco. Por trás do teor sobrenatural da história de um jovem que, por meio de um desejo mágico, "obriga" uma moça a se apaixonar por ele, Obsessão trata de relacionamentos tóxicos, sentimentos de posse e da crescente dificuldade do homem em aceitar a independência feminina e em lidar com seus próprios sentimentos.

Bear (Michael Johnston) é apaixonado pela colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette), mas não consegue criar coragem de tentar qualquer coisa. Em uma loja onde entrou para comprar um presente, Bear encontra um item chamado "salgueiro de um desejo", um artefato que deve ser quebrado ao meio para atender a um único desejo. Durante uma noite com Nikki e os amigos Ian (Cooper Thomlinson) e Sarah (Megan Lawless), em que pretendia declara seu amor, Bear fica nervoso e, constrangido, nega seus sentimentos. Frustrado e arrependido, ele quebra o "salgueiro de um desejo", pedindo que Nikki o ame mais do que qualquer coisa. Dá certo - e dá muito errado, também.

Nikki: "Já tirou a foto?"

O jovem diretor Curry Barker, de meros 26 anos, mostra-se atento ao adoecimento psicológico dos homens de sua geração, incapazes de entender o que sentem e de dar à mulher autonomia sobre seu desejo. Ainda que possa não ser um homem exatamente ruim, Bear é um covarde sem qualquer fibra, que vive entupido de oxicodona pra suportar a própria mediocridade. Ao comportar-se como "louca", Nikki diz muito mais sobre o que lhe foi feito, quando se negou a dar (ou ser) o que aquele homem queria dela. Fosse um namoro espontâneo, talvez fosse Bear a trancafiar e ameaçar Nikki.

Metáforas à parte, Obsessão funciona muito bem como espetáculo de horror. Apesar do orçamento modestíssimo, tem ótimos sustos e soluções visuais inventivas e eficientes, com zero uso de CGI ou IA. Para a construção da sua Nikki, Inde Navarrette estudou trabalhos como os de Toni Colette em Hereditário (2018) e de Mia Goth em Pearl (2023). Mesmo não alcançando o brilhantismo dessas, sua atuação é um dos pontos altos do filme. Outro aspecto positivo é o humor, seja pelo constrangimento ou pela patetice pura (especialmente quando, lá pelo terço final, Ian "ajuda" o desesperado Bear).

Um desses felizes casos em que o produto justifica o hype, Obsessão adentra com méritos ao catálogo de grandes momentos do terror nesta década. Sou desde já contra uma sequência, pelo forte risco de estragar o legado deste primeiro e, pelo amor de Deus, porque o público e os estúdios precisam reaprender a conformar-se com histórias que acabam e dão lugar às próximas. Tanto quanto o "não" de uma mulher não significa "talvez", a palavra "fim" não significa "a gente se vê".

06/07/2026

A pulsão de dançar


Uma crítica do álbum
Confessions II, de Madonna

Em 1998, quando lançou o ótimo e influente Ray of Light, já se discutia se Madonna "deveria" estar fazendo música pop - afinal, aos 40 anos, ela estava "velha". Sem tempo pra falatório, Madonna seguiu fazendo música pop nos anos seguintes, porque é isso que uma artista pop faz. Em 2005, ela lançou o que talvez seja seu último grande disco, Confessions on a Dance Floor, em que prestava homenagem à disco music, através de ótimas canções como "Hung Up", "I Love New York" e "Sorry", que soavam, ao mesmo tempo, muito modernas e saídas direto de alguma máquina do tempo instalada na pista do lendário Studio 54, em 1978.

De lá pra cá, ela lançou discos esforçados (Hard Candy, MDNA, Rebel Heart e Madame X), mas que davam a impressão de que ela ansiava por permanecer visível para uma geração do público que era menos dela e mais dos artistas que ela convidava para feats, como Pharrell Williams, Nicki Minaj e Anitta. Para mim, por mais que tivesse me interessado pelo Hard Candy (2008) e por faixas isoladas dos seguintes aqui e acolá, foi um período em que Madonna sumiu do radar - pelo menos, até o apoteótico show de Copacabana, em 2024, quando só se falava dela pelas razões certas (o legado musical e histórico) e pelas erradas (os patéticos vídeos de políticos e influencers contra ela).

Confessions II, lançado em 3 de julho, foi precedido por uma edição revista e ampliada do Confessions original, o que denota sua importância na carreira. Só que, por mais que o título faça pensar que se trata de uma sequência direta em música e estética, esta impressão cai por terra logo depois da primeira faixa, "I Feel So Free", que ainda emula a atmosfera do disco de 2005, para cair em uma sequência de músicas em que se reconhecem referências a outro período efervescente: a dance music dos anos 90 - mas não só. Madonna reedita aqui, também, a parceria com o produtor Stuart Price e outros que já colaboraram em sua extensa discografia, o que ajuda no sentimento de full circle.

Enquanto a mídia debate o sumiço da juventude dos bares e boates (trocados pela diversão solitária das telas e pelo boom da onda fitness), Madonna aposta na pista de dança como o lugar onde os diferentes encontram seus iguais e formam uma "força em números". A cantora celebra a catarse pela dança e contribui generosamente. O ótimo single com Sabrina Carpenter, "Bring Your Love", é um exemplo da disposição de Madonna em manter-se aliada a quem faz hoje o que ela já faz há quatro décadas.

Para encher as pistas do presente com ecos do passado, a diva pop da sua diva pop apela até àqueles riffs rapidinhos de teclado dos 90. "Chame de house, chame de techno, chame de 'amor sem palavras'", diz "Love Without Words", completando o que é dito em "One Step Away": a pista de dança é um espaço em que o movimento substitui a linguagem. Em "My Sins Are My Savior" (com Stromae), ouvem-se ecos de "Erotica", dela própria, e aquela batidinha característica do coletivo londrino Soul II Soul se faz ouvir. Tem até uma delícia chamada "Danceteria" (coisa dos anos 80), decretando a singularidade de cada beleza: "todo mundo aqui é uma obra de arte".

Madonna: idade é só um número.

Parecem bobagens ditas a esmo, mas são declarações assertivas: estamos vivendo uma forte onda conservadora mundo afora, e conclamar as pessoas a espaços seguros, onde podem ser quem são de verdade, é um gesto político cheio de significado. Madonna percebe o terror a que as minorias (raciais, sexuais, territoriais) têm sido submetidas e faz em Confessions II o que faz desde sempre: parte em defesa delas com sua arte em punho. Por um feliz acaso, a cantora encontra-se em um pico de inspiração que há tempos não conhecia.

Apesar disso, nem tudo funciona tão bem, e há certa autoindulgência em faixas meia-boca, como "Betrayal" e "School". No cair das cortinas, em "L.E.S. Girl", o dedilhado introdutório de guitarra faz lembrar de "Ray of Light", mas não entra nenhuma batida ou efeito: só a voz de Madonna falando (provavelmente) de si própria no início de carreira, quando tinha ambições maiores do que namorar um rapaz do Lower East Side: "eu não fui feita pra você", decreta.

Obviamente, o lançamento deste disco foi marcado por machismo e etarismo, com o pouco sutil desejo de alguns de que Madonna se aposente sendo gloriosamente rechaçado pelo xale de tule rosa da capa. Pode ser que agora, quando se aproxima dos 70, ela queira tirar mais tempo pra curtir o que lhe resta de vida de uma maneira diferente, mas a única pessoa que consegue ditar a Madonna o que fazer é ela própria. A julgar por este Confessions II - o disco mais vigoroso que lançou desde o Confessions original - Madonna deveria ainda estar fazendo música pop? Certamente. Vamos precisar repetir esta pergunta quando ela estiver beirando os 80? Se dermos sorte, sim.

* * * * *

Madonna
Confessions II
Produzido por Stuart Price, Madonna, Andrew Watt e outros.
Lançado em 3 de julho de 2026.

1. I Feel So Free
2. Good for the Soul
3. One Step Away
4. Bring Your Love
5. Danceteria
6. Read My Lips
7. Everything
8. Love Sensation
9. Love Without Words
10. Bizarre
11. School
12. Fragile
13. My Sins Are My Savior
14. The Test
15. L.E.S. Girl

01/07/2026

Sal na comida e na ferida


Uma crítica da série
O Urso, do Disney+

Um dos maiores estelionatos da atualidade é a tal da "experiência" no setor de serviços. Nada contra criar benefícios extras para seu consumidor, é bastante válido. O problema é quando isso serve apenas para a) mascarar a mediocridade do produto e b) justificar a cobrança de uma pequena fortuna. Quem entra em um restaurante, seja de alto, médio ou baixo padrão, quer resolver um único problema, primariamente: matar a fome (ou a vontade de comer). Tudo mais - origem supostamente exótica dos ingredientes, ambiente instagramável, garçons jogando malabares - é perfumaria.

Um dos encantos que tornaram O Urso um hit instantâneo era justamente contar com personagens que se importavam com a comida. Para um cozinheiro, a comida é a única variável passível de controle: você pode espremer cada gota de seu conhecimento culinário naquele prato e arrumá-lo da maneira mais bonita que consegue, mas, no fim das contas, pode apenas torcer para que o cliente goste do que está comendo.

Ajudava, também, o fato de que Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) tivesse herdado de seu irmão suicida Mike (Jon Bernthal) o mesmo restaurante no qual sempre foi proibido de trabalhar. O talento de Carmen o elevou a chef dos melhores restaurantes do mundo, mas, agora, ele se delega a missão de elevar um pé-sujo que só serve sanduíches de carne a um restaurante de primeira categoria - desses que, como descobrimos nos episódios finais, cobram perto de 200 dólares pelo jantar e sonham com estrelas do guia Michelin.

Richie: caos por fora e por dentro

Entendendo que "The Original Beef from Chicagoland" é um nome pouco atraente, seu primeiro ato administrativo é mudar o nome para The Bear (O Urso), em alusão a um sonho recorrente. Além de estrutura precária e contas no vermelho, Carmen herda um ambiente de trabalho extremamente caótico e tóxico, que só piora com sua chegada: perfeccionista obcecado, estressado e traumatizado, o chef é uma bomba-relógio explodindo um dia sim e o outro também.

Ao longo de suas cinco temporadas, assistir a O Urso podia ser uma experiência ao mesmo tempo deliciosa e torturante: Carmen e sua equipe eram capazes de começar bate-bocas incendiários pelas mais tolas razões e, frequentemente, acabavam vítimas de sua própria cabeça-quente. Era exaustivo atravessar terremotos emocionais como a cena do jantar de Natal, na segunda temporada. Na cena seguinte, porém, acabávamos fascinados com a criação de um prato perfeito ou com a ternura que unia aquelas pessoas que brigavam e eram capazes de dizer coisas horríveis umas às outras, mas que, por baixo de todo o caos autodefensivo, se amavam.

Sidney e Marcus: sendo fofos pra não surtar

Os personagens de O Urso estão entre os tipos mais notáveis de qualquer série lançada nos últimos anos. Era impossível não ser conquistado pela paciência extrema da chef estagiária Sidney (Ayo Edebiri), a doçura e o "deboísmo" do chef confeiteiro Marcus (Lionel Boyce), a sagacidade observadora e o jeito de mãezona de Tina (Lisa Colón-Zayas), e a inconstância irascível e estranhamente amorosa de Richie (Ebon Moss-Bachrach). Episódios focados nestes personagens estiveram entre os muitos pontos muito altos da série. Foi emocionante e inspirador acompanhar suas jornadas de crescimento profissional e pessoal.

O criador, roteirista, diretor e showrunner Christopher Storer se esmerou ao entregar uma série sempre bonita de assistir, com fotografia lindíssima, que valorizava a beleza arquitetônica de Chicago, tanto em planos aéreos e abertos, quanto no nível das ruas. Além disso, ao fundo, era sempre possível ouvir muita coisa boa de pop e rock (Pearl Jam, Taylor Swift, R.E.M, St. Vincent, Radiohead), apelando com especial frequência à banda prata-da-casa, o Wilco.

Estreando com regularidade invejável, entre 2022 e 2026, as temporadas de O Urso mantiveram um nível sempre muito alto, mesmo quando a quarta delas se mostrou algo perdida e resvalou perigosamente na indiferença do espectador, com brigas estúpidas (não no sentido de inesperadas, mas de burras e artificiais) e uma equivocada aposta no alívio "cômico" dos irmãos Fak, irritantes agregados que atuam como faz-tudo no restaurante. Por sorte, a temporada final foi uma despedida digna dos dois impecáveis primeiros anos.

Me pego agora pensando que O Urso foi lançada como um bom serviço de restaurante: a entrada (as duas primeiras temporadas) foi espetacular; o prato principal agradou em muito (a terceira), mas não em tudo (a quarta); e a sobremesa (a quinta) chegou tão gostosa que salvou a lembrança geral daquele jantar muito elegante, para o qual nos preparamos com grande expectativa. Uma série cujo sabor grudará na memória afetiva geral por muito tempo - e pro diabo com a tal "experiência"! Serviço cinco estrelas.