01/07/2026

Sal na comida e na ferida


Uma crítica da série
O Urso, do Disney+

Um dos maiores estelionatos da atualidade é a tal da "experiência" no setor de serviços. Nada contra criar benefícios extras para seu consumidor, é bastante válido. O problema é quando isso serve apenas para a) mascarar a mediocridade do produto e b) justificar a cobrança de uma pequena fortuna. Quem entra em um restaurante, seja de alto, médio ou baixo padrão, quer resolver um único problema, primariamente: matar a fome (ou a vontade de comer). Tudo mais - origem supostamente exótica dos ingredientes, ambiente instagramável, garçons jogando malabares - é perfumaria.

Um dos encantos que tornaram O Urso um hit instantâneo era justamente contar com personagens que se importavam com a comida. Para um cozinheiro, a comida é a única variável passível de controle: você pode espremer cada gota de seu conhecimento culinário naquele prato e arrumá-lo da maneira mais bonita que consegue, mas, no fim das contas, pode apenas torcer para que o cliente goste do que está comendo.

Ajudava, também, o fato de que Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) tivesse herdado de seu irmão suicida Mike (Jon Bernthal) o mesmo restaurante no qual sempre foi proibido de trabalhar. O talento de Carmen o elevou a chef dos melhores restaurantes do mundo, mas, agora, ele se delega a missão de elevar um pé-sujo que só serve sanduíches de carne a um restaurante de primeira categoria - desses que, como descobrimos nos episódios finais, cobram perto de 200 dólares pelo jantar e sonham com estrelas do guia Michelin.

Richie: caos por fora e por dentro

Entendendo que "The Original Beef from Chicagoland" é um nome pouco atraente, seu primeiro ato administrativo é mudar o nome para The Bear (O Urso), em alusão a um sonho recorrente. Além de estrutura precária e contas no vermelho, Carmen herda um ambiente de trabalho extremamente caótico e tóxico, que só piora com sua chegada: perfeccionista obcecado, estressado e traumatizado, o chef é uma bomba-relógio explodindo um dia sim e o outro também.

Ao longo de suas cinco temporadas, assistir a O Urso podia ser uma experiência ao mesmo tempo deliciosa e torturante: Carmen e sua equipe eram capazes de começar bate-bocas incendiários pelas mais tolas razões e, frequentemente, acabavam vítimas de sua própria cabeça-quente. Era exaustivo atravessar terremotos emocionais como a cena do jantar de Natal, na segunda temporada. Na cena seguinte, porém, acabávamos fascinados com a criação de um prato perfeito ou com a ternura que unia aquelas pessoas que brigavam e eram capazes de dizer coisas horríveis umas às outras, mas que, por baixo de todo o caos autodefensivo, se amavam.

Sidney e Marcus: sendo fofos pra não surtar

Os personagens de O Urso estão entre os tipos mais notáveis de qualquer série lançada nos últimos anos. Era impossível não ser conquistado pela paciência extrema da chef estagiária Sidney (Ayo Edebiri), a doçura e o "deboísmo" do chef confeiteiro Marcus (Lionel Boyce), a sagacidade observadora e o jeito de mãezona de Tina (Lisa Colón-Zayas), e a inconstância irascível e estranhamente amorosa de Richie (Ebon Moss-Bachrach). Episódios focados nestes personagens estiveram entre os muitos pontos muito altos da série. Foi emocionante e inspirador acompanhar suas jornadas de crescimento profissional e pessoal.

O criador, roteirista, diretor e showrunner Christopher Storer se esmerou ao entregar uma série sempre bonita de assistir, com fotografia lindíssima, que valorizava a beleza arquitetônica de Chicago, tanto em planos aéreos e abertos, quanto no nível das ruas. Além disso, ao fundo, era sempre possível ouvir muita coisa boa de pop e rock (Pearl Jam, Taylor Swift, R.E.M, St. Vincent, Radiohead), apelando com especial frequência à banda prata-da-casa, o Wilco.

Estreando com regularidade invejável, entre 2022 e 2026, as temporadas de O Urso mantiveram um nível sempre muito alto, mesmo quando a quarta delas se mostrou algo perdida e resvalou perigosamente na irrelevância, com brigas estúpidas (não no sentido de inesperadas, mas de burras e artificiais) e uma equivocada aposta no alívio "cômico" dos irmãos Fak, irritantes agregados que atuam como faz-tudo no restaurante. Por sorte, a temporada final foi uma despedida digna dos dois impecáveis primeiros anos.

Me pego agora pensando que O Urso foi lançada como um bom serviço de restaurante: a entrada (as duas primeiras temporadas) foi espetacular; o prato principal agradou em muito (a terceira), mas não em tudo (a quarta); e a sobremesa (a quinta) chegou tão gostosa que salvou a lembrança geral daquele jantar muito elegante, para o qual nos preparamos com grande expectativa. Uma série cujo sabor grudará na memória afetiva geral por muito tempo - e pro diabo com a tal "experiência"! Serviço cinco estrelas.

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