06/07/2026

A pulsão de dançar


Uma crítica do álbum
Confessions II, de Madonna

Em 1998, quando lançou o ótimo e influente Ray of Light, já se discutia se Madonna "deveria" estar fazendo música pop - afinal, aos 40 anos, ela estava "velha". Sem tempo pra falatório, Madonna seguiu fazendo música pop nos anos seguintes, porque é isso que uma artista pop faz. Em 2005, ela lançou o que talvez seja seu último grande disco, Confessions on a Dance Floor, em que prestava homenagem à disco music, através de ótimas canções como "Hung Up", "I Love New York" e "Sorry", que soavam, ao mesmo tempo, muito modernas e saídas direto de alguma máquina do tempo instalada na pista do lendário Studio 54, em 1978.

De lá pra cá, ela lançou discos esforçados (Hard Candy, MDNA, Rebel Heart e Madame X), mas que davam a impressão de que ela ansiava por permanecer visível para uma geração do público que era menos dela e mais dos artistas que ela convidava para feats, como Pharrell Williams, Nicki Minaj e Anitta. Para mim, por mais que tivesse me interessado pelo Hard Candy (2008) e por faixas isoladas dos seguintes aqui e acolá, foi um período em que Madonna sumiu do radar - pelo menos, até o apoteótico show de Copacabana, em 2024, quando só se falava dela pelas razões certas (o legado musical e histórico) e pelas erradas (os patéticos vídeos de políticos e influencers contra ela).

Confessions II, lançado em 3 de julho, foi precedido por uma edição revista e ampliada do Confessions original, o que denota sua importância na carreira. Só que, por mais que o título faça pensar que se trata de uma sequência direta em música e estética, esta impressão cai por terra logo depois da primeira faixa, "I Feel So Free", que ainda emula a atmosfera do disco de 2005, para cair em uma sequência de músicas em que se reconhecem referências a outro período efervescente: a dance music dos anos 90 - mas não só. Madonna reedita aqui, também, a parceria com o produtor Stuart Price e outros que já colaboraram em sua extensa discografia, o que ajuda no sentimento de full circle.

Enquanto a mídia debate o sumiço da juventude dos bares e boates (trocados pela diversão solitária das telas e pelo boom da onda fitness), Madonna aposta na pista de dança como o lugar onde os diferentes encontram seus iguais e formam uma "força em números". A cantora celebra a catarse pela dança e contribui generosamente. O ótimo single com Sabrina Carpenter, "Bring Your Love", é um exemplo da disposição de Madonna em manter-se aliada a quem faz hoje o que ela já faz há quatro décadas.

Para encher as pistas do presente com ecos do passado, a diva pop da sua diva pop apela até àqueles riffs rapidinhos de teclado dos 90. "Chame de house, chame de techno, chame de 'amor sem palavras'", diz "Love Without Words", completando o que é dito em "One Step Away": a pista de dança é um espaço em que o movimento substitui a linguagem. Em "My Sins Are My Savior" (com Stromae), ouvem-se ecos de "Erotica", dela própria, e aquela batidinha característica do coletivo londrino Soul II Soul se faz ouvir. Tem até uma delícia chamada "Danceteria" (coisa dos anos 80), decretando a singularidade de cada beleza: "todo mundo aqui é uma obra de arte".

Madonna: idade é só um número.

Parecem bobagens ditas a esmo, mas são declarações assertivas: estamos vivendo uma forte onda conservadora mundo afora, e conclamar as pessoas a espaços seguros, onde podem ser quem são de verdade, é um gesto político cheio de significado. Madonna percebe o terror a que as minorias (raciais, sexuais, territoriais) têm sido submetidas e faz em Confessions II o que faz desde sempre: parte em defesa delas com sua arte em punho. Por um feliz acaso, a cantora encontra-se em um pico de inspiração que há tempos não conhecia.

Apesar disso, nem tudo funciona tão bem, e há certa autoindulgência em faixas meia-boca, como "Betrayal" e "School". No cair das cortinas, em "L.E.S. Girl", o dedilhado introdutório de guitarra faz lembrar de "Ray of Light", mas não entra nenhuma batida ou efeito: só a voz de Madonna falando (provavelmente) de si própria no início de carreira, quando tinha ambições maiores do que namorar um rapaz do Lower East Side: "eu não fui feita pra você", decreta.

Obviamente, o lançamento deste disco foi marcado por machismo e etarismo, com o pouco sutil desejo de alguns de que Madonna se aposente sendo gloriosamente rechaçado pelo xale de tule rosa da capa. Pode ser que agora, quando se aproxima dos 70, ela queira tirar mais tempo pra curtir o que lhe resta de vida de uma maneira diferente, mas a única pessoa que consegue ditar a Madonna o que fazer é ela própria. A julgar por este Confessions II - o disco mais vigoroso que lançou desde o Confessions original - Madonna deveria ainda estar fazendo música pop? Certamente. Vamos precisar repetir esta pergunta quando ela estiver beirando os 80? Se dermos sorte, sim.

* * * * *

Madonna
Confessions II
Produzido por Stuart Price, Madonna, Andrew Watt e outros.
Lançado em 3 de julho de 2026.

1. I Feel So Free
2. Good for the Soul
3. One Step Away
4. Bring Your Love
5. Danceteria
6. Read My Lips
7. Everything
8. Love Sensation
9. Love Without Words
10. Bizarre
11. School
12. Fragile
13. My Sins Are My Savior
14. The Test
15. L.E.S. Girl

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