15/12/2025

Resumão 2025 (Melhores do Ano)




FILMES


A Hora do Mal, de Zach Cregger - Depois do ótimo Noites Brutais, Cregger retornou com um filme que parece um filhote bastardo de M. Night Shyamalan com Sam Raimi. Estranheza cômica e brutalidade sangrenta dividindo o mesmo espaço. O nome de Amy Madigan (a pavorosa Tia Gladys) começa a ganhar força para o Oscar de 2026.


F1, de Joseph Kosinski - Este filme cumpre com excelência certas expectativas que Kosinski deixou frustradas com Top Gun: Maverick. História mais consistente, veterano (Brad Pitt) dividindo a tela numa boa com um novato em ascensão (Damson Idris), e resultado final que não parece apenas uma peça de propaganda de orçamento inflado. É cinema pra valer.


Faça Ela Voltar, de Michael Phillipou e Danny Phillipou - Fale Comigo foi interessante, mas os irmãos Phillipou voltaram com sangue nos olhos para este filme: o trauma e a perda são o tema de um filme incômodo e violento, que gruda em nossas retinas e mentes por dias. Não a vejo tendo chances no Oscar, mas a atuação de Sally Hawkins é um colosso.


Pecadores, de Ryan Coogler - Um filme de gângster, que é um filme de vampiros, que é um musical. Não é indecisão: tudo está tão bem mesclado, que só podemos qualificar como alquimia. Em seu primeiro grande projeto pessoal e original, Ryan Coogler beirou a genialidade. Que atire a primeira pedra (na própria cabeça) quem não se arrepiou na cena do baile.


Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson - Aos poucos, o cinema de PTA vai encontrando um caminho do meio entre o alternativo e o mainstream, respeitando a inteligência de quem vai ao cinema e preservando o senso de diversão e espetáculo, sem deixar de apontar o dedo para a cara feia da América de Donald Trump (no post anterior, uma crítica mais detalhada).


SÉRIES


A Diplomata (T3), Netflix - Trocando patriotadas malucas por uma visão realista e pragmática das relações internacionais, as desventuras da embaixadora americana Kate Wyler (Kerri Russell) para preservar os interesses nacionais e respeitar a soberania dos aliados rendem ótimos diálogos, regados a muito orgulho ferido, conchavos, concessões e sexo. É só gente falando o tempo inteiro, mas é sensacional e altamente viciante.


Andor (T2), Disney+ - Uma aula magna sobre a crueldade dos governos totalitários e a importância de combatê-los. Não se vê um Jedi por perto, mas, mesmo assim, Andor é o melhor produto com a marca Star Wars a sair dos estúdios da Disney. Fazendo ponte perfeita para a introdução de Rogue One (2016), chega em ótima hora para nos lembrar que não existe isso de "lado bom da ditadura".


Pluribus (T1), Apple TV - Vince Gilligan retoma a parceria com a maravilhosa Rhea Seehorn para mostrar o apocalipse mais sereno que já se viu: um vírus alienígena se espalha e a humanidade vira uma grande mente de colméia, com todo mundo feliz e dividindo memórias, conhecimentos e habilidades - exceto por 12 sortudos (?), entre os quais, a irascível e enlutada Carol Sturka (Seehorn), que se recusa a aceitar numa boa tanta paz e amor.


Task (T1), HBO Max - Foi anunciada como minissérie, mas já anunciaram uma segunda temporada, e eu não reclamo se virar uma antologia, na linha True Detective. Quando um grupo começa a atacar pontos de fabricação e distribuição de drogas para roubar dinheiro, o agente Tom Brandis (Mark Ruffalo) larga a "boa vida" do trabalho burocrático (e do recorrente alcoolismo) para investigar os crimes em campo. Vários níveis de miséria humana e ótimas atuações.


Terra Indomável, Netflix - O ano já começou a mil, com esta minissérie que mostra o oeste selvagem mais selvagem que já se viu. A promessa de terras e riquezas na costa pacífica leva gente boa e gente muito ruim a cruzar caminho em Utah, onde os fanáticos da igreja mórmon se somam aos enormes perigos naturais e humanos. É tudo tão potente e cuidadoso que lembra mais um produto da HBO que da Netflix.


QUADRINHOS


O inquestionável destaque do ano foi o sucesso da linha Absolute - que, a bem da verdade, começou lá fora no fim de 2024 e, em tese, deveria chegar ao fim com a derrota de Darkseid ao fim do evento DC K.O, mas é improvável que a DC vá jogar no lixo gibis que vendem tanto. Para mim, o Superman de Jason Aaron foi intragável desde o começo; o Batman de Scott Snyder começou muito bem, mas foi virando paródia de si próprio e me perdeu.

Já a Mulher-Maravilha de Kelly Thompson e Hayden Sherman é um gibi impecável, que não perdeu fôlego ao longo de suas atuais 14 edições. Traz uma ótima caracterização da heroína, que não teme ameaça ou sacrifício algum, exalando bondade e bravura, em arcos que se concluem a cada duas ou três edições.

Outro que também segue uma cartilha de quadrinismo clássico, com uma interpretação quase ideal do personagem, é o herói visto em Batman: Dark Patterns, maxissérie escrita por Dan Watters e, também, desenhada por Hayden Sherman. Nos quatro arcos de suas 12 edições, um vilão clássico repaginado (Scarface) e três novas ameaças, entre as quais sobressai o apavorante Wound Man. Aguardo ansioso pra ter na estante a versão nacional, a ser anunciada pela Panini.


MÚSICA

Eu não escutei nenhum discaaaço gringo em 2025, o que, logicamente, não significa que não tenha saído nenhum. A culpa foi minha, pois me dediquei mais a ouvir velharias - segundo o wrapped do Spotify, eu tenha 34 "anos musicais" como ouvinte, dando preferência a material das décadas de 2000 e 2010. Então, já que não me lembro de nenhum grande disco gringo no ano, me abstenho de fazer uma lista de melhores, mas posso afirmar que um disco muito bonito que escutei este ano foi o elegantíssimo R&B de Beloved, do Giveon.


Já na música nacional, 2025 foi um excelente ano, principalmente entre os independentes, que demonstraram riqueza e vigor musicais. Entretanto, exceto pelo já resenhado disco do Seu Pereira, me faltou tempo para uma audição mais cuidadosa e analítica dos indicados, por isso a falta de textos sobre eles (prometo ser menos relapso em 2026). Os cinco melhores discos brasileiros que escutei este ano foram:


Joaquim, Varanda dos Palpites
Luedji Luna, Antes que a Terra Acabe
Luedji Luna, Um Mar para Cada Um
Raquel Reis, Divina Casca
Seu Pereira e Coletivo 401, Obsoleto


02/12/2025

Uma Batalha Após a Outra


A fotografia granulada, combinada à tendência de alocar suas histórias no passado, confere aos filmes de Paul Thomas Anderson um ar de coisa vintage, se não francamente antiga. Ele certamente não se incomodaria em ser confundido como contemporâneo do jovem Martin Scorsese ou de Stanley Kubrick, para mencionar apenas dois de seus ídolos e claras influências. Suas histórias são contadas através de personagens desesperados, disfuncionais, traumatizados, arrependidos. Não é o que se possa chamar de cinema das multidões, mas, aos poucos, a resistência do público vem diminuindo.

O primeiro de seus filmes que assisti foi talvez o mais difícil deles, Magnólia (1999), com suas tramas entrelaçadas e o final mais intrigante daquele fim de século, muito discutido e pouco assistido de fato. Era apenas seu terceiro filme e, dois anos antes, ele já havia dado à luz uma pequena obra-prima, Boogie Nights. Desde então, o homem enfileirou filmes com roteiros que privilegiam a inteligência do espectador, direção estilizada, visual impecável e atuações soberbas. É dele, por exemplo, o filme chamado, em diversas listas, de melhor do século 21 (e eu concordo), o monumental Sangue Negro (2007). É raro que um filme de Paul Thomas Anderson não seja lembrado nas indicações ao Oscar.

Não deve ser diferente em 2026, quando Uma Batalha Após a Outra deve figurar em categorias importantes. Talvez seja o mais convencional entre seus dez filmes, mas, ainda assim, é um ao qual não se assiste impassível, principalmente por seus paralelos com a realidade dos EUA no presente. O momento da história não é explícito (e ainda existe um salto de 16 anos), mas só não vê quem não quer: ricaços supremacistas comandando o país, cidadão comum sem perspectivas, polícia e exército truculentos e imigrantes perseguidos.

Quando o fictício grupo revolucionário French 75 ataca um campo de detenção de imigrantes, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) é a líder de campo e "Ghetto" Pat (Leonardo DiCaprio) é seu namorado especialista em explosivos. O grupo liberta os detidos e Perfidia humilha sexualmente o oficial Steven Lockjaw (Sean Penn), que fica obcecado por ela e a surpreende durante um novo ataque. Quando o grupo é traído e vários de seus membros são capturados ou mortos, Perfidia foge do país e deixa com Pat a filha recém-nascida. Anos depois, a menina e Pat vivem como fugitivos, ele sob novo nome (Bob), mas Lockjaw ainda os persegue, agora com motivos mais pessoais.

As ótimas cenas de perseguição com carros (especialmente aquela no sobe-desce dos pontos cegos da Rota 78) aproximam Uma Batalha Após a Outra de um filme de ação mais convencional - ainda que ninguém seja sobrenaturalmente bom ao volante, pois os personagens de PTA são gente comum, mesmo as que têm aspirações e trabalhos incomuns. É por isso que as trocas de tiro são desajeitadas e as fugas nem sempre acabam bem. Isso é ótimo, e, felizmente, o público começou a entender, fazendo deste o maior sucesso comercial do diretor - o que significa cerca de 200 milhões de dólares para um custo médio de 150 milhões. Nada tão impressionante, mas lembre-se que estamos falando de um filme com quase três horas de duração, de um diretor tido como "difícil". 

Brilhantismo técnico à parte, o filme apoia-se na entrega de seu elenco, com interpretações que devem receber acenos no próximo Oscar, especialmente Sean Penn. Seu Steve Lockjaw é hipócrita e patético, mas nem por isso menos perigoso. O ator some debaixo da pele do militar e tem algumas das melhores cenas do filme. DiCaprio é mais contido, mas Pat/Bob é um personagem muito rico em sua total inadequação e incansável dedicação no posto de pai de uma filha que pode nem ser sua. Também a intérprete da menina, Chase Infiniti, é um furacão. Pragmática e esperta, Willa é mais mãe de Bob do que filha e já começa a buscar seus próprios caminhos na luta e na vida. É possível que ainda sobrem acenos/prêmios para Regina Hall e Benicio del Toro.

Tendo visto mais de metade de sua filmografia, posso dizer que Paul Thomas Anderson já é um de meus favoritos, porque seu trabalho nada com força contra a maré de mediocridade e apatia que sempre ameaçou engolir Hollywood - e imagina viver num mundo em que os filmes (e a arte em geral) não servem para cutucar nossas feridas, somente nos anestesiar e desmobilizar de qualquer desejo de mudar este mundo horrível em que vivemos. Não imagine demais: já acontece, e é por isso mesmo que o cinema de PTA e semelhantes é tão necessário.