14/01/2026

Mar de ausências e silêncios


Uma crítica do filme
O Filho de Mil Homens

Temos aqui um claro exemplo do que torna o modelo de negócio e produção artística da Netflix um problema: um filme tão bom, tão forte e tão bonito deveria ter feito carreira no cinema - e arrisco que teria feito bonito. Porém, exceto por algumas exibições em festivais e privilegiadas salas de arte, O Filho de Mil Homens chegou direto no streaming. Parece cruel e injusto para com um filme de tamanha qualidade.

O livro homônimo do angolano radicado português Valter Hugo Mãe é um dos mais tristes em que já pus os olhos. A história do pescador Crisóstomo, entremeada com a de outros personagens igualmente trágicos, era uma leitura tocante, mas, por vezes, difícil, tamanhas as provações e que seus personagens eram submetidos. Quase não havia trégua na dor física e/ou emocional que os atravessava.

O filme de Daniel Rezende também não poupa o espectador. Não chega a ser chocante, mas esteja avisado de cenas de nudez frontal masculina e de sugestão sexual. Além de ocasional violência física, existe muita violência psicológica: as coisas ditas pelas bocas maldosas das "pessoas de bem" do vilarejo - e mesmo pelos protagonistas entre si, em momentos de tensão - podem machucar tanto quanto um soco.

Desde o surpreendente Bingo - O Rei das Manhãs (2017), tudo que eu podia usar para qualificar o trabalho de Daniel Rezende eram os filmes da Turma da Mônica, todos muito bonitinhos, mas bobinhos - portanto, a expectativa era baixa, admito. O Filho de Mil Homens, porém, é o belo fruto de uma enorme sensibilidade e de um bom gosto raro em nosso cinema.

Primeiramente, salta aos olhos a beleza da fotografia de Azul Serra. Desde as paisagens naturais até os interiores das casas, Serra entrega imagens de composição exemplar, que colam em nossas retinas, ampliando a força dramática do roteiro de Daniel Rezende. As filmagens foram realizadas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA), separadas por quase 1.500 km, mas somos persuadidos a crer que são dois cenários do mesmo lugar. As cores, os enquadramentos, as soluções técnicas (como começar o filme com tela quadrada e terminar com ela expandida), é tudo de uma excelência ímpar.

Toda a beleza da fotografia, porém, significaria pouco, se estivesse aliada a um roteiro piegas. A opção de Rezende em manter a crueza das páginas do livro revela-se um tremendo acerto. Coaches de autoestima e influencers de fofura podem até gostar do filme, mas devem relutar em usar cortes dele, sob risco de ter seguidores assistindo-o e cogitando processá-los, por motivo de pintos balançando em close-up (mas, cá pra nós, é uma possibilidade que me diverte).


Existe ainda, o elenco totalmente entregue a seus papéis. Rodrigo Santoro adiciona mais um desajustado à sua já extensa galeria. O pescador Crisóstomo é um eremita, evitado até pelos colegas pescadores, por conta de sua biografia problemática. Sua única companhia é um boneco de pano, estranhamente carismático em seu silêncio. Ao atingir os 40 anos, ele decide que não quer mais ser sozinho e deseja começar uma família. Seu desejo vai, aos poucos, sendo atendido por meio de encontros mais ou menos casuais: primeiro, ele conhece o precoce menino Camilo (Miguel Martines); depois, chega Isaura (Rebeca Jamir), cujo casamento acaba mesmo antes de começar. Por fim, Antonino (Johnny Massaro), um rapaz gay que não tem paz em casa, nem fora dela.

As histórias desses estranhos se entrelaçam e se assemelham, enquanto produtos do descumprimento das expectativas e convenções sociais. Enquanto estão ali, tentando realizar os sonhos de felicidade dos outros, ao custo de seus próprios sonhos e felicidade, essas pessoas se veem apequenadas, limitadas, presas em cubículos literais ou simbólicos (lembra da tela quadrada mencionada acima?). Somente quando abraçam suas próprias imperfeições e as alheias é que aprendem a sentir-se livres. Não é fácil o caminho, não é indolor o processo, mas o horizonte que se estende à sua frente faz tudo valer a pena. Famílias escolhidas, forjadas na dor e na empatia, também são famílias.

É um filme de coragem tremenda - não pela nudez ou pela libido em cena, mas por expor as entranhas mais profundas e apodrecidas de pessoas cuja maldade, com frequência, manifesta-se disfarçada de um suposto amor ou temor a Deus. Certas coisas que são ditas no filme chegam a incomodar fisicamente. O preconceito é realmente um vício (como em oposição à virtude) dos mais hediondos, mas nem todo mundo tem coragem de vestir a carapuça que o filme lhe estende.

O Filho de Mil Homens é, enfim, um dos filmes mais bonitos que tive o prazer de assistir, em forma e conteúdo, prova inegável do talento superlativo de todos os envolvidos. É maravilhoso que ele seja brasileiro, pois é mais um que coloca nosso cinema em pé de igualdade com o melhor que é feito lá fora. Se um filme assim não merece a tela de cinema, eu não sei dizer qual outro mereceria.

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