Temos aqui um claro exemplo do que torna o modelo de negócio e produção artística da Netflix um problema: um filme tão bom, tão forte e tão bonito deveria ter feito carreira no cinema - e arrisco que teria feito bonito. Porém, exceto por algumas exibições em festivais e privilegiadas salas de arte, O Filho de Mil Homens chegou direto no streaming. Parece cruel e injusto para com um filme de tamanha qualidade.
O livro homônimo do angolano radicado português Valter Hugo Mãe é um dos mais tristes em que já pus os olhos. A história do pescador Crisóstomo, entremeada com a de outros personagens igualmente trágicos, era uma leitura tocante, mas, por vezes, difícil, tamanhas as provações e que seus personagens eram submetidos. Quase não havia trégua na dor física e/ou emocional que os atravessava.
O filme de Daniel Rezende também não poupa o espectador. Não chega a ser chocante, mas esteja avisado de cenas de nudez frontal masculina e de sugestão sexual. Além de ocasional violência física, existe muita violência psicológica: as coisas ditas pelas bocas maldosas das "pessoas de bem" do vilarejo - e mesmo pelos protagonistas entre si, em momentos de tensão - podem machucar tanto quanto um soco.
Desde o surpreendente Bingo - O Rei das Manhãs (2017), tudo que eu podia usar para qualificar o trabalho de Daniel Rezende eram os filmes da Turma da Mônica, todos muito bonitinhos, mas bobinhos - portanto, a expectativa era baixa, admito. O Filho de Mil Homens, porém, é o belo fruto de uma enorme sensibilidade e de um bom gosto raro em nosso cinema.
Primeiramente, salta aos olhos a beleza da fotografia de Azul Serra. Desde as paisagens naturais até os interiores das casas, Serra entrega imagens de composição exemplar, que colam em nossas retinas, ampliando a força dramática do roteiro de Daniel Rezende. As filmagens foram realizadas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA), separadas por quase 1.500 km, mas somos persuadidos a crer que são dois cenários do mesmo lugar. As cores, os enquadramentos, as soluções técnicas (como começar o filme com tela quadrada e terminar com ela expandida), é tudo de uma excelência ímpar.
Toda a beleza da fotografia, porém, significaria pouco, se estivesse aliada a um roteiro piegas. A opção de Rezende em manter a crueza das páginas do livro revela-se um tremendo acerto. Coaches de autoestima e influencers de fofura podem até gostar do filme, mas devem relutar em usar cortes dele, sob risco de ter seguidores assistindo-o e cogitando processá-los, por motivo de pintos balançando em close-up (mas, cá pra nós, é uma possibilidade que me diverte).
As histórias desses estranhos se entrelaçam e se assemelham, enquanto produtos do descumprimento das expectativas e convenções sociais. Enquanto estão ali, tentando realizar os sonhos de felicidade dos outros, ao custo de seus próprios sonhos e felicidade, essas pessoas se veem apequenadas, limitadas, presas em cubículos literais ou simbólicos (lembra da tela quadrada mencionada acima?). Somente quando abraçam suas próprias imperfeições e as alheias é que aprendem a sentir-se livres. Não é fácil o caminho, não é indolor o processo, mas o horizonte que se estende à sua frente faz tudo valer a pena. Famílias escolhidas, forjadas na dor e na empatia, também são famílias.
É um filme de coragem tremenda - não pela nudez ou pela libido em cena, mas por expor as entranhas mais profundas e apodrecidas de pessoas cuja maldade, com frequência, manifesta-se disfarçada de um suposto amor ou temor a Deus. Certas coisas que são ditas no filme chegam a incomodar fisicamente. O preconceito é realmente um vício (como em oposição à virtude) dos mais hediondos, mas nem todo mundo tem coragem de vestir a carapuça que o filme lhe estende.
O Filho de Mil Homens é, enfim, um dos filmes mais bonitos que tive o prazer de assistir, em forma e conteúdo, prova inegável do talento superlativo de todos os envolvidos. É maravilhoso que ele seja brasileiro, pois é mais um que coloca nosso cinema em pé de igualdade com o melhor que é feito lá fora. Se um filme assim não merece a tela de cinema, eu não sei dizer qual outro mereceria.


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