13/01/2026

A felicidade é uma arma quente


Uma crítica da série
Pluribus, da Apple TV

Não há coisa que divirta mais a Hollywood do que imaginar o fim do mundo. Em filmes e séries dos mais diversos gêneros, o mundo já foi inundado, congelado, invadido, detonado por fora e por dentro. Pluribus vem somar-se a esta já longa mitologia, trazendo o que talvez seja o fim de mundo mais tranquilo já visto. O ideal é começar a vê-la sem saber de nada, mas, a esta altura, sendo a série mais vista na história da Apple TV, no mínimo, alguém já falou dela perto de você.

Quando um sinal alienígena é traduzido como uma sequência de RNA e reproduzido em um laboratório astronômico, não demora muito até que uma pequena distração vire um pesadelo: o vírus escapa e vai contaminando as pessoas, transmitido pela saliva. Após uma pequena convulsão, as pessoas contaminadas despertam integrando uma espécie de mente-colmeia, partilhando toda sua memória e conhecimentos com todos os demais indivíduos do planeta, unidos em perene igualdade e felicidade.

Bom, quase todos: a escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn) testemunha os espasmos e a posterior conversão de todos ao seu redor, mas ela, por sorte ou azar, mostra-se imune. A mente-colmeia não consegue absorvê-la e espera que Carol se junte voluntariamente, mas garante que jamais a forçará a unir-se e vai prover por ela até que mude de ideia. Furiosa porque sua namorada não sobreviveu à conversão - e, ora bolas, porque o livre-arbítrio foi tirado de oito bilhões de pessoas e o planeta virou uma utopia desprovida de personalidade - Carol começa a imaginar se consegue salvar o mundo.

Carol Sturka e Zosia, sua "babá" convertida: o fim do mundo é um porre

Pluribus marca o retorno de Vince Gilligan à televisão, após o sucesso e prestígio das séries "irmãs" Breaking Bad e Better Call Saul - desta vez, trocando a Netflix pela Apple TV, que vai rapidamente se tornando a rival por excelência da HBO em respeito à inteligência do público. Gilligan traz de volta suas assinaturas narrativas e visuais: os silêncios prolongados, os diálogos econômicos mas cortantes, os planos abertos grandiosos, os close-ups longos e incomuns, as rimas cromáticas. Não é para viciados em adrenalina, definitivamente.

Não é muito óbvio o objeto da crítica de Pluribus. Gilligan parece preferir que o espectador se ocupe de decifrar suas intenções, o que configura uma bem-vinda exceção num meio que vai sendo progressivamente empobrecido, com produtos feitos para garantir o entendimento de uma geração desfocada, que assiste à TV desviando os olhos para o celular e depois corre para procurar um vídeo de "final explicado". Gilligan não está nem aí pro seu TDAH, seja real ou da Shopee. Se você pega o celular porque está tudo muito parado numa cena, ele mete um lance importante justamente quando você não está prestando atenção - e aí, lá vai você, tendo que voltar dez segundos.

Aliás, entendo a felicidade compulsória da mente-colmeia justamente como uma crítica à massa que habita as redes sociais sem qualquer filtro crítico, reproduzindo trends e colocando sua privacidade e segurança em risco em troca de engajamento vazio, apresentando apenas o lado bonito da sua existência e uma felicidade encenada. Carol é como aquela comentarista que vai lá no teu post e diz que te conhece bem demais pra cair no teu papinho de "só agradecer".

Pode ser Carol a criticada, também: com sua teimosia birrenta e determinação em ser chata apenas porque sim, Carol, a "heroína", testa a nossa paciência em diversos momentos, como aquele amigo militante que está cego para qualquer ponto-de-vista alternativo. Pode ser uma crítica geral ao conformismo e ao comportamento de rebanho. De novo, Gilligan não oferece uma explicação fácil e limpinha. Ele quer que você pare, pense e tire suas conclusões.

Seja como for, o que não falta em Pluribus é material de identificação. Outros onze humanos são imunes como Carol, mas ela percebe que dez deles não compartilham de sua indignação e disposição de trazer o mundo de volta ao que era. Afinal, quem não gostaria de viver em um mundo em que a tristeza, a fome e a violência foram abolidas? Para um deles, pelo menos, viver em um mundo perfeitamente seguro e feliz parece valer o sacrifício da própria individualidade. A maioria, porém, quer apenas seguir perto de seus amigos e parentes, mesmo que não sejam mais exatamente quem eram, e desfrutar da disposição extrema dos convertidos em agradar aos ainda despertos, aspecto que torna o mauritano Koumba Diabaté (Samba Schutte) um inegável favorito. Ele só quer transar e "luxar", e eu não me sinto capaz de julgá-lo.

Diabaté: não sou rico, mas me permito certos luxos...

Há momentos em que Pluribus parece correr atrás do próprio rabo, mas a apatia e o tédio são inerentes à situação de Carol como alguém que teve a entrada ao "paraíso" negada e, agora, por indignação genuína ou orgulho besta, se nega a entrar com um convite tardio. A atuação explosiva de Rhea Seehorn, premiada com o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, revela novas camadas de Carol a cada episódio, da esperteza analítica à tristeza autodestrutiva, com direito à tentação de simplesmente entregar-se ao que parece impossível de combater (e, secretamente, tão desejável). Por sorte, Carol não está só: o único humano desperto que rejeitou o encontro inicial parece ainda mais determinado que ela em acabar com a invasão. O perigo vem do Paraguai e seu nome é Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga).

Pluribus tem três temporadas previstas, o que, para mim, já parece muito. Sempre existe a chance de que o sucesso a estique além do razoável, mas torço para que Gilligan seja como Carol Sturka e resista ferozmente à tentação da felicidade por meio do dinheiro fácil, o que parece uma tática da mente-colmeia para absorvê-lo. Se o mundo vai acabar em apatia e sorrisos amarelos, que não sejam os nossos, pela decepção. Por enquanto, em sua primeira temporada, Pluribus me deixou bastante feliz, mesmo desperto (ou será que estou?).

Um comentário:

Gabriel Lima disse...

Me interessei pela série por sua crítica, Marlo. Não tinha ideia sobre o que era e fico muito feliz por ter algo que critica o comportamento de massa de felicidade falsa. Passou uma vibe Admirável Mundo Novo, que é um livro que eu amo, pela sua descrição.