16/01/2026

Amor em tempos de seca (e sangue)


Uma crítica da novela
Guerreiros do Sol, da Globoplay

As novelas da Rede Globo já foram o principal lazer das famílias brasileiras. Suas tramas e pautas eram discutidas em todos os ambientes. A chegada da TV por assinatura e da internet, porém, fragmentou a atenção do público, que passou a preferir histórias mais curtas e com produção mais caprichada, sem o compromisso de estar na frente da TV, religiosamente, às 18, 19h ou 21h, seis dias por semana, seguindo uma trama cheia de "barrigas" (aqueles momentos em que a história não avança) que podia se estender por meio ano, ou até mais.

Desde então, a Globo tem obtido relativos sucessos de audiência, mas longe dos números dos seus anos dourados. Depois de passar anos lamentando e tentando fazer de conta que a internet não era uma ameaça, parece que a emissora carioca aprendeu a conviver nos ambientes virtuais e atendeu a uma demanda antiga da audiência quando inaugurou o Globoplay, há dez anos. Sua posição entre os serviços de streaming com maior audiência no país varia de acordo com quem pesquisa, mas é certo que está entre os cinco mais populares e segue crescendo.

Há anos produzindo documentários e minisséries, a Globoplay lançou sua primeira novela exclusiva em 2025. Guerreiros do Sol foi exibida entre 11 de junho e 6 de agosto de 2025, em levas semanais de cinco capítulos, totalizando 45. Prometida para estrear na Globo "normal" em abril deste ano, é uma produção de ótimo nível, o que não impede que tenha seus problemas. Sua história é livremente baseada no livro Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, e na famosa história do bando de Lampião e Maria Bonita.

Nos anos 1930, Rosa (Isadora Cruz) e Josué (Thomás Aquino), se conhecem e se apaixonam no sertão pernambucano, para depois terem suas vidas transformadas pela violência. Josué se vê obrigado a montar seu próprio bando de cangaço, do qual participam três de seus quatro irmãos: Arduíno (Irandhir Santos), Milagre (Ítalo Martins) e Sabiá (Vitor Sampaio). O bando cresce em tamanho e em fama, com suas proezas fora-da-lei levando Josué a ser conhecido como "governador do sertão". Com inveja do irmão temido e respeitado, Arduíno se volta contra o bando, jurando acabar com a vida dos irmãos.

Josué e seu bando: a mão que atira é a mesma que esfaqueia

Este é apenas o conflito central de Guerreiros do Sol. Existem outros, mais ou menos interessantes ou bem desenvolvidos. Como costuma acontecer em novelas, as coisas que dão certo são espremidas até que delas não pingue mais nada, e alguns personagens e situações tolas irritam muito mais do que empolgam. Tem luta pelo voto feminino, exploração da miséria, trabalho escravo, amor entre mulheres, críticas à política e à polícia.

Há uma notável cota de nordestinos autênticos entre os atores, mas mesmo aqueles vindos de outras regiões não fazem feio. Novelas passadas no interior profundo, porém, parecem padecer de certa "síndrome de Pantanal": com frequência, tudo em Guerreiros do Sol fica muito lento e contemplativo, com todo mundo falando baixinho e cheio de glicose nas palavras. Haja close, haja afago, haja frase feita... Há ainda um excesso de filtro amarelo, mas a bonita cenografia compensa certos deslizes.

Entre os nomes do elenco, além dos já citados, veem-se ainda Alinne Moraes, José de Abreu, Daniel Oliveira, Kelner Macedo, Nathalia Dill, Marcélia Cartaxo, Luis Carlos Vasconcelos, Theresa Fonseca, Alexandre Nero, Tuca Andrada e Kaysar Dadour, entre outros. Sendo uma novela sobre bandos de cangaço em luta contra a polícia, o que mais tem é gente perdendo a vida na bala. Tente não se apegar muito a ninguém, vai por mim.

Como primeira novela de seu catálogo, Guerreiros do Sol conta muitos pontos a favor da Globoplay. Apesar de curta, ainda tem umas gordurinhas a cortar, mas cativa a audiência. Ao ser exibida na Globo, perderá algumas cenas mais sangrentas ou chocantes, e pode-se entender por quê. Na guerra de repercussão online, perdeu para a Beleza Fatal, da HBO Max (que já engatilhou Dona Beja para fevereiro). Quem sabe agora, com a visibilidade da TV aberta, ganha mais espaço na memória coletiva do Brasil noveleiro.

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