24/03/2025

Inesquecíveis

 

O prolífico autor de quadrinhos francês Fabien Toulmé tem um caso de amor antigo com o Brasil: foi aqui, durante um intercâmbio na Paraíba, que ele conheceu sua esposa. Também viveu e trabalhou em Fortaleza. Seu tempo em nosso país ocupa muitas páginas de sua HQ de estreia, a muito sensível Não Era Você Que Eu Esperava, onde corajosamente expôs os sentimentos conflitantes que experimentou quando sua primeira filha nasceu com Síndrome de Down.

Em Inesquecíveis, Toulmé não está falando de si nem criando histórias delicadas e emocionantes: apenas faz curadoria e roteiriza histórias reais que coletou em entrevistas. São episódios que marcaram a vida das pessoas que as contaram – mesmo que não tenham sido elas a vivê-las, a exemplo da história sobre um casal de brasileiros, narrada por uma amiga.

Há o caso de uma moça estuprada pelo próprio namorado; uma menina cuja identidade foi apagada pela religião; um garoto francês que vivia em Ruanda quando estourou a sanguinária guerra civil de 1994; um casal que perde o trem do amor durante décadas, mas nunca deixa de se amar; e um garoto que parece perdido para o crime, até que um voto de confiança muda sua vida e dá início a mudanças no sistema penal francês.

Com pouco mais de 120 páginas, Inesquecíveis é uma leitura rápida, talvez até demais, pro leitor acostumado a outros trabalhos do autor. Um segundo volume já existe e deve ganhar versão brasileira em breve. Mesmo que toque o coração do leitor de diversas maneiras – certas histórias reais têm o encanto de rivalizar com a ficção em suas reviravoltas – parece fazer falta ao livro o toque da imaginação de Toulmé, seu humor autocrítico, suas observações muito pessoais sobre as pessoas e sobre a vida.

É um livro que pode deixar a gente mais feliz numa tarde de leitura e pode funcionar como porta de entrada à sua obra, mas está longe do brilhantismo de um Duas Vidas (até aqui, para mim, seu auge). Organizar esta coletânea pode ter sido o jeito que ele encontrou de manter-se próximo ao leitor, enquanto trabalha em seu próximo épico de lirismo cartunesco. É válido, mas a gratificação é pouca.

07/03/2025

O Auto da Compadecida 2

Participe da Promoção Starman!

Eu tenho por regra não me ocupar em falar mal das coisas de que não gosto. Se eu já me senti perdendo tempo com um filme, quadrinho ou disco ao consumi-lo, por que jogar fora preciosos minutos do meu dia pra escrever sobre ele? Então, eu vou tentar ser breve, pra bile não me subir muito alto pela garganta.

O Auto da Compadecida 2 não deveria existir, simples assim. Primeiro, porque o original nem era um filme exatamente, mas um recorte em longa-metragem da minissérie da Rede Globo, que adaptava a obra de Ariano Suassuna. Desta vez, a Globo nem se envolveu na produção ou distribuição, o que ajuda a explicar que o filme seja tecnicamente tão pobre, com cara de teatro (mal) filmado. Os cenários e passarinhos digitais são vergonhosos. É um filme feio de ver, saiba logo de saída – e nem vou me deter na eterna estereotipagem do Nordeste como um lugar sem vida e dos nordestinos como miseráveis e supersticiosos.

Tampouco se sustenta em sua história, já que se limita a requentar temas muito melhor explorados no primeiro filme. Como carece de uma razão de ser, apela o tempo inteiro à nossa nostalgia pelo filme original, e esses são os únicos momentos que valem a pena, porque, na falta de um Suassuna pra dar estofo, o roteiro é preguiçoso e sem-graça.

O elenco faz o que pode: o carisma de Matheus Nachtergaele e Selton Mello está intacto e, para minha surpresa, Eduardo Sterblitch e Humberto Martins não fazem feio. É bonita a amizade de João Grilo e Chicó, mas só porque a gente já sabia disso antes: bem analisando, alguém que some sem deixar rastro, apenas porque sim, por mais de 20 anos, não se qualifica como bom amigo, não – mas, vá lá, a gente compra a ideia. Chicó se envolve com a filha de um desafeto outra vez. João Grilo morre outra vez. Apela para Nossa Senhora (Thaís Araújo) outra vez. A falta de ideias (e de grana) fica ainda mais aparente quando vemos que Jesus e o Diabo são agora interpretados por Nachtergaele.

Como não concebo que nenhum dos envolvidos estivesse padecendo com boletos atrasados, só posso mesmo acreditar que este filme foi criado para, desavergonhadamente, lucrar com a nostalgia do público, sem oferecer nada digno em troca. Sou até capaz de crer que a ideia veio de “um lugar de amor” (argh!), mas você sabe que cinema costuma ser uma coisa cara pra quem assiste, né? Eu vi O Auto da Compadecida 2 em casa, mas, caso tivesse pagado por um ingresso, teria saído direto do cinema pro Procon.

27/02/2025

Véspera, de Carla Madeira

 

Participe da Promoção Starman!

Os temas centrais da literatura de Carla Madeira parecem ser o perdão e a dificuldade (natural, eu diria) que temos em estabelecer uma única narrativa como sendo A Verdade: o que existe são versões da verdade, dependendo de quem vê, como vê, onde vê e por que vê. Assim como no acachapante Tudo é Rio (2014), este Véspera (2021) está cheio de personagens que amam demais e odeiam mais ainda. É tortuoso o caminho até uma redenção, se é que se alcança alguma, porque Carla entende que espirais de sentimentos fortes são como um caminhão sem freio na ladeira.

Na abertura do livro, Vedina – presa num casamento horrível com Abel, vivendo uma rotina de mútuo desprezo que ambos se recusam a abandonar – num lapso de absoluto destempero (movido pelo rancor do marido e impaciência com uma criança apenas sendo criança), abandona o filho pequeno às margens de uma avenida. Ao ver, pelo retrovisor, o choro assustado de Augusto, ela se arrepende e, sem poder parar na avenida mão única, dá a volta no quarteirão para pegá-lo de volta, mas, atrasada por um caminhão de lixo e alguns pedestres, não encontra o menino onde o deixou. Antes, crendo-se cheia de coragem para finalmente enfrentar Abel e exigir que saísse de casa, Vedina está, agora, cheia de medo de encará-lo. Como vai explicar ao marido que abandonou e perdeu seu filho?

Corta pro passado distante, onde, aos poucos, somos apresentados aos personagens cujas histórias nos conduzirão até o fatídico surto de Vedina – em especial, a de dois gêmeos, batizados de Caim e Abel (sim, ele mesmo, seu marido) em outro lapso de raiva mal-direcionada. Sobre a cabeça da fervorosa Custódia, sua mãe, paira o eterno temor de que os filhos repitam a tragédia bíblica, mas os meninos crescem muito unidos, sendo tratados e até chamados igualmente: por medo de dar mole pro azar, Custódia prefere tratá-los por Abel e Abelzinho. Quando precisam entrar na escola, porém, não há mais como negar o disparate registrado em cartório: Caim descobre seu nome real, é colocado longe de Abel (ainda que na mesma sala de aula) e um abismo imenso começa a ser entalhado entre os gêmeos.

Este segundo front narrativo é o único que realmente avança. Presa na imobilidade redundante da culpa, Vedina, no presente, fica rodopiando sobre as coisas que a levaram a ser uma mãe tão pouco amorosa para Augusto. As horas (e os capítulos) vão passando, mas ela não encontra o menino, não conta o que aconteceu ao marido, não aciona a polícia. Apenas fica ali, em perene “tela azul da morte”.

Já no passado, as coisas pegam fogo. É notável a tensão na escrita de Carla Madeira. O ódio é sempre visceral. A frieza é sempre cortante – e não é que a escritora se dedique apenas a escrever sobre pessoas e sentimentos horríveis: é que ela sabe que todo mundo traz luz e sombra dentro de si. O bom marido pode ser um pai castrador. O filho bom-moço pode ser um namorado de merda. A mãe zelosa pode ser uma controladora doentia. Ninguém é somente uma coisa e, como sabemos, todo mundo nesta vida só quer ser amado, mas, às vezes, não sabemos como nos abrir pro amor. Noutras, confundimos outras coisas com amor ou não aceitamos ser acertados onde mais dói, um risco constante.

Por isso é que os personagens de Véspera erram tanto: estão cheios de certezas, e a certeza é a mãe do engano. Uma enche a boca de “bêbado imprestável” ao falar do marido cuja libido incendiária lhe ofende, sem enxergar o homem apaixonado e dedicado por baixo; um outro deseja tanto uma mulher comprometida que comete duas besteiras enormes em sequência, forçando amor em uma e negando amor em outra; a que se afastou da sufocante casa dos pais, onde não se sentia amada, tem que ouvir calada as críticas dos que ficaram. A vida é, para todos, uma constante busca pela felicidade, mas, quase sempre, ela exige mudança, essa coisa que causa tanto medo e consequências imprevisíveis.

Véspera tem um final abrupto, num momento em que um conflito enorme se desenha, mas é interrompido pela resolução do seu drama central – e ela é mais surpreendente e polêmica do que esperamos, porque advoga que garantir a felicidade (a própria e a alheia) parece prioridade acima de qualquer lei ou medo de julgamento humano ou divino. É a caridade extrema, assim como o perdão extremo foi ponto polêmico da conclusão de Tudo é Rio. Como ele, Véspera é um livro de leitura ágil, magnética, que cativa porque seus dramas (até mesmo – talvez, principalmente – os mais feios e vergonhosos) se parecem demais com os de qualquer um.

21/02/2025

Música & Mágica #4


Participe da Promoção Starman!


LEGIÃO URBANA
V
(1991)

Eu tento, com muito afinco, não me transformar em um desses velhos que estão sempre reclamando da música feita pela juventude, porque “no meu tempo que era bom”. Confesso, porém, que nem sempre é tão fácil resistir a esse impulso. Para além das diferenças entre a música feita hoje e aquela de 10, 20, 30 anos atrás ou mais, existe o fato de que o próprio hábito de consumir música mudou muito. Hoje em dia, é raro que alguém toque um álbum inteiro no streaming – uma indústria que é alimentada, basicamente, de singles. São tempos de consumo cultural voraz, e pouca gente pode ou quer dispor de tempo para sentar e prestar atenção num álbum, do começo ao fim, e analisar todas as suas virtudes musicais e líricas (ou a falta destas).

Evitando ceder a esse temor/ódio pelo novo, então, eu tento sempre conhecer novas bandas e cantores – e, olha, tem uma moçada fazendo muita coisa boa por aí. Apesar dessa boa vontade, sinto que falta a boa parte dessa galera um pouco mais de maturidade emocional ou intelectual para processar sentimentos, em forma de letras que digam qualquer coisa que perdure para além do tempo da canção. Principalmente, se navegamos pelo mainstream, onde já esbarramos na óbvia dificuldade de encontrar uma jovem banda de rock que seja realmente popular, porque o brasileiro médio engoliu essa historinha (empurrada pela nossa goela abaixo com a força de muita grana e rádios compradas) de que “o sertanejo é a cara do Brasil”, e parece que não cabe nenhum outro tipo de música em suas preferências.

Tem gente boa fazendo música interessante e letra bacana por aí? Ô, se tem! Baiana System (BA), Academia da Berlinda (PE), Seu Pereira & Coletivo 401 (PB), Liniker (SP), Dingo (RS)... Alguns já nem tão jovens, verdade, mas, vivos e ativos. É uma questão de procurar, nada mais – só não espere ver essa galera todo domingo na Globo, como era no tempo da Legião Urbana, especialmente ali pelo final dos 80 e começo dos 90.

Essa prolixa introdução justifica-se pelo fato de que não houve (e nem deve haver mais) um letrista de rock do calibre de Renato Russo desde sua morte, nem uma banda que, ainda que limitada tecnicamente, fosse capaz de criar música que casasse tão bem com sua peculiar poesia (que costumava ignorar métricas e rimas) – e, mais importante ainda, que, com isso, gerasse sucesso popular – como foi o caso da Legião Urbana. Para este Música & Mágica, eu cheguei a cogitar O Descobrimento do Brasil (1993), um disco reconhecido como o mais diverso da carreira da Legião e aquele em que Renato parecia mais feliz e sábio, como que plenamente recuperado de uma bad trip e cheio de fé no futuro.

Daí, pensei: que nada, eu quero falar é do Renato numa pior, mesmo; da falta de esperança daqueles tempos, em que toda a nossa alegria pelo fim da ditadura, menos de uma década antes, já havia se transformado em desencanto, pelos sucessivos e fracassados planos econômicos e pela corrupção desenfreada dos governos Sarney e Collor; de como Renato, Marcelo Bonfá (bateria) e Dado Villa-Lobos (guitarras) ousaram cometer V, um disco progressivo, na esteira do monumental sucesso de um disco “fofo” e acústico, como foi o multiplatinado As Quatro Estações (1989).

A estranheza já bate à porta na primeira faixa, a curta “Love Song” – poema em português arcaico, escrito pelo trovador Nuno Fernandes Torneol, no século XIII. Prova da versatilidade de Renato, com a voz em primeiro plano em tom baixo, enquanto, ao fundo, sua voz ecoa vários tons acima, trazendo um clima quase gregoriano. Logo em seguida, a música mais longa da Legião Urbana: “Metal Contra as Nuvens”. São 11 minutos, divididos em quatro blocos instrumentais de andamentos variados, que alternam a doçura acústica da introdução e do encerramento com a fúria guitarreira setentista do segundo movimento e a atmosfera contemplativa dos teclados épicos do terceiro. Uma peça progressiva, inclusive, em sua letra com ambições de saga épica. Não testou a memória do ouvinte, como os nove minutos de “Faroeste Caboclo”, mas, certamente, ajudou a testar os limites da gravação em vinil simples: V tinha uns 50 minutos totais e quase virou disco duplo.

A seguir, mais viagem, nos cinco minutos da delicada instrumental “A Ordem dos Templários”. Fechando o que era o lado A do álbum em vinil, os quase oito minutos de “A Montanha Mágica” são como uma bad trip de heroína, em que Renato capricha na psicodelia evocada na letra: “um outro agora vive minha vida / sei o que ele sonha, pensa e sente”; “minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia / és o que tenho de suave /e me fazes tão mal”. A delícia e a dor do vício, como num furacão de imagens e guitarras distorcidas, que termina com uma decisão desesperada: “chega, vou mudar a minha vida”.

Renato, Dado e Bonfá: fomos tão joooooovens

Um pouco mais convencional, a segunda metade do disco começa com “Teatro dos Vampiros”, que vinha embalada em uma leveza pop que açucarava uma das letras mais desoladas de Renato. A falta de amor e de perspectivas, a barra de viver no armário (que já nem era o caso dele, àquela altura) e de ter que parecer feliz sem estar, num país que massacrava seus cidadãos sem dó. Deve ter sido proposital que, após tanta deprê, “Sereníssima” venha socorrer o ouvinte com sua melodia alto-astral, uma das músicas mais simpáticas da Legião Urbana, com direito a gritinhos histéricos, e que, para nossa surpresa, não soa deslocada entre tanta lisergia.

Na sequência, o magnum opus do álbum: “Vento no Litoral” não evoca o céu azul de uma praia ensolarada, mas praias cinzentas, escarpadas, onde só se caminha bem abrigado do frio cortante. Ali, na margem, Renato lamenta a perda de alguém, sem deixar claro se essa pessoa partiu ou morreu. Felizmente, por mais que o verso “eu deixo a onda me acertar / e o vento vai levando tudo embora” possa ter contornos suicidas, mais à frente ele respira fundo e cata os pedaços: “já que você não está aqui / o que posso fazer é cuidar de mim”. É impossível ficar indiferente a “Vento no Litoral”, um dos melhores momentos de toda a discografia da Legião.

A bad é rebatida com “O Mundo Anda Tão Complicado”, em que tudo é esperança de um futuro bonito, com a letra descrevendo a rotina de um casal se mudando pra morar juntos. Levinha, bobinha, mas chega em ótima hora. A letra é mais um atestado da capacidade de Renato Russo de botar letras imensas na cabeça do ouvinte, mesmo que elas tenham pouca ou nenhuma rima, exceto pelo refrão.

“L’Âge d’Or” é sobre autoconhecimento e desistir das coisas que não valem a pena. A letra menciona “jovens gigantes de mármore”, que podem ser menção à banda Young Marble Giants, banda galesa de pós-punk, o movimento de onde se origina a Legião – mas que pode ser, também, prova da fé de Renato na beleza e tenacidade da juventude que, eventualmente, o substituiria. É o terceiro uso no disco do mesmo timbre distorcido de guitarra, fazendo desta uma faixa meio cansativa.

O ouvinte começa a desejar o fim e, felizmente, ele chega bem bonito: “Come Share My Life” é uma cover instrumental de um bonito folk de 1965, de Glenn Yarbrough. Levada ao piano sobre uma cama de sintetizadores e nada mais, encerra um disco atípico dentro da obra da Legião, uma banda de som cuja marca era não ter uma marca. Se não eram especialmente originais ou tecnicamente impecáveis, Renato, Dado e Bonfá (e antes, também, Renato Rocha) sabiam como poucos o que fazer para grudar nos ouvidos e mentes dos fãs, e o fizeram com uma obra que, amada ou odiada, podia ser chamada de tudo, menos de vazia ou incoerente.


* * * * *


Legião Urbana
V
Produzido por Mayrton Bahia e Legião Urbana
Lançado em 15 de Dezembro de 1991

01. Love Song
02. Metal Contra as Nuvens
03. A Ordem dos Templários
04. A Montanha Mágica
05. O Teatro dos Vampiros
06. Sereníssima
07. Vento no Litoral
08. O Mundo Anda Tão Complicado
09. L'Âge d'Or
10. Come Share My Life

18/02/2025

Ainda Estou Aqui

 

Não se esqueça que tem Promoção Starman rolando!

Aconteça o que acontecer no próximo dia 2 de março, Ainda Estou Aqui já é um fenômeno consolidado: além de muitíssimo elogiado e premiado mundo afora, já é um dos cinco filmes brasileiros mais vistos da História - imagina se não tivesse sido alvo de uma chocha tentativa de boicote! – e uniu os brasileiros em reconhecimento ao superlativo talento de sua estrela, Fernanda Torres, que esbanja graça e simpatia em nosso nome, em suas aparições televisivas.

Não é que não importe ganhar o Oscar: importa muito, principalmente se lembrarmos que a Argentina tem dois e a gente não tem nenhum.

Até o momento em que escrevo esta resenha, dos dez indicados a Melhor Filme, eu só consegui ver três: Duna Parte 2, A Substância e Ainda Estou Aqui. O nosso filme é, de longe, o que reúne mais atributos que o qualificam para o grande prêmio da noite. Para começo de conversa, não é uma alegoria regada a efeitos especiais, como os outros dois – e não estou, aqui, tentando diminuir os muitos méritos de um ou de outro. Ele larga na frente porque é uma história verdadeira, de gente como a gente, passando por eventos assustadores, aos quais estamos suscetíveis a reviver, a qualquer instante, porque uma parcela ignorante ou amnésica da população anseia pela volta do país a um tempo sem liberdade.

Os Paiva: mãe zelosa, pai coruja.

Quando o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) é levado do convívio com sua família para nunca mais ser visto, já havíamos passado o primeiro terço do filme testemunhando a rotina feliz de sua família de classe média, no Rio de Janeiro de 1971. Ao contrário de filmes como Cidade de Deus (2002), ou mesmo Central do Brasil (1998), estas não são pessoas marginalizadas, de uma realidade muito distante daquela do público que vai ao cinema. São uma família comum, fazendo coisas que famílias comuns fazem (talvez apenas com um pouco mais de dinheiro que a maioria das famílias comuns).

Atingidos em cheio pela marreta autoritária do então presidente Emilio Garrastazu Médici, não apenas seu marido é “sumido”, como a própria Eunice Paiva (Fernanda Torres) e uma de suas filhas são “convidadas” a participar de sucessivos e exaustivos interrogatórios, a fim confirmar uma alegada associação com “comunistas”. Ao sair, Eunice, no fundo, sabe que seu marido dificilmente retornará: embora não desista de questionar e de esperar, conforme passa o tempo, suas esperanças vão morrendo, a cada negativa da polícia aos seus pedidos para ver Rubens ou apenas para saber qualquer coisa sobre ele.

O que lhe resta, então, é tocar a vida. Quando Eunice chora, nunca é desabando de luto: é sempre aquela lágrima fugidia, sem soluços, porque ela sabe que não pode sucumbir, que precisa ser forte pelo marido ausente, pelos filhos e por ela própria – e ela se mostra forte. Com toda a dor do mundo e temor pelo futuro, mas, sim.

Eunice Paiva: pra frente é que se anda, porque a alternativa é pior.

Há dois momentos especialmente representativos da força de Eunice Paiva: o já famoso (pois recortado em diversas resenhas do filme no YouTube) passeio no shopping, em que seus filhos lancham, enquanto ela se pega reparando nas pessoas seguindo com suas vidas, felizes, alheias a todo o drama que ela está vivendo; e outro, quando, ao ser entrevistada e fotografada para uma revista, ela ignora o pedido desta por uma foto triste, sombria – como supostamente conviria a uma vítima da ditadura – e pede aos filhos que caprichem no sorriso.

Após tantas indicações e vitórias, qualquer coisa que se diga sobre a atuação de Fernanda Torres é chover no molhado. Se não leva o Oscar, não terá sido por falta de merecimento, mas porque sabemos que ele é, essencialmente, uma premiação de americanos para americanos, que, de vez em quando, lembram-se de incluir uns gatos pingados da produção de cinema do resto do mundo em categorias além da restritiva Melhor Filme Estrangeiro. Será ótimo se o filme vencer nesta categoria (que parece a mais “fácil”), mas um Oscar para Fernanda Torres teria o potencial de unir, por um instante que fosse, os corações e mentes do país, fazendo com que nossos muitos e imensos problemas parecessem um pouco menos assustadores.

Na verdade, é um vacilo da Academia que o filme não tenha ainda mais indicações, como o roteiro (adaptado do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho caçula do casal) e a direção segura de Walter Salles, ou a sóbria atuação de Selton Mello como Rubens Paiva. É uma obra lançada em tempos muito sombrios, sobre outros tempos muito sombrios, para lembrar às pessoas que não há mal que não possa retornar, se a gente baixar a guarda (anistia, nem a pau!). São elementos que a Academia costuma prezar, mas, como dito lá no começo, com ou sem prêmios, Ainda Estou Aqui já é o campeão moral da temporada.

04/02/2025

PROMOÇÃO: Starman, Vol. 1 (2008)

Se você nunca leu Starman, mas já leu a resenha da Edição de Luxo, vol. 1, logo abaixo, deve ter ficado, no mínimo, curioso com o trabalho de James Robinson e Tony Harris. Ao saber, porém, que são seis livros com preço de três dígitos, talvez tenha ficado um pouco receoso de gastar seus suados caraminguás e não curtir as histórias daquele bichão de mais 400 páginas (embora eu ache altamente improvável).

Seria bom poder ler uma prévia de Starman sem ter que pagar, né?

Não diga mais nada: o Catapop está sorteando um exemplar de Starman, Vol. 1, daquela primeira coleção abortada pela Panini, em 2008. Ela compila as edições de 0 a 9, em 260 páginas. Não é a Edição de Luxo, mas, ainda assim, é um luxo de edição - e é de graça, né, meu filho? Se dizem que até injeção na testa é bom quando é de graça, imagina um gibi dessa qualidade!

O sorteio será eletrônico e seus números serão aleatórios - eu farei uma lista numérica com os nomes dos participantes, na ordem em que eu verificar que cada um cumpriu sua meta - o que talvez garanta que seu nome não esteja num bloco de números próximos.

Durante os meses de fevereiro e março, siga os seguintes passos:

1) No Instagram, siga o @catapopnoinsta.

2) Repostar em seus Stories uma publicação qualquer vale um número para o sorteio. Reposte quantas quiser, mas, ATENÇÃO: só valem posts a partir de 15 de janeiro de 2024, quando o blog deixou o nome A Era do Ócio e voltou se chamar Catapop.

3) Recomendar um(a) seguidor(a) para o perfil (peça a ele/ela que te marque como padrinho/madrinha da indicação, numa mensagem via DM) vale dois números para o sorteio: indicador e indicado ganharão números.

4) Comentar aqui no site vale três números para o sorteio por comentário, desde que ele não seja somente uma fala genérica tipo "falou tudo!", "concordo com você!" Argumente, seja a favor ou contra, mas gaste um pouco de seu tempo digitando. Se você ainda não leu, assistiu ou escutou o objeto do texto, fale um pouco de seu interesse ou sua expectativa - ou até da falta destes, se for o caso - em relação a ele.

5) Reze a Deus, Alah, Odin, Oxalá, Ganesha, Rao, Khonshu, qualquer um! Não vale números pro sorteio, mas, se você tem fé, pode te ajudar a ganhar.

6) O sorteio acontecerá na segunda-feira, dia 31 de março de 2025, e o livro Starman, vol. 1 (2008) será enviado pelos Correios ao ganhador. Somente residentes no Brasil podem participar.

No mais, não tem nada mais. Boa sorte a todos!

30/01/2025

Starman Edição de Luxo, vol. 1


Por um breve e marcante momento, na já bem distante década de 90, a DC Comics deu sucessivos “choques de realidade” no seu panteão: entre os eventos de maior impacto, Superman foi morto, Batman foi aleijado, Mulher-Maravilha foi destituída de seu título, Arqueiro Verde morreu em uma explosão, e o Lanterna Verde Hal Jordan perdeu a cidade e o juízo, tornando-se um vilão. 

Parecia um tempo muito sombrio, mas era justamente o contrário: dando a impressão de que o tempo finalmente alcançou seus maiores nomes, a DC investiu num pesado movimento de legado, apresentando aos leitores uma forte onda de jovens substitutos, por parentesco ou afinidade: o Superboy havaiano, Jean-Paul Valley como Batman, Ártemis como a Mulher-Maravilha titular, o surgimento de Connor Hawke e Kyle Rayner, e muitos outros. Nem tudo era tão legal assim e, como esperado, tudo depois voltou a ser mais ou menos como sempre foi, – mas, sejamos honestos, foi bonito de acompanhar.

Um dos quadrinhos a melhor retratar uma “passagem de manto” foi Starman, escrito por James Robinson e desenhado por Tony Harris, primeiro publicado no Brasil entre 1997 e 1998, pela Magnum. Teve quatro números, depois reunidos num “encalhernado” de 1999, com as edições 0 a 3. Depois, em 1999, a Tudo em Quadrinhos publicou outros quatro números, com duas histórias por edição, cobrindo as edições 4 a 11. Enquanto isso, os leitores da Editora Abril queimavam a mufa, tentando entender por que um quadrinho tão elogiado não saía pela casa “mais oficial” da DC no Brasil, à época.

Seria quase uma década de “escuridão” até que a Panini (licenciada da DC desde o fim de 2002) decidisse republicar Starman, em 2008, numa edição em capa dura que, infelizmente, seria filha única: junto com a solitária primeira edição da republicação da Liga da Justiça por Grant Morrison, a desistência de Starman virou um desses enigmas que a Panini nunca fez questão de esclarecer. Felizmente, em 2022, lançou uma nova coleção, em seis edição de luxo que, ao longo dos dois anos seguintes, completaram a saga de Starman no Brasil.

Ao fim de Zero Hora (1994), privados da energia que os mantinha artificialmente jovens, a Sociedade da Justiça (com exceção de Alan Scott) torna-se o bando de vovôs que deveriam ser. Sentindo as limitações naturais da idade de uma forma nada gradual, Ted Knight, o Starman, decide afastar-se do cajado cósmico que lhe dá poder, colocando seu filho mais velho, David, em seu lugar como protetor de Opal City. Digamos que, logo de saída, as coisas não dão tão certo assim, e seu filho mais novo, Jack, se vê forçado pelos acontecimentos a assumir o heroico legado, do qual preferia manter distância.

Muito diferente de David – o filho “preferido”, atlético e ansioso por suceder o pai – Jack é um sujeito mais arredio, dado a disfarçar suas carências com um humor, por vezes, questionável. A vida com Ted e, especialmente, com David, é entre algumas patadas e muita gozação passivo-agressiva com o que ele considera vergonha alheia: a afinidade (que muito inveja) entre Ted e David, o espalhafatoso uniforme vermelho e verde com barbatana no elmo, e o trabalho de super-herói em si. Jack prefere gastar seu tempo procurando relíquias raras pro seu antiquário.

Quando o legado de seu pai cai em seu colo, porém, seu tão querido negócio é uma das primeiras baixas, mas ele não tem tempo de lamentar: está em marcha um plano de vingança de um antigo inimigo de Ted Knight, o Névoa. Como o próprio Starman sênior, o vilão está idoso e, aparentemente, padecendo de Alzheimer. Com o pouco de vida e sanidade que lhe restam, está colocando seus filhos nos negócios da família. Como Jack, sua filha Nash é relutante em assumir a luta do pai, mas, também de forma semelhante, os acontecimentos a levam a não apenas aceitar, como abraçar e descobrir-se dentro desse legado.

Já houve outros heróis chamados Starman, fora da família Knight. Um deles é visto neste primeiro volume: o alienígena de pele azul Mikaal Thomas, que estrelou um título na segunda metade dos anos 70. O primeiro que conheci foi na revista DC 2000, da Editora Abril, em 1990: Will Payton, com poderes que nada tinham a ver com o cajado cósmico de Ted Knight. A bem da verdade, nenhum deles era um pilar de carisma super-heroico. Ted Knight ganhava mais por estar com a Sociedade da Justiça do que ela por tê-lo no elenco. Antes que James Robinson se interessasse por ele, era um bucha inimigo da moda. Jack Knight was right. Por isso é que ele prefere jaqueta preta, óculos antiofuscantes, estrelinha de xerife de cereal e um cajado reestilizado. Não chega a ser bem um uniforme, mas, haja estilo.

A linhagem Starman

Colocando muito de si em Jack Knight (o gosto por antiguidades, por exemplo), Robinson criou um personagem que, provavelmente, serviu de terapia de expiação – e histórias muito pessoais sobre essas coisas que unem basicamente todos os seres humanos (família, herança, dever) acabam facilitando a identificação com o leitor. Logo após um primeiro arco que é apenas simpático, acontece, na edição 5, o primeiro grande momento da série: uma conversa entre Jack e David num cemitério. É quando certas memórias falsas e/ou bloqueadas de Jack começam a ruir. Essa me pegou de jeito, sendo eu um sujeito que perdeu um irmão (então com 19 anos) e sonhou diversas vezes com ele “voltando” dos mortos. Não há como dizer com certeza, porém, se Jack está sonhando ou vivendo aquilo – e, honestamente, é uma certeza que não faz a menor falta. Brilhante, nada menos.

Igualmente brilhante é a construção do Sombra, um tipo oscilando entre vilão reformado e profeta do caos: ele passa a ajudar e proteger a família Knight, dizendo que eles devem preparar-se para uma grande provação. Nos diários de sua longa vida (Sombra é um imortal com, no mínimo, uns 200 anos de idade), ele espera que Jack encontre pistas que o preparem. O primeiro desses contos é um encontro com o escritor Oscar Wilde, em 1882. Com seus modos sofisticados e seu poder terrível, a dualidade do Sombra é um tremendo trunfo da série.

Se na capa deste volume é possível reconhecer o Tony Harris de, por exemplo, Ex Machina (2004), na arte de interna de Starman, a arte-final de Wade Von Grawbadger deixa seu traço parecido com o de Brian Stelfreeze, mas onde Harris brilha pra valer é na construção da identidade visual de Opal City, com seu ar de futurismo retrô. Entre os artistas convidados, estão Stuart Immonen, Chris Sprouse e Matt Smith.

Em textos introdutórios e posfácios, James Robinson rodopia entre temas diversos, aproveitando para contar sua jornada como escritor de quadrinhos até aquele momento e desculpar-se pelas muitas vezes em que foi um babaca acidental ou intencional com gente do ramo, como Dave McKean. Ele perde o fio da meada e emenda um assunto atrás do outro, para só lá na frente concluir um pensamento inicial. Parece confuso, mas é leitura bem prazerosa, pelo tom confessional de quem aprendeu a não se levar tão a sério.

São muitos (seis) e caros (preço cheio acima de 200 reais, busque ofertas!) volumes, mas, nas palavras de quem já leu todos e gravou belos e altamente recomendados episódios de podcast sobre a coleção – meu amigo Luwig, de Os Escapistas, e seus convidados – Starman Edição de Luxo é o quadrinho de heróis definitivo, aquele que atinge um patamar que talvez te faça querer largar de vez os homens e mulheres de colante colorido. Se isto será uma bênção ou maldição, cabe a você decidir. A resposta está em meio às estrelas. Do meu lado, mal posso esperar para começar a folhear o segundo livro.

14/01/2025

Jovem Sheldon


Dizer que The Big Bang Theory não era uma série para todo mundo é um baita eufemismo. Ela desafiava o espectador de diversas maneiras. Fazia um humor que exigia bagagem cultural mais que razoável, que deveria abranger conhecimento sobre televisão, quadrinhos, cinema e diversas vertentes científicas. Do contrário, várias piadas acabariam perdidas pelo caminho. Além disso, seu protagonista, Sheldon Cooper, era um chato de galochas assumido, orgulhoso de sua inabilidade social e manias irritantes, compensadas com ferina sagacidade e bom coração.

Suas virtudes deram origem a um culto de fãs apaixonados, com gente indo ao extremo de levar suas vidas como se fossem Sheldon e seu grupo de amigos peculiares (espero que tenham sido apresentadas ao sexo e à bebida e deixado de patacoada). Eu ainda fui forte o suficiente para assistir a umas sete temporadas. Parei apenas porque me pareceu mais interessante ver outras coisas, mas ainda gostava de assistir. Ao saber que uma série sobre a infância de Sheldon Cooper estava sendo produzida, porém, eu não contive o bocejo. Quando foi ao ar e alguns amigos começaram a me recomendar que assistisse, eu era taxativo: “eu não tenho o menor interesse numa série sobre o Sheldon criança”.

Pois este é mais um daqueles casos em que fico muito feliz por estar equivocado: Jovem Sheldon vale a pena demais!

A primeira e significativa diferença com relação a Big Bang é que não existe uma claque (uma plateia para rir no estúdio, ou uma mera trilha gravada de risadas), o que nos livra da distração que ela representa, além de nos deixar decidir o que achamos engraçado ou não. Também é menos dependente de humor físico (caretas e correria) e abre mão de adultos agindo feito crianças, para que, em vez disso, tenhamos crianças se comportando como tal – mesmo que a mais importante delas sequer se entenda como uma.

O tom encontrado para o Sheldon criança é simplesmente perfeito. Ele é um geniozinho precoce, sim. Tem aquele ar desligado para as coisas que interessam às ditas pessoas normais. Prefere nunca mentir e usa pouco ou nenhum filtro ao falar a verdade. Nem sempre percebe quando estão tirando sarro dele. Esses traços de sua personalidade eram engraçados em Big Bang porque ficavam meio ridículos em um homem adulto. Como criança, Sheldon ganha a desculpa de que ainda é fofinho e “verde” no trato social, o que nos permite entender melhor o adulto que se tornou. É uma criança especial, em qualquer sentido que se aplique à expressão.

A vida de Sheldon com sua família na pequena Medford, Texas, é o pano-de-fundo para diálogos e situações muito espirituosos e inteligentes sobre religião, ateísmo, ciência, paternidade, adolescência, rivalidade e comparações entre irmãos, tabus e preconceitos. O pequeno gênio só tem a verdade dos livros – que considera pura e inatacável – em seu favor, e é do choque dessas certezas com a dureza e as “áreas cinzas” da realidade que a série tira muito de seu humor. Há espaço para muita emoção e identificação genuína, com a série escapando com elegância das armadilhas do melodrama (e, olha, sutileza nem sempre é um valor associado ao nome de seu criador, Chuck Lorre).

Além da alta qualidade do roteiro, temos este elenco, nunca menos que fabuloso: Iain Armitage (o pequeno Sheldon) é um achado, craque em saber a hora de quebrar a expressão impassível do personagem e deixá-lo quase “normal”, com uns bem colocados “uuuh” e “ah, rapaz!” que denotam sua animação. Sheldon é irritante – e quem me conhece sabe o quanto me irritam crianças precoces – mas é, também, fofo até não poder mais.

Outros personagens de destaque são a espevitada irmã gêmea Missy (Raegan Revord), a descolada “vozinha” Connie (Annie Potts) e a fanática mãe Mary (Zoe Perry). Em maior ou menor grau, toda a família de Sheldon – completa pelos George pai (Lance Barber) e filho (Montana Jordan) – é composta de tipos cheios de camadas interessantes. Entretanto, dá para dizer o mesmo de personagens menos frequentes, como o simpático Dr. Sturgis (Wallace Shawn) e o treinador assistente de George, Wayne Wilkins (Doc Farrow).

Enquanto escrevo, me aproximo da metade da quinta temporada. Sabendo que a sétima e última faz conexões diretas com The Big Bang Theory e conhecendo o destino de alguns personagens, já me preparo para encarar uns episódios bem difíceis. Mesmo assim, não posso deixar de reconhecer: que felicidade foi dar uma chance a Jovem Sheldon! Ver como ele e sua família mudam e melhoram a cada temporada é de aquecer o coração. É dessas obras que deixam a gente se sentindo bem consigo e com o mundo.

08/01/2025

Robô Selvagem

Hoje em dia, já nem faz sentido apontar a preguiça criativa que, já faz uns bons anos, tomou conta de Hollywood. É fenômeno consolidado e, pior ainda, abraçado pelo público: das dez maiores bilheterias do ano passado, impressionantes NOVE eram sequências – a única exceção foi Wicked, que não é uma continuação, mas chegou ao cinema planejado pra logo ganhar uma.

Particularmente, acho esta uma tendência terrível. Por melhor que seja rever bons personagens em novas aventuras, nem todo filme precisa acabar com as pessoas perguntando “quando será que sai o 2?” enquanto deixam o cinema. Às vezes, aquele único filme cumpre o sagrado propósito de divertir. Deveríamos reaprender a deixar que as histórias – mesmo aquelas muito boas – terminem. Nem tudo nessa vida precisa virar franquia.

Entretanto, estou pregando no deserto. Robô Selvagem já tem sua sequência encaminhada. Menos mal que estará a cargo do mesmo Chris Sanders que dirigiu este primeiro. Sanders tem boa mão: na Disney, escreveu as histórias dos principais sucessos da renascença do estúdio nos anos 90, como A Bela e a Fera, Aladdin e O Rei Leão. Estreou como diretor no ótimo Lilo & Stitch (2002). Deixando a Disney pela DreamWorks, esteve à frente de grandes sucessos: Como Treinar Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Também dirigiu aquele filme do Harrison Ford com um cachorro digital, mas vamos fingir que não.

Robô Selvagem começa numa ilha, quando, durante uma tempestade, alguns animais, sem querer, ligam a robô Rozzum 7134 (voz de Lupita Nyong’o). Sem nenhum humano por perto, ela pergunta a todo animal que encontra quem seria seu novo dono. Sem resposta e sem um propósito na ilha, ela se dedica a aprender a comunicar-se com eles. Durante uma fuga, porém, cai sobre um ninho de gansos selvagens. Um único ovo resta intacto, e Rozzum 7134 se dedicará a protegê-lo, até que o pequeno ser dentro dele venha ao mundo.

Todos já vimos filmes sobre os temas de Robô Selvagem: robôs gente fina, maternidade inesperada e/ou complicada, uma literal “síndrome do patinho feio”, e retorno à natureza como antídoto da modernidade fria e tóxica. A animação de Sanders, porém, sobressai pela beleza de sua animação (com aquela bonita mistura de técnicas vista em O Gato de Botas 2) e pela progressiva naturalidade das emoções de Roz - simplificação que ela adota ao perceber que sua programação original não a ajudaria a seguir “viva” nem a criar seu “bebê”. É tocante como ela muda conforme passa o tempo, enfrentando os maiores medos e desafios de se ter um filho: a disposição para sacrificar tudo, a resignação compreensiva diante da rebeldia gratuita ou ingratidão, e o medo de perder aquele ser tão amado – um cuidado que ela acaba estendendo a todos os animais da ilha, quando enfrentam seu pior momento.

O final de Robô Selvagem é tão redentor e maduro, tão redondinho, que eu só posso mesmo me indignar por saber que vão esticar essa história, perfeitamente encerrada, para extrair cada centavo de dólar que este “universo” (argh!) possa render. No fim, é disso que se trata: nunca é sobre “dar ao povo o que ele quer”. Quase sempre, a única pessoa nos paparica sem querer nada em troca é a nossa mãe. O que a DreamWorks e outros estúdios querem é meter a mão no nosso bolso - mas, quando compensam entregando filmes bonitos assim, até que nem chiamos tanto. Espero estar errado sobre sequências quando Robô Selvagem 2 chegar.

06/01/2025

Gladiador II


Muita coisa conspirava contra a existência de Gladiador II. Primeiro, havia o óbvio ululante de que Gladiador (2000), de Ridley Scott, vencedor do Oscar de Melhor Filme (num tempo em que o termo “franquia” não era carne-de-vaca em Hollywood), contava uma história com começo, meio e fim. Segundo que, quando foi anunciada a produção da sequência, já haviam passado mais de duas décadas desde o original. Terceiro que, apesar da “envergadura moral” de ter sido o diretor do primeiro filme, Ridley Scott vinha de uma série com um filme bom, mas pouco visto (O Último Duelo, 2021), e de outros massacrados sem dó (Casa Gucci, 2021; Napoleão, 2023). Era bem alta a chance de o novo filme ser ruim o suficiente para manchar o legado do antigo.

Para surpresa geral, levando em conta o prospecto muito desfavorável, Gladiador II periga até parecer um filme melhor do que realmente é. Talvez estejamos todos sendo um pouco exigente demais com o velho Ridley, esquecendo que ele já tem 87 anos e absolutamente nada a provar, a esta altura (embora assistindo ao fabuloso Jurado nº 2, que Clint Eastwood dirigiu aos 94, possamos perceber que idade avançada não significa pulso frouxo). Em pouco mais de duas horas, Gladiador II honra seu predecessor, entregando um espetáculo honesto e divertido  - nada mais do que sua obrigação, com o astronômico orçamento de 310 milhões de dólares – mas é só.

A opção de Scott em ajudar o espectador a lembrar do original a todo instante vai muito além da sequência de abertura, que o resume numa bonita animação. Nomes, pessoas, frases e objetos retornam e, com eles, um novo, carismático e numeroso elenco, incluindo Paul Mescal, Pedro Pascal, Denzel Washington, Connie Nielsen e Joseph Quinn, entre outros. Tudo para contar a história de Hanno (Mescal), o herói que sabemos desde o início tratar-se do filho de Maximus Decimus (Russell Crowe) com Lucilla (Nielsen), mandado para longe de Roma em nome de sua segurança.

Comandada por dois jovens imperadores sifilíticos, Roma está em franca decadência e um de seus últimos atos de “glória” é justamente a invasão da nação moura onde Hanno vive com sua esposa, a exímia arqueira Arishat. Durante a invasão, liderada pelo general Acacius (Pascal), ela é morta e, como se ainda tivesse poucos motivos para odiar Roma e os romanos, Hanno é capturado, feito escravo e, logo em seguida, gladiador. Como seu pai, ele jura vingança pela esposa morta.

Parece familiar porque é. Seja nas homenagens ao filme clássico ou nas críticas ao imperialismo, sutileza não é o forte deste filme, mas nem isso chega a configurar um problema tão grande, porque Scott, quando se vê inspirado, sabe dar às pessoas o que elas querem. Mesmo que esteja sofrendo pra recuperar na bilheteria seu custo absurdo, ele teve repercussão geralmente positiva entre crítica e público. Já perto de chegar ao streaming, deve se transformar num favorito deste início de ano para aqueles que, como eu, estavam desconfiados demais para arriscar uma ida ao cinema (lazer caro!). Que não tenha se tornado um fenômeno pop como seu antecessor é sinal de que talvez estivéssemos melhor sem ele, mas a mera existência de Gladiador II não chega a ser um incômodo. Podia ter sido muito pior.

27/11/2024

Velvet

Com extensa folha corrida de bons serviços prestados à Nona Arte, há mais de duas décadas, o roteirista americano Ed Brubaker teve passagens expressivas na DC e na Marvel, tendo escrito fases marcantes para diversos personagens, como Batman, Capitão América e X-Men. Já há quase igualmente tanto tempo, desenvolve um sólido trabalho autoral – no qual está quase sempre acompanhado pelo habitual artista parceiro, Sean Phillips.

Logo que começou a trabalhar com o Capitão América, Brubaker teve a companhia de Steve Epting e, com ele, discutia as ideias que vinha tendo para uma história de espionagem protagonizada por uma mulher. Epting prontamente se convidou a ilustrar a tal história, que só veria a luz do dia quase uma década depois, por conta das obrigações contratuais de ambos – mas, olha, como valeu a pena esperar tanto: originalmente lançado entre 2013 e 2016, com três atos em 15 partes, Velvet é um gibizaço, em 400 páginas de tirar o fôlego!

Velvet começa em 1973, um tempo em que não havia internet ou celulares, o que deixa tudo muito mais interessante no trabalho de espionagem – no sentido de que, sem um aparato high-tech (sendo a única exceção um protótipo de wingsuit), a espionagem era quase uma arte, na qual alguém tinha que ser muito bom pra nela se criar. Velvet Templeton era muito boa, dotada de memória fotográfica e habilidades marciais e linguísticas incomparáveis, mas, após alguns incidentes, acabou confinada a uma mesa na sede da CAR-7, a mais secreta entre as agências secretas britânicas.


Quando um agente de campo e amigo próximo de Velvet é morto após uma missão, ela não engole as conclusões da perícia e decide investigar por conta própria, mas, ao fazê-lo, é emboscada e acaba na mira da própria CAR-7. Meio enferrujada pelos dez anos fora de ação e sem saber em quem confiar, ela refaz os passos do amigo morto e começa a puxar os fios de uma conspiração muito maior do que ela suspeitava, além de descobrir novas verdades sobre seu próprio passado.

Mulheres como espiãs não são novidade, mas, ainda são minoria: a elas, normalmente reservam o papel de vítima ou de parceira (seja de ação ou de cama) de um heroico espião qualquer. Por exemplo, é raro que alguém lembre o nome de uma Bond Girl, por mais que ela seja durona ou sagaz. A fama e o mérito são sempre exclusivos de James Bond. Por isso é que Velvet, dona de sua própria história, não apenas é durona e sagaz: ela herda de Bond a disponibilidade (e a disposição) sexual. Para aprofundar-se nos detalhes de várias operações secretas, ela foi capaz de dormir com todos os agentes de campo, deixando cada um deles pensar que era o único. Velvet não hesita em dormir com alvos, tampouco. Mesmo assim, a gente reconhece nela um senso prático de dever tão forte, que mesmo saber de tudo isso não nos faz questionar sua moralidade ou seu valor. Se James pode, por que Velvet não poderia?

O melhor é que tudo acontece sem feminismo didático, embora seja uma abordagem claramente feminista. Brubaker, porém, não alivia em nada para Velvet só porque ela é mulher: ela cai, se esfola toda, dá e toma tiro, dá e toma pancada, e troca socos com homens em pé de igualdade, quando não em clara vantagem. Ela é geralmente mais esperta que todo mundo à sua volta, mas ainda comete suas burradas. É uma pessoa normal (o que inclui, sim, fazer sexo apenas para conseguir algo que precisa ou deseja).


Se a escrita de Brubaker é afiada (no posfácio, ele reconhece que foi bom Velvet não ter saído de imediato, pois assim teve tempo de aperfeiçoar seu conceito), o mesmo pode ser dito sobre a arte de Steve Epting: com boa parte da trama desenrolando-se à noite ou em ambientes pouco iluminados, Epting esbanja domínio das sombras. Seus personagens possuem traços físicos mais distintos do que normalmente veríamos, por exemplo, em aventuras de super-heróis, e as sequências de luta e perseguição são cheias de movimento.

Velvet tem, ainda, uma das conclusões mais satisfatórias já vistas em uma obra de Brubaker - e não é que ele o faça mal em outras, é só que esta não tem aquela suspensão súbita que costuma caracterizar seus últimos quadros, deixando um “mas, e aí?” na cabeça do leitor. Ele até usa a palavra “fim”, artifício que costuma dispensar em várias de suas histórias.

Embora seja concretamente um fim, uma nova aventura de Velvet Templeton não está descartada pelo autor, cuja publicação pela Editora Mino segue firme e forte no Brasil. Com a proximidade do lançamento da série do Prime Video baseada em Criminal (prevista para 2025), Brubaker e Phillips devem gozar de merecido reconhecimento mundial, para muito além das páginas de suas graphic novels. Não deve demorar até que Velvet faça crescer os olhos de algum produtor de TV ou cinema. Parece um caminho bastante natural.

19/11/2024

Pinguim


Mesmo com o selo HBO de qualidade (quase sempre, uma garantia de produtos minimamente bem-cuidados), nem o mais otimista espectador poderia prever que uma série do Pinguim, adaptada do filme Batman (2022), de Matt Reeves, estaria entre as melhores coisas vistas na televisão nesta década. Ninguém estava preparado para tamanha profundidade psicológica ou tão adequada atmosfera noir. Inclusive, muita gente deve ter imaginado que havia grande chance de esta série estragar o legado de Batman, mas ela não apenas subverte essa expectativa como, na verdade, deixa o universo do filme mais rico e interessante.

Vamos logo falar do elefante no meio da sala: eu não vejo problema na ausência completa do Batman, mesmo em diálogos. Entendo o personagem do filme como sendo um vigilante em início de carreira, o que pode perfeitamente explicar por que ele deixaria de saber ou não consiga atuar sobre os esquemas vistos na série. Ele ainda está aprendendo a ser o Batman – talvez subestimando a escala e o alcance do crime na cidade, por assim dizer.

De maneira semelhante, tampouco o Pinguim já é aquele bandidão estabelecido dos quadrinhos: neste universo e neste momento, está mais para empregadinho do que para chefão. No calor dos eventos depois da morte de Carmine Falcone, em Batman, Oswald “Oz” Cobb tenta se apoderar de um trunfo que pode permitir-lhe alguma ascensão no mundo do crime em Gotham. Ao invadir o escritório de seu finado patrão, porém, ele age no calor da emoção e do orgulho, cometendo o ato que põe em marcha seu plano - que ele nem sabe muito bem ainda qual é.


Daí por diante, o instinto de sobrevivência e a habilidade de Oz para contar mentiras (ou meias-verdades convenientes) serão testados a cada episódio, porque a única coisa que supera sua capacidade de escapar de situações mortais é sua tendência de cair em outra mais à frente (ou criá-las ele próprio). Todo o submundo de Gotham sabe que a palavra de Oz Cobb vale muito pouco, mas, de alguma forma, ele consegue transitar entre lados rivais, jurando lealdade a quem lhe pode ser mais imediatamente útil, apenas para trair seus “aliados” logo em seguida.

Lembra do selo HBO de qualidade a que me referi lá no começo? Pois bem, ele é perceptível em cada fotograma de cada um dos oito episódios de Pinguim. Desde os cenários daquela que talvez seja a melhor Gotham City das telas, passando pelo roteiro que privilegia o clima noir da história, até desembocar nas atuações simplesmente acachapantes do elenco principal, tudo é de altíssima qualidade. Em sua maquiagem espantosa, Colin Farrell já havia “sumido” em seu personagem no filme de 2022, mas o que ele alcança aqui, com maior tempo de tela e desenvolvimento, certamente o conduzirá a uma gorda temporada de prêmios. Oz é o mafioso mais carismático da TV desde Walter White, de Breaking Bad.

Seu mais constante parceiro de cena, a revelação Rhenzy Feliz, intérprete do inesperado sidekick Victor Aguilar, tem a inocência hesitante de quem se vê arrastado pra dentro de um mundo que não é o seu e se deslumbra com o que pode conseguir dele, mas que abomina a ideia de recorrer à violência, ainda que isso nem sempre o detenha.


A grande e magnética surpresa da série, porém, é Cristin Milioti, intérprete de Sofia Falcone. Desde sua primeira cena, é impossível desviar nossos olhos dos seus, dois globos repletos de trauma, inteligência e rancor – inclusive, contra o Pinguim. Fosse outra série, eu talvez estivesse tentado a dizer que ela rouba a série para si, mas a concorrência de Milioti é duríssima: além de Farrell e Feliz, quem também dá um show é Deirdre O’Connell, no papel de Francis Cobb, a sequelada mãe de Oswald, que mantém com ele uma complexa relação de dependência e domínio.

Todos estes personagens estão tão carregados de dualidade moral, que fica difícil eleger um favorito. A estes, junta-se um elenco notável de coadjuvantes, incluindo Michael Kelly, Clancy Brown, Shohreh Aghdashloo e Mark Strong, entre outros. Com seu andar trôpego e conversinha de “homem do povo”, Oz vai colocando todos no bolso, um por vez, e pondo ideias na nossa cabeça: “pelo menos, ele é bom filho”, “gosta do Victor”, “cuida do povo do bairro”, mas, não se engane: o Pinguim é um vilão, não é um anti-herói. Ponto pra todo mundo que se lembrou disso, ao escrever.


Assistindo a esta série, a gente, também, se sente meio enganado pelo “bom” Cobb, porque todas as nossas certezas e expectativas – cultivadas por meio de nossas experiências com clichês de quadrinhos, filmes e séries de super-heróis – são formidavelmente traídas por ela, com suas sutilezas dramáticas e sua descida em espiral sem freios a lugares muito escuros da alma humana. O ruim de que ela seja tão boa é que seu merecido sucesso jogará nossas expectativas muito para cima – não só em relação a uma possível segunda temporada, como em relação a qualquer outro possível/provável derivado deste universo, incluindo aí o segundo filme do Batman, prometido para 2026.

Não é o DCU que temos, mas certamente é aquele que queremos e merecemos. A vida em Gotham não é tão madrasta assim, afinal.

04/11/2024

A Substância

 

A crítica à obsessão por beleza e juventude na sociedade em geral e na indústria de entretenimento em particular já não é novidade. O próprio cinema, onde essa obsessão ainda vigora, já fez sua cota de autocrítica. A Substância é seu mais recente esforço, que se destaca por contar com uma protagonista (Demi Moore) que viveu a pressão para manter-se com o rosto e o corpo jovens que o público supostamente queria ver – normalmente, uma opinião de homens que não viam qualquer problema neles próprios envelhecendo ou embarangando.

A carreira de Elisabeth Sparkle (belo nome para uma drag queen) da fama mundial ao semi-ostracismo é resumida, de forma bastante sucinta e esperta, na sequência de abertura, quando ganha sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood – em meio a comentários elogiosos sobre sua beleza e talento – e, conforme avançam os anos passam de maneira acelerada, o tom dos comentários ao redor da placa muda para coisas como “lembra dela?”. De desejado ponto de visitação, vira um lugar por onde as pessoas passam sem qualquer atenção ou cuidado.

Ao completar 50 anos, Elisabeth é “convidada a sair” da emissora onde comanda um programa de fitness da chamada “melhor idade”, em favor do que a direção de seu canal (na pessoa do asqueroso personagem de Dennis Quaid) deseja em seu lugar: alguém mais jovem, mais bonita e capaz de renovar a audiência em baixa. Aos 50, Elisabeth está linda, lúcida e produtiva, mas percebe que se tornou um estorvo, num meio onde a velhice é um pecado imperdoável.

Enquanto lamenta sua nova condição de “idosa” desempregada, ela vê um anúncio de algo chamado simplesmente de A Substância, que promete (mediante instruções de uso bastante específicas) entregar uma nova versão do usuário: mais jovem, mais bonita – melhor, enfim. Levada a um endereço tenebroso, Elisabeth pega seu kit, vai pra casa e, claro submete-se ao misterioso tratamento.

Paramos por aqui, porque dar qualquer detalhe a partir deste ponto estragaria muitas surpresas do filme da diretora francesa Coralie Fargeat (que, antes, havia dirigido apenas um outro filme, o thriller Vingança, de 2017). No Festival de Cannes deste ano, A Substância estava indicado à Palma de Ouro, e saiu com o prêmio de Melhor Roteiro. Se sentir que já viu algum filme com trama bem parecida, você deve estar certo. Mesmo sem ideias tão novas assim, porém, A Substância desvia de soluções óbvias e sua principal virtude é não pisar no freio: quando você achar que já chegou ao limite da maluquice e da nojeira, ele vai lá e empurra o limite um pouco pra mais longe. De certa forma, testa nosso voyeurismo sádico, ao sugerir que chega ao fim algumas vezes – e aí, pof!, tome mais uma sequência ultrajante na cara!

Apesar do gore deslavado, a maravilhosa cinematografia, com seus cenários e planos de câmera, rende homenagem a clássicos do terror. É impossível, por exemplo, ver as cenas nos corredores da emissora e não pensar no hotel de O Iluminado (1980). Como Pearl (2023), outro filme de terror recente carregado de esmero visual, A Substância é bem bonito de assistir – isto é, até que comecem os previsíveis problemas de Elisabeth, que já qualificam o filme como um neoclássico do horror corporal como veículo de crítica social, à moda David Cronenberg.

É gratificante ver Demi Moore, uma atriz que já experimentou todo tipo de altos e baixos na profissão, retornar à relevância com tal categoria, a serviço de uma personagem com a qual certamente se identifica (tendo ela mesma se submetido a transformações artificiais que nem sempre deram certo). Além disso, com o que muita gente já chama de melhor atuação de sua carreira, Demi prova o argumento central do filme, o de que é apenas natural que a juventude se acabe, sem que isso implique em juízo do seu valor ou talento. Rejeitar a passagem do tempo, em nome da vaidade ou de uma utopia de juventude eterna, é terreno fértil para o ridículo e o grotesco. Com A Substância, Demi e Coralie deixaram pouca margem para mal-entendidos. É um filme que não faz prisioneiros, exige coragem pra ser feito e visto. Arme-se de muita!

28/10/2024

Música & Mágica #3


TRAVIS
The Man Who
1999
 
Não é um fenômeno novo, mas é interessante notar como a tristeza foi praticamente criminalizada. Parece que ninguém tem mais o direito a um dia ruim. A galera da positividade tóxica e seus mantras (“reclamar menos, agradecer mais”) estão fazendo das pessoas uma horda de zumbis com sorrisos lindos, cheios de “namastê” nos lábios... e mortos por dentro.
 
Sim, porque sentir tristeza é normal – inevitável, até – e represá-la é criar trauma para si. O modo mais rápido de acabar com ela é usá-la. Logicamente, chega um momento em que sua vontade de ficar em casa sem ver ninguém pode preocupar as pessoas ao seu redor, então, talvez esteja na hora de lembrar que o sol ainda brilha lá fora e gente que te ama sente sua falta, mas, principalmente, que a vida – e, mais ainda, a sua vida – não acabou.
 
Muito dessa recusa em viver a tristeza vem do medo de sofrer, seja por amor, luto ou frustração. É o mesmo medo que leva muita gente a, por exemplo, jamais querer assumir um compromisso amoroso, porque, enfim, pode dar merda e você acabar sozinho, chorando num canto. Acontece que o sofrimento pelas coisas que se acabam ou dão errado é uma das principais ferramentas que talham nosso espírito. É ele que, de verdade, ensina resiliência, não aquele coach que diz que você não está se esforçando o bastante em se alegrar.
 
Claro que, se a sua tristeza não passa e te faz pensar em desistir da vida, seu problema tem outro nome. Procure ajuda.
 
Para mim, no que diz respeito à arte, a tristeza é a mãe da beleza. Ao contrário de muita gente, eu prefiro escutar música triste quando estou triste – justamente para, como dito acima, viver e gastar a tristeza, até que ela passe. Só que eu também gosto de música triste quando estou feliz, simplesmente porque toda aquela emoção (com perdão pelo desfecho pobre) me emociona.
 
Daí que, desde sempre, artistas considerados melancólicos estão entre os meus favoritos: Morrissey, The Cure, Jeff Buckley, Renato Russo, Maria Bethânia... É uma lista longa e triste (e sei que haverá quem diga que é triste por outros motivos). A música dessa gente já embalou muito chororô, saudade, e aquela tristeza que dava do nada, apenas porque eu não conseguia controlar uma espiral de pensamentos intrusivos – que acabava, felizmente. Por outro lado, também, já “animou” muita faxina e dias ensolarados.
 
Não se preocupe, porém: eu também gosto muito de música alegre, claro.
 
Em 1999, a atenção do mundo se voltou a uma nova “grife” de tristeza, vinda da Escócia: a banda Travis, formada por Fran Healy (voz e guitarra), Andy Dunlop (guitarra), Dougie Payne (baixo), e Neil Primrose (bateria). Após um primeiro álbum, Good Feeling (1997), em que a melancolia se escondia entre as altas guitarras que quase o transformavam em um disco de, sei lá, hard rock – ou, pior ainda, um disco ALEGRE, imagina que absurdo – o Travis vestiu o sobretudo preto e voltou triste, feito um desses dias no Reino Unido em que escurece logo cedo e chove sem parar.

Travis: Dunlop, Healy, Primrose e Payne
 
The Man Who é uma coleção de bonitos temas de “miserê” e dor-de-cotovelo, e a gente só consegue imaginar a bagunça em que a cabeça e o coração de Fran Healy pareciam estar. O circo do pop/rock adora epítetos e rótulos e, na época, chamaram Healy de “o último heterossexual sensível do pop”. Um exagero bobo, mas, seja lá quem teve culpa pelo que em sua vida, o fato é que o homem se rasga todo nas 10 canções do disco, com sonoridade mais acústica que no anterior.
 
O primeiro single de The Man Who foi “Why Does It Always Rain on Me?”, em que Healy se vê infeliz, apesar do sucesso que lhe dizem estar desfrutando. “Eu não consigo dormir, todo mundo fica dizendo que está tudo bem”. Temática e musicalmente, o Travis agora parecia menos Oasis e mais The Smiths – e, de verdade, o disco abre com uma música, “Writing to Reach You”, que indica um certo “bode” dos Gallagher: “o rádio está tocando o de sempre / e o que é uma “wonderwall”, afinal?” O riff introdutório lembra o hit do Oasis e não é por acaso.
 
Não pense, entretanto, que porque é essencialmente triste que seja um disco monótono. O Travis estava inspiradíssimo em suas melodias, e várias delas eram ótimas para cantar junto – um fenômeno que veríamos repetido, por exemplo, cinco anos depois, com a estreia do Keane. Você sabe que está fazendo algo de bom quando Sir Paul McCartney diz que gostaria de ter escrito uma de suas músicas, “Turn” – é fácil imaginar um estádio lotado cantando, em uníssono, as agruras de um desajustado pensando em suicídio.
 
A música “alegre” do disco é “Driftwood”, sobre não fazer escolhas no momento certo e deixar as oportunidades passarem. “Luv”, a oitava faixa, é de uma tristeza abissal, amplificada pela gaita que serpenteia entre os versos de um rompimento amoroso unilateral.
 
Para este que vos escreve, porém, o grande momento do disco é a última faixa. “Slide Show” abre com ruídos de portas batendo e sendo trancadas, seguidos pelos de um carro sendo ligado e se afastando. Ela foi embora. (Esta é a história a mim sugerida, pelo menos). Em casa, ele liga o projetor e fica vendo momentos felizes. Fran Healy começa a cantar: “hoje era um dia de dança e cantoria / os pássaros nas árvores e os sinos estão soando /.../ oh, Deus, espero que eu fique bem / porque eu vou chorar”. Da segunda vez em que se canta o que há de mais próximo de um refrão, um breve e lindo verso de cordas se junta ao violão, e vem o nó na garganta. Portas são trancadas novamente. Pra sempre. Acabou.
 
(Na verdade, “Slide Show” termina aos 3:34, seguida por outros três minutos de silêncio, até que comece a não-creditada “Blue Flashing Light”).
 
Já é folclórica, no meio pop, a história de como o Travis tinha tanta moral, naquele fim de século XX, que apadrinhou a chegada do Coldplay. Hoje, os “afilhados” são incomparavelmente mais ricos e famosos, mas olha a música que o Coldplay nos oferece hoje em dia... Há males que vêm pro bem, enfim. The Man Who é um desses discos capazes de fazer a mim, ateu convicto, pedir que Deus abençoe as almas torturadas deste mundo que são capazes de transformar sua dor em arte e beleza, porque, em minha admiração confessamente mesquinha, eu sou incapaz de desejar que elas se curem.

* * * * *

Travis
The Man Who
Produzido por Nigel Godrich, Ian Grimble e Mike Hedges
Lançado em 24 de maio de 1999

01. Writing to Reach You
02. The Fear
03. As You Are
04. Driftwood
05. The Last Laugh of the Laughter
06. Turn
07. Why Does It Always Rain on Me?
08. Luv
09. She's So Strange
10. Slide Show
Faixa oculta: Blue Flashing Light