Considerando que Radiola Vol. 1 (2017) era um disco de covers, já faz espantosos 11 anos desde que a Nação Zumbi lançou um disco – e o curioso disso é que a banda não acabou, nem se afastou dos palcos. Na época do lançamento de Nação Zumbi, o disco de 2014, fiz uma crítica positiva do álbum, hoje arquivada. Nos comentários, troquei argumentos com um fã mais hardcore da banda sobre a qualidade do trabalho, que ele considerou altamente questionável.
Do meu lado, defendi que a banda estivesse tentando fazer um pouco mais de sucesso, e que o disco fosse mais curto e mais relaxado que a maioria de seus trabalhos. Já ele entendia o álbum apenas como relaxado, mesmo – só que no sentido de frouxo. Disse, ainda, como resposta à minha sugestão de que a banda estaria, com a guinada a um tipo de pop, mostrando-se mais convidativa ao público, que fazer uma música mais elaborada ou experimental não significava deixar o público de fora, mas que achar a entrada fazia parte da brincadeira.
Sendo a apreciação da Arte um troço completamente subjetivo, é claro que ninguém estava totalmente certo ou errado: se acertei que músicas como “Um Sonho” e “A Melhor Hora da Praia” se tornariam itens queridos do setlist dos shows, muitos devem concordar com seu argumento de que esse disco era pálido perto de outros, já que qualquer audição menos atenta de álbuns como o homônimo Nação Zumbi (2002), Futura (2005), ou do estupendo objeto deste texto, Fome de Tudo (2007), revela-se bem mais impactante.
Um pequeno aparte, a título de “a última palavra é minha”: continuo achando que “Cicatriz” é do caralho, com sua introdução caceteira e sua produção cristalina, séria candidata a integrar aquela playlist do Spotify chamada “Songs to Test Headphones With”.
Em 2007, o Brasil surfava uma onda de otimismo, impulsionada pelos bons resultados econômicos e sociais do primeiro governo de Lula, já em seu segundo mandato. Na ocasião, embora suas políticas públicas já começassem a melhorar bastante a condição de vida geral do povo (em especial, de sua parcela mais carente), o Brasil ainda figurava no mapa da fome das Nações Unidas e só o deixaria alguns anos à frente, em 2014. No título de seu disco, porém, a Nação Zumbi enfatizava que não era só comida que faltava – de certa forma, uma retomada do conceito de “Comida”, dos Titãs, de 20 anos antes.
Mas é a fome literal o centro temático da poderosa faixa-título, que traz um dos versos mais contundentes já escritos sobre o assunto: “a fome tem uma saúde de ferro / forte como quem come”. É prova inequívoca do alto poder de fogo instrumental da Nação, em especial a bateria precisa de Pupillo e as inspiradas guitarras sobrepostas de Lúcio Maia – o homem estava imparável, ouça e comprove.
Desde a primeira faixa, a forte “Bossa Nostra” (um tratado da fome de autoconhecimento), a Nação pesa bonito a mão, um baque groovado após o outro. “Infeste” é praticamente Linkin Park via sertão agreste, as alfaias pesando uma tonelada e a proteção dos orixás nas imagens evocadas na letra. Em “Carnaval”, chama atenção o inspirado órgão Hammond de Marcelo Jeneci. Céu contribui com delicados backing vocals em “Inferno”.
A Nação joga até um sambinha de salão, com ajuda dos sopros marotos da Orquestra Popular do Recife, em “Nascedouro”. A musculosa “Onde Tenho que Ir”, ligada a “Assustado” por uma vinheta eletrônica sobre a fome como negócio, é uma pedrada cheia de balanço, com forte protagonismo das alfaias e das guitarras, com uma cítara adicionando bem-vinda psicodelia.
Em suas 12 faixas, Fome de Tudo traz a Nação Zumbi ostentando um sotaque pop nada óbvio (cortesia da finíssima produção de Mário Caldato), com resultados bem superiores aos de 2014 – basicamente, porque este disco não dilui sua potência política nem aposta na segurança de uma balada. Os vocais de Jorge dü Peixe soam mais versáteis e as boas letras garantiram refrãos empolgantes. Não é nada habitual uma banda atingir tamanho pico de criatividade uma década depois de perder seu membro mais famoso e principal cabeça pensante (Chico Science, falecido em 1997).
Em qualquer país sério, um onde as rádios não estivessem sendo sistematicamente compradas para abrigar apenas um gênero ou dois e nivelar tudo por muito, muito baixo, este disco teria potencial para frequentar as FMs e transformar a Nação Zumbi em mania nacional. Não era garantido que mais sucesso e grana fossem diminuir os hiatos criativos ou evitar a saída de vários membros importantes (entre eles, Pupillo e Lúcio Maia, perdas incalculáveis), mas ninguém jamais vai poder dizer que eles não tentaram do jeito certo.
NAÇÃO ZUMBI