25/09/2026

A escuridão interior


Uma crítica da série
Fúria, do Disney+

Enquanto no Brasil o escândalo do Banco Master trouxe à luz uma orgia de figurões com 120 mulheres - entre as quais, muitas "novinhas" - nos EUA, os famigerados Arquivos Epstein seguem como uma constante espada, pendendo sobre a cabeça de diversos dos homens mais poderosos do país. Não há como não traçar paralelos entre a vida real e a trama de Fúria, série do Hulu, disponível no Disney+.

Quando ricaços começam a morrer de aparente overdose, uma tênue ligação entre os mortos é o suficiente para a agente do FBI Alice Black (Emmy Rossum) suspeitar da ação de um (ou uma) serial killer com perfil justiceiro: todos estiveram numa certa festinha, cheia de menores aliciadas. Desde as primeiras cenas, quando Catherine (Lola Petticrew) é vista acabando com Caleb Easton, sabemos que ela tem contas a acertar com ele e outros homens que persegue com obstinação, usando disfarces e documentos falsos. Nossa empatia inicial, porém, logo se esvai, quando percebemos que Catherine se delicia com tortura e morte, além de usar e eliminar inocentes.

Catherine: uma seringa e uma ideia na cabeça

Lançada sem alarde proporcional à sua qualidade, Fúria tem atmosfera incômoda e densidade dramática incomum. Cada um de seus oito capítulos é como uma breve descida ao inferno, em que cada degrau conduz a um novo nível de baixeza humana - inclusive, por parte daqueles que vemos como "mocinhos": não há santos em Fúria, traço que deixa tudo um pouco mais realista, mas, ao mesmo tempo, põe um travor amargo em nossa garganta. A gente pode confiar neles pra fazer a coisa certa, mas eles não se furtam de fazer a coisa errada para chegar lá.

No afiado elenco, há dois inegáveis destaques: Emmy Rossum, que faz uma Alice Black extremamente focada, traumatizada pela violência que sofreu nas mãos do ex-namorado (Jake Lacy, em mais um papel de homem de merda coberto de açúcar), mas que responde a impulsos questionáveis quando provocada; o outro é Quincy Tyler Bernstein como a agente Nora Washington, chefe da divisão de crimes sexuais com problema de alcoolismo e arrependida de ter ajudado a enterrar um processo que se liga à investigação de Alice, a quem serve como mentora, ao mesmo tempo em que pisa forte nos seus calos.

Alice e Nora: o mundo é dos homens (ruins)

Lola Petticrew é correta como a justiceira/psicopata Catherine, uma personagem cuja dualidade moral é um dos trunfos da série: a gente quer ver estuprador se lascando, é claro, mas Catherine parece estar sempre curtindo a coisa um pouco além da conta. Além de engenhosa e malandra, ela ainda tem uma sorte gigantesca. Embora tenha algumas lealdades, nunca é possível cravar que ela está sendo guiada por um coração no lugar certo. Quando sua sorte finalmente acaba, a gente quase deseja que ela se dê bem - mas logo passa.

Como os tons de cinza da série vão ficando progressivamente mais escuros, o gancho para a já garantida segunda temporada é mais um desdobramento que deixa a gente pensando "será que eu faria igual?". As tecnicalidades, os precedentes e os meios-termos costumam frustrar nossa sede de retribuição, fazendo a gente sentir que, às vezes, a Justiça tem muito pouco de justa. O dilema em ceder ao ódio, porém, é aquele muito bem desenhado por Nietszche: se você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha de volta. Em Fúria, ele ainda chama com o dedinho.

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