30/09/2011

1808



Logo depois de anunciar o abandono dos quadrinhos mensais da Panini/DC em prol de mais e melhores livros, decidi começar logo a leitura de alguma obra cativante, que coroasse minha mudança de hábitos. "Coroar", diga-se é o verbo correto para falar de 1808.

O livro de Laurentino Gomes conta algumas das histórias que cercaram a transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, numa fuga estratégica para escapar do cerco de Napoleão Bonaparte, que destronava reis em sequência pela Europa. Além de garantir sua sobrevida no trono, a manobra de D. João VI deu o empurrão inicial do processo que culminou com a independência da colônia, em 1822, e colocou o país no mapa mundial.

Fundamentado em extensa bibliografia, consultada em diversos cantos da América e da Europa ao longo de dez anos, Laurentino Gomes supre a lacuna de uma fonte em linguagem acessível sobre o período, uma vez que, como explicado na introdução, a maioria da documentação sobre a época é composta de rebuscadas obras acadêmicas.

Já este é um livro de leitura fluida e esclarecedora, apresentando personagens ilustres e outros semidesconhecidos, desfazendo alguns e confirmando outros mitos que cercam a transformação deste país em sede de um império e, algum tempo depois, em nação soberana. De quebra, descobrimos a origem da endêmica corrupção que compromete o avanço deste país ainda hoje, 200 anos depois dos eventos narrados.

1808 não arreda pé das listas de livros mais vendidos desde seu lançamento, há quatro anos. O sucesso levou o autor a escrever um novo livro, nos mesmo moldes, sobre a independência do Brasil, chamado (obviamente) 1822, (cuja leitura, diga-se, já está garantida para mim). Excelente sugestão para enriquecer sua estante e seus neurônios.

26/09/2011

Cadê o Soul Brazuca?



Há algumas semanas, no Facebook, em resposta a um vídeo postado por um amigo, caiu a ficha: não existe mais soul music no Brasil. 

Este país já teve, pelo menos, dois cantores fenomenais, que nada deviam aos seus pares gringos: Tim Maia e Wilson Simonal, senhores absolutos da plateia em cima de um palco (isto é, descontando aquelas vezes em que Tim não aparecia, claro). Os dois sabiam tão bem o que estavam fazendo que realizaram muito bem-sucedidas cruzas entre soul e ritmos brasileiros, mas, com total respeito aos elementos mais tradicionais da metade norte-americano da mistura: ritmo forte, metaleira encorpada e coração na garganta. Eram, ao mesmo tempo, refinados e populares, interseção alcançada apenas pelos muito competentes.

Só tem um problema: Tim Maia e Wilson Simonal já morreram há muito tempo. De lá pra cá, a soul music brasileira minguou até o virtual desaparecimento, diante da crônica carência de cantores que aliem as qualidades vocais necessárias a um repertório igualmente poderoso. Não estou falando que faltam bons cantores ou boas cantoras. O Brasil é cheio de gente maravilhosa, mas que, muitas vezes, se deixam enredar pelas armadilhas do sucesso fácil e pela busca de popularidade junto a um público menos exigente (embora, talvez, mais fiel).



Ou será que estou errado em dizer que Sandra de Sá é uma das melhores vozes que este país já ouviu? A negona tem potência, alcance e swing invejáveis. Poderia ser a nossa Tina Turner, mas preferiu ser a nossa Whitney Houston, capitulando às baladonas melosas de Sullivan & Massadas e a outros compositores de mão pesada ou preguiçosa. Tanto tempo depois, já nem faz muito sentido questionar as escolhas de Sandra, mas, se é verdade que ela garantiu um belo pé-de-meia no tempo em que emplacava uma trilha de novela atrás da outra, também é verdade que poderia ter construído uma carreira bem mais sólida artisticamente. Não consigo deixar de pensar no monumento black que Sandra poderia ter sido.

(Nota: em que pese meu reconhecimento do talento de Sandra, não posso deixar de registrar aqui o assombro que foi escutar África Natividade, seu mais recente CD ao vivo, em que ela parece grogue, desafinando vergonhosamente e perdendo na comparação com qualquer um dos convidados presentes. Assombro maior ainda é que isso tenha sido lançado.)

Nossa Aretha Franklin poderia ter sido Alcione, mas o samba é, claramente, a praia da Marrom. Nem cabem críticas a ela, pois, ao contrário de Sandra, Alcione soa absolutamente verdadeira em tudo que faz. Ela é o que ela canta. Se você não gosta de samba e de matronas falando de sua vida amorosa e sexual com a sinceridade de uma lavadeira, fuja. Se isso não te incomoda, dá até pra curtir, mas seria glorioso ouví-la se esgoelando num soul furioso. Do jeito que é hoje, a única coisa em comum entre elas é o número do figurino.

Os últimos esforços visíveis de termos ídolos soul de alcance nacional acabaram revelando-se fracassos patéticos.

Ainda que carente de técnica, Mauricio Manieri é dono de uma voz encorpada e agradável, potencialmente propícia para o gênero em questão. Marcou alguns gols ("Minha Menina", "Bem Querer", algo mais?) e sumiu nas verdejantes pastagens do ostracismo.



A Fat Family nasceu como uma piada pronta. Donos de vozes invejáveis, os oito irmãos (dos quais um já faleceu) poderiam ter sido, conjunta ou individualmente, alguns dos maiores cantores deste país. Aí, o que acontece? Botam nos coitados o rótulo de "gordinhos engraçadinhos" e os mandam fazer matérias bizarras na TV, focando em nada mais do que seu peso e sua capacidade de mover o pescoço pros lados, coisa que até eu sei fazer. Pode ser que tenha havido muita gente interessada em saber o que a Fat Family comia no café, no almoço ou na janta, mas eu só queria ouví-los cantar - e disso teve muito pouco.

O quê?! Ah, é verdade: tem Seu Jorge e Paula Lima!

Quando quer, ele comanda seriamente. Fez uma participação elegantíssima no megalomaníaco DVD de Ivete Sangalo no Madison Square Garden e acabou de lançar um disco de samba-rock ultrassimpático, Músicas para Churrasco, Vol. 1. Seu mal é a mania de meter-se em roubadas mastodônticas como a medonha (per)versão de Ana Carolina para "The Blower's Daughter" (aquela do "eu não sei paraaaaaar de te olhaaaaaar!", um torturante compêndio de cacoetes boçais pra impressionar a quem não sabe nada de música). Seu repertório tem bom balanço, mas é bastante indigente nas letras. Tem potencial para ir muito mais longe, investindo num soul mais à la 70s e deixando de lado a preocupação imediata de ser visto como "do povão". Se nada mais der certo, sempre tem o Cinema, no qual ele também é muito bom.



Paula Lima é linda e chique, tem repertório simpático, mas sempre na linha "não fede, nem cheira". Falta-lhe um sucesso avassalador e um produtor que a desamarre da imagem de "cantora de baile". Talvez seja hora de deixar essa turma cheia de vícios (como Max de Castro e o Funk Como Le Gusta) e buscar gente interessante e eclética, pero sin perder la coerencia jamás. Melhor apressar-se, com a idade vai ficando mais difícil.

Deve ter gente boa no gospel, também, mas é um repertório que nem merece comentários.

Aí, eu fico vendo os artistas que chegam ao sucesso de massa lá de fora: Amy Winehouse, Adele, Sharon Jones, Eli "Paperboy" Reed, Fitz and the Tantrums, Cee-Lo Green... e me dá um desgosto que só não é maior do que a revolta de ver que o nosso hit parade (alguém ainda fala "hit parade" hoje em dia?) é formado por 90% de sertanejo universitário e os 10% restantes disputados a dentadas entre a turma do pagode paulista e do axé. Tem tanta gente boa por aí, mas tão sufocada por esse cenário desolador!

Houve um tempo em que música boa tocava na rádio e todo mundo curtia. Alguma coisa se perdeu desde então (provavelmente, a capacidade de discernimento do público jovem, vítima de péssima escolarização) e é preciso oferecer à audiência alguma coisa, nova, diferente e interessante para estabelecer as bases de uma comparação que permita destronar as porcarias que hoje reinam. Não sei se é falta de talento, de carisma ou de oportunidade da concorrência, mas, mesmo sem ideia do quanto pode demorar, pretendo viver para ver o dia em que as coisas mudarão por aqui.

24/09/2011

R.E.M.:The One I Love



Em julho de 1991, fazia um ano que eu havia perdido um irmão, Malcon, vítima de aneurisma fulminante. Talvez por alguma misteriosa lei natural de compensação, eu, que havia sido um adolescente recluso e antissocial, acabei descobrindo o valor da amizade e, de repente, me vi cercado de uma galera imensa, formada por amigos de meu irmão falecido e de outro irmão ainda vivo, com os quais ia a jogos de basquete, festas e noitadas sem qualquer razão especial que marcaram um período particularmente feliz da minha vida, em Ibotirama.


Foi nesta época que o R.E.M. chegou na minha vida e na de muita gente, a bordo de "Losing My Religion" e sua melodia irresistível, aliada a um vídeo que fez história e tornou-se referência para inúmeros outros. Como não podia deixar de ser, a música tornou-se obrigatória em nossas reuniões, fossem alcoólicas ou abstêmias. Out of Time foi um dos 10 primeiros CDs que tive na vida e várias de suas canções traziam grande alegria ao meu dia: "Radio Song", "Shiny Happy People", "Belong", "Texarkana", "Country Feedback"...


Ao fim do mesmo ano, com o grupo devidamente firmado no céu do megaestrelato, sua antiga gravadora, a I.R.S., lançou uma excelente coletânea, trazendo o fino do período do R.E.M. como banda indie, antes de assinar com a Warner e ganhar o mundo. São canções cuja qualidade melódica e encanto só encontram rivalidade na curtíssima e impecável trajetória dos Smiths, que acabaram justamente quando se preparavam para ser "a grande coisa" do fim dos anos 80.


Da "triste felicidade" eletroacústica de baladas perfeitas como "Perfect Circle" e "So. Central Rain", passando pelo country de "(Don't Go Back to) Rockville", até chegar ao seu primeiro grande hit, "The One I Love" e à desafiadora letra de "It's the End of the World As We Know It (and I Feel Fine)", eram 16 faixas para se ouvir com um sorriso de orelha a orelha.


Pouco mais de um ano depois, quando todo mundo pensava que o R.E.M. iria limitar-se a colher os louros do sucesso de Out of Time e lançar mais do mesmo, eis que a banda nos presenteia com um dos álbuns mais bonitos e sensíveis que este mundo já teve o privilégio de ouvir: Automatic for the People (1992) chegava transbordante de suavidade acústica e orquestral.


Os hits foram "Everybody Hurts" (reconhecida como uma das músicas mais tristes de todos os tempos) e "Man on the Moon" (homenagem ao esquisito comediante americano Andy Kauffman). Entre elas, outras excelentes e emocionantes canções. Na 11ª de suas 12 canções, porém, a beleza e a sensibilidade atingiam um ápice, numa monumental peça para piano e cordas chamada "Nightswimming", cuja letra celebra momentos de felicidade perdidos em tempos mais inocentes. Não menos bela, "Find the River" encerra a experiência com a doce memória dos cheiros e sabores evocados na letra.


Depois disso, o R.E.M. flertou com o grunge em Monster (1994), de novo com a semi-independência (sonora) em New Adventures in Hi-Fi (1996), com a eletrônica em Up (1998), entregou-se às baladas em Reveal (2001) e Around the Sun (2004), para voltar guitarreiro em Accelerate (2008) e pop em Collapse Into Now (2011).



Um dado fundamental, porém, não se alterava de um disco para o outro: nunca houve um lançamento do R.E.M. de onde não se pudesse pinçar ao menos uma faixa marcante, daquelas que fazem a gente se perguntar "como esses caras conseguem?". Como não se desmanchar com o clima solene e a arrepiante participação de Patti Smith em "E-Bow the Letter"? Como não sair dançando ao som de "Imitation of Life", que provou que o tino pop continuava intacto após 20 anos? Como não admitir que até uma faixa com rap ("The Outsiders") fica legal quando estamos falando de Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills?


Aí, poucos dias depois de ouvir que eles já haviam começado a gravar um novo álbum, chega a inesperada, estranha e amarga notícia de que o R.E.M. chegava ao fim, por consenso entre seus membros. Na agitação do dia-a-dia, eu nem havia parado para mensurar o tamanho do estrago. Hoje, porém, nas duas horas em que eu fazia o trajeto entre Alagoinhas e Salvador, vim ouvindo suas grandes canções e, pela força natural de sua obra e pelo pesar de perceber que um pedaço muito querido de minha vida, de repente, se acabou, rolaram-me insistentes lágrimas pelo rosto - e outras e outras e outras...


Sim, eu sei que Stipe não morreu, nem seus amigos. Sei que um reunião é possível e que daí podem florescer interessantes carreiras-solo, mas não consigo disfarçar meu luto. Ou eu estou ficando cada vez mais mole com a idade, ou o rock realmente perdeu uma parte importante do seu encanto para mim. É o fim do mundo como o conhecemos (e eu não me sinto bem).

23/09/2011

Saudade de quê?

O Facebook é um barato, provavelmente a rede social mais interessante de que já fiz parte. Apesar das algumas enervantes modificações de privacidade e compartilhamento, que pouco agregam à experiência de uso, gosto do visual limpo, padronizado, sem margem para aquele excesso de personalização que fazia do Orkut de algumas pessoas uma verdadeira agressão às retinas.

Claro, existem problemas: as chatíssimas correntes, brincadeiras e aplicativos que todo mundo parece adorar... menos eu. "Cole isso no seu mural", para mim, equivale a dizer "já que você não consegue pensar em nada original para escrever, repita o que todo mundo está dizendo e sinta-se menos mané". E tome "campanhas" para "ajudar" crianças com câncer, homenagens ao pai e à mãe aos quais você geralmente se refere como chatos, convites para eventos aos quais ninguém comparece ou sorteios cujo regulamento pode ser traduzido com uma só palavra: golpe.

Existem ainda aqueles cuja participação está limitada à citação de escritores, pensadores ou estadistas. Nada contra, mas, que tal dizer algo comovente, espirituoso ou engraçado que VOCÊ tenha bolado, só pra variar? Sinto particular pena de dois escritores cujas almas jamais terão descanso (assim como as nossas), tamanha a amolação pelo uso de seus textos no Facebook: Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, os favoritos de quem não tem nada a dizer.

Tão triste quanto a falta de originalidade é a evocação de um passado supostamente mais feliz, só porque tinha Xou da Xuxa, He-Man, pião, bambolê, pirulito Dip'n'Lik e outras tranqueiras. Grande bosta.

Não se iluda. Você fala mal dos garotos que passam o dia na frente de um videogame porque, provavelmente, não teve videogame na infância. Fala mal de quem passa o dia trocando torpedos ou acessando a internet pelo celular porque, no seu tempo, isso era ficção científica.

Se a gente olhar bem, o passado é um horror.

Não havia tantos carros congestionando as ruas, é verdade; mas, também, havia uma boa chance de não haver um na sua garagem, já que ter carro era bem mais difícil do que é hoje. Tecnologicamente, eram as tais "carroças" preconizadas por (vade retro!) Fernando Collor.

Possuir um telefone fixo era um luxo pelo qual se pagava uma pequena fortuna e que podia levar anos entre a solicitação e a instalação.

Viajar de avião era coisa de barão e ponto final.

LP era legal de colecionar, mas o vinil nacional era de baixa qualidade. A oferta de títulos ficava ao sabor dos critérios dos "gênios" no comando das gravadoras, que lançavam edições porcas, sem encartes. Hoje, na internet, a gente encontra praticamente qualquer coisa que se queira ouvir.

A pirataria musical era feita em fita cassete, aquele negócio que constantemente enroscava no aparelho com teclas duras e barulhentas, tornando um suplício a simples tarefa de encontrar uma música. Se a fita enroscasse, a gente teria que cumprir o humilhante ritual de rebobiná-la com uma caneta Bic.

Ainda havia TVs em preto-e-branco, com seletor ou teclas de canais e sem controle remoto. Uma TV com mais de 20 polegadas era um trambolho pesadíssimo e era preciso um senhor móvel para acomodá-la.

Os computadores eram monocromáticos e, para abrir um programa, era necessário digitar um comando tão extenso quanto este parágrafo.

Os quadrinhos Marvel e DC só existiam no formatinho consagrado pela Editora Abril, com capas alteradas e histórias vergonhosamente mutiladas. Formato americano só ficou popular no fim da década de 80, quando o Batman completou 50 anos e houve uma avalanche de (excelentes) lançamentos no formato original.

A Liga da Justiça dos desenhos se chamava Superamigos e era um sacolão de frases feitas, vilões idiotas e personagens constrangedores, como os Supergêmeos Zan e Zayna (sem esquecer do seu fiel macaco, Gleek).

Os efeitos especiais do cinema eram bem mais complexos de se fazer, já que era tudo praticamente artesanal e, ainda assim, tinham que ficar convincentes. Hoje, o CGI ressuscita bichos extintos com perfeição e faz até gente de mentira que parece de verdade.

Poucos conheciam seus direitos de consumidor, não havia eleições diretas para presidente, praticamente não se viam negros na publicidade e a homofobia era quase um dogma familiar, que começava quando o filho se atrevia a dizer que não gostava de futebol (esportes jogados com as mãos, como vôlei e basquete, eram considerados "coisa de fresco").

E, pelamordedeus, NÃO HAVIA INTERNET!

É sério que você tem saudade desse tempo?