16/10/2011

Guia Vertigo/Wildstorm

Imagino que, de tanto eu falar aqui sobre as séries Vertigo e Wildstorm e como elas atualmente são minhas compras mais constantes, alguns leitores estejam curiosos para saber quais são as séries em que vale a pena investir.

Este é um momento espetacular para quem deseja conhecer a mais famosa linha de quadrinhos adultos. Depois de anos sofrendo com publicações porcas e pouco acessíveis nas mãos de diferentes editoras, o trabalho da Panini Comics, depois de um começo tímido, deslanchou de maneira sublime na quantidade e qualidade de lançamentos (apesar de faltas ilustres persistirem).

Decidi redigir, então, esse compêndio de descrições e opiniões sobre as principais séries destes selos, para orientar aos possíveis interessados. Aqui você vai encontrar informações sobre o atual estágio de publicação por parte da Panini. Boa diversão!




Nas bancas

Vertigo
A revista da Panini que tem o nome da "casa" está na sua 23ª edição e traz mensalmente algumas das séries mais famosas da Vertigo, como Hellblazer, Casa dos Mistérios e Vampiro Americano. São 5 histórias e preço interessante, R$ 9,90 (inalterado desde seu lançamento!). Uma excelente pedida para quem deseja desintoxicar-se do universo dos super-heróis.

Encadernados

Hellblazer (vários escritores e artistas)
John Constantine já teve até filme com Keanu Reeves, criticado por mudar sua nacionalidade (ele é inglês, não americano) e seus traços físicos (é loiro, não moreno). Ele surgiu durante a fase de Alan Moore no Monstro do Pântano e logo ganhou título próprio. John tenta consertar as burradas de quem se esquece que invocar demônios tem um preço terrível - para si e para o mundo. Enquanto tenta evitar que o mundo sucumba às constantes investidas de forças arcanas, John enfrenta um outro inimigo bastante perigoso: a natureza humana.

A Panini já publicou o fim da polêmica (e excelente) passagem de Brian Azzarello (Coringa, 100 Balas) no título e a volta do clássico escritor Jamie Delano, em Pandemônio. Agora, atua em três vertentes: se por um lado prossegue a publicação do personagem na mensal Vertigo, por outro, publica especiais inéditos, como Passagens Sombrias, originalmente em preto-e-branco e em formato menor que o americano, escrita pelo premiado escritor de policiais Ian Rankin e ilustrada por Werther Dell'edera (Loveless); além disso, republica as primeiras histórias do personagem, começando com Origens Vol. 1 - Pecados Originais, de Jamie Delano e John Ridgway. O formato é americano e o papel é LWC, com capa cartonada e com orelhas, a um convidativo preço de R$ 19,90 para suas 180 páginas.

+ Hellblazer: 
Congelado 
Highwater: Pecados do Passado 
Cinza e Pó na Cidade dos Anjos 
Pandemônio


100 Balas (Brian Azzarello e Eduardo Risso)
O Agente Graves é um tipo misterioso, que chega a pessoas comuns em busca de vingança com uma oferta bastante tentadora: 100 balas impossíveis de rastrear e garantia de impunidade. O problema é que Graves parece ser parte parte (ou a pedra no caminho) de forças bem maiores do que se pensa. A série gira em torno das pessoas direta e indiretamente ligadas a Graves, seja por aceitar sua oferta, seja por estar no seu encalço. O submundo do crime nunca foi tão complexo e perigoso.

100 Balas é tão boa que é usada até em cursos de Literatura Policial. A Panini começou sua publicação pelo volume 3, mas fez o favor de relançar os dois anteriores, picotados de maneira vergonhosa pela Pixel. O sétimo volume está programado para sair entre este mês e o próximo. Todos ainda são facilmente encontrados.

+100 Balas: 
Vol. 1 - Atire Primeiro, Pergunte Depois 
Vol. 2 - Segundas Chances 
Vol. 3 - Laços de Sangue 
Vol. 4 - Inevitável Amanhã 
Vol. 5 - Contrabandolero! 
Vol. 6 - O Detetive Enquadrado




Ex Machina (Brian K. Vaughn e Tony Harris)
Após um acidente com um artefato misterioso afundado no Rio Hudson, Mitchell Hundred adquiriu a capacidade de comunicar-se com qualquer máquina, seja mecânica ou eletrônica. Com sua voz, ele pode silenciar alarmes e travar armas, por exemplo. Durante sua breve carreira como super-herói, ele evitou que o segundo avião atingisse o World Trade Center. Ao perceber que suas ações podiam causar danos colaterais difíceis de tolerar, ele decidiu agir em outra frente: a política. Hundred tornou-se o prefeito da problemática Nova York e descobre que a vida pública oferece mais desafios e esconde perigos maiores que supervilões.

A Panini publicou o primeiro volume de Ex Machina em 2005 e silenciou. Algum tempo depois, a Pixel assumiu a publicação da Wildtsorm e lançou o volume seguinte (primeiro como minissérie, depois em um encadernado horroroso em formato paraguaio). A Panini voltou a lançar a série a partir do terceiro volume e segue fazendo excelente trabalho, inclusive relançando o primeiro encadernado (que havia se tornado raridade); o segundo está programado para novembro. É uma das séries mais inteligentes e intrigantes em publicação atualmente, em que o debate de ideologias é entremeado com rompantes de violência gráfica, por vezes, chocante.

+ Ex Machina: 
Vol. 1 - Estado de Emergência 
Vol. 2 - Símbolo (Panini publicará em novembro) 
Vol. 3 - Fato vs. Ficção 
Vol. 4 - Marcha à Guerra 
Vol. 5 - Fumaça e Fogo 
Vol. 6 - Blecaute


Y - O Último Homem (Brian K. Vaugh, Pia Guerra e outros)
Num belo dia, sem explicação aparente, todos os machos do planeta morrem, homens e bichos. Apenas dois indivíduos parecem imunes: Yorick Brown, filho da presidente americana e artista de fugas, e seu mico de estimação, Ampersand. Viver num planeta só de mulheres pode ser o sonho de muitos garotos, mas o mundo de Yorick está mais para um pesadelo: serviços básicos funcionam precariamente, as mulheres se dividem em tribos violentas e misantrópicas, e a tal "sensibilidade feminina" ficou perdida em algum lugar entre a tristeza, a revolta e raros lampejos de lucidez diante do risco de extinção. Mesmo sem saber, Yorick pode ser a chave da salvação da espécie humana. Tudo que ele precisa fazer é ficar vivo... mas não será nada fácil.

A Panini começou a publicação de Y - O Último Homem desde o comecinho. Em lojas virtuais, ainda é fácil encontrar as primeiras edições. Em novembro, a série chega ao seu sétimo volume e deve ter sua conclusão publicada no volume 10. Esta é uma HQ inteligente e divertida, que desfaz vários mitos do pensamento masculino e feminino um sobre o outro e discute sabiamente temas sérios, como a quase inevitável homossexualidade feminina num mundo sem machos.

+Y - O Último Homem: 
Vol. 1 - Extinção 
Vol. 2 - Ciclos 
Vol. 3 - Um Pequeno Passo 
Vol. 4 - A Senha 
Vol. 5 - Anel da Verdade 
Vol. 6 - Menina com Menina


Fábulas (Bill Willingham e diversos artistas)
Durante uma guerra contra a entidade conhecida apenas como O Adversário, várias personagens de fábulas infantis vieram para nosso mundo. Aqueles com aparência humana levam uma vida mais ou menos normal, embora pouco saiam do condomínio conhecido como Cidade das Fábulas. Já os de aparência aberrante ficam confinadas na Fazenda. As fábulas, porém, não estão a salvo: O Adversário já sabe onde encontrá-los e os confrontos ficam cada vez mais violentos. Além de resistir aos ataques, as fábulas também precisam tratar de seus problemas, digamos, terrenos.

Para muita gente, a melhor série do Vertigo depois de Sandman. Fábulas é garantia de satisfação. O volume 6, "Terras Natais", está entre as coisas mais bem escritas que já li na vida. Além do inusitado de ver o Lobo Mau como detetive particular, Branca de Neve como síndica e Pinóquio como um tarado preso num corpo eternamente imberbe, temos conflitos bastante humanos entre eles e interação com outros universos imaginários, como as fábulas árabes e nórdicas. A Panini começou a editá-la na edição 4 e já está na 9; diante dos insistentes pedidos, porém, a reedição dos três primeiros (e raríssimos) livros deve ocorrer em breve. Este mês saiu a primeira minissérie derivada de Fábulas, João das Fábulas.

+Fábulas: 
Vol. 1 - Lendas no Exílio (Pixel Media) 
Vol. 2 - A Revolução dos Bichos (Pixel Media) 
Vol. 3 - O Livro do Amor (Pixel Media) 
Vol. 4 - A Marcha dos Soldados de Madeira 
Vol. 5 - Ventos da Mudança 
Vol. 6 - Terras Natais 
Vol. 7 - Noites (e Dias) da Arábia 
Vol. 8 - Lobos 
Vol. 9 - Filhos do Império


Vale a pena procurar: Os Perdedores (especial, Andy Diggle e Jock), Loveless - Terra sem Lei (quatro volumes, de Brian Azzarello com Eduardo Risso e Werther Dell'edera).




Nas livrarias

Sandman
A entidade conhecida, entre outros nomes, como Morfeu, tem aquele cabelão desgrenhado de Robert Smith, vocalista do The Cure. Após escapar de um confinamento de décadas, o Sonho tem que reconstruir seu próprio reino e cuidar de problemas tão diversos como os conflitos com seus irmãos (entre eles, Morte e Desejo) e o súbito esvaziamento do inferno. Leitura de primeira e a obra mais premiada de Neil Gaiman, permeada de discussões sobre a condição humana, em seus mais superficiais e profundos aspectos.

Já saíram dois volumes de Sandman - Edição Definitiva. São livrões com mais de 600 páginas em capa dura e papel LWC, com preço oscilando em torno de R$ 100 (pouco mais ou pouco menos, dependendo da loja). Acredite, é um investimento dos melhores. Sandman não fica bem apenas na estante de quem lê quadrinhos: é garantia de horas prazerosas para qualquer um que goste de boa leitura. Sua publicação segue um ritmo anual. O terceiro deve sair por volta de março do ano que vem.


Preacher
Jesse Custer é um pastor de uma cidade do Texas que, graças à possessão da entidade conhecida como Gênesis, meio demônio e meio anjo, tem o dom da Palavra, que faz com que qualquer pessoa obedeça ao que ele diz. Ao lado de sua namorada Tulipa O’Hare e do vampiro irlandês Cassidy, ele sai em busca de Deus para cobrar que Ele assuma novamente seu cargo. Aclamada por fãs e crítica, escrita pelo irônico Garth Ennis, magistralmente desenhada por Steve Dillon e com capas do detalhista Glenn Fabry, Preacher teve 66 edições e 6 histórias especiais — formando o cabalístico número da besta, o 666 — que formam um saga ácida, com as doses certas de profano, sagrado, magia, ação e muito humor negro (Texto do hotsite Panini/Vertigo).

A Panini publicou os volumes de 7 a 9 (Salvação, Às Portas do Inferno e Álamo), concluindo uma série que parecia fadada a jamais encerrar-se aqui no Brasil, e já manifestou desejo de relançá-la desde o começo. Vergonhosamente, nunca li Preacher, mas o comentário geral é tão positivo que é uma questão de tempo até eu começar.


ZDM - Terra de Ninguém (Brian Wood e Riccardo Burcchielli)
A Segunda Guerra Civil dos EUA começou. As milícias no interior da América armaram-se contra o governo e tomaram Manhattan, agora uma zona desmilitarizada. A Grande Maçã virou um barril de pólvora que mantém a cidade e o país em estado de tensão. É nesse ambiente que o jornalista Matty Roth entra por acaso, a mando de um jornal manipulador da opinião pública, para conhecer as forças em conflito e explicar o que acontece ao mundo. Antes que tudo vá pelos ares. Criada e lançada em meio a um mundo real de ataques terroristas, guerras no Oriente Médio e mentiras do governo, ZDM ousa tratar dos temas que os EUA queriam varrer para baixo do tapete. Brian Wood reúne toda sua ira contra o sistema nos roteiros desenhados por Riccardo Burchielli. (Texto do hotsite Vertigo/Panini)

Outra série que não integra minha coleção. Cheguei a ler algumas edições, mas não me cativou. Talvez eu devesse ter tido mais paciência e as coisas melhorassem, mas, penso nisso depois.


Outras importantes séries Vertigo e Wildstorm aguardam continuação, como Frequência Global (Warren Ellis e vários artistas) e Transmetropolitan (Warren Ellis e Darick Robertson). Entre as séries mais desejadas pelos leitores para lançamentos em encadernados estão Homem-Animal (Grant Morrison e Chas Truog) e Planetary (Warren Ellis e John Cassaday).

Um dos últimos lançamentos para livrarias foi a premiada minissérie Daytripper (em volume único), dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, ganhadora do prestigiado Eisner Award.

Para conhecer mais sobre as séries e acompanhar os lançamentos:

Para comprar os encadernados de bancas, as opções são várias. Posto aqui cinco delas, sendo que a Liga HQ tem a política de frete mais atraente: começa em R$ 1,00 por uma revista; R$ 0,90 por duas (cada); R$ 0,80 por três (cada) e assim por diante.


Os títulos de capa dura, embora também possam ser comprados nas lojas acima, costumam ter preços mais atraentes em grandes varejistas virtuais, como Americanas, Saraiva, Walmart, Fnac, Cultura, Submarino, Ricardo Eletro, Siciliano e Insinuante. Com o fim da greve dos Correios, que obrigou-as a contratar transportadores mais caros, as promoções de frete grátis a baixos valores devem voltar em breve.

Boas compras e boa leitura!

14/10/2011

Teste dos 20 anos

1991 foi um ano histórico para o rock. Foram tantos os lançamentos importantes que fica até difícil escolher os discos para analisar num post como este. Dos gringos, escolhi uns bem manjados, mas fundamentais, sendo indispensável mencioná-los. Dos nacionais, um que quase sepultou a carreira de um grupo e um que solidificou o prestígio de outro. Não esqueça de deixar seu comentário!


Nirvana - Nevermind



Foi amor à primeira vista?
Saudado como a segunda vinda do Cristo desde seu lançamento, Nevermind era uma delícia tocada com velocidade punk, melodias pop e produção cristalina de Butch Vig. Não era a estreia do Nirvana, mas é considerado como marco zero do grunge (e, segundo seus ressentidos viúvos, da morte do hard rock). O genial e ultrabásico riff que abre "Smells Like Teen Spirit" era o bastante para desarmar qualquer resistência.  

E aí, ainda rola gostoso?
Clássicos não são clássicos à toa. Todas as faixas de Nevermind ainda descem redondinhas, como se tivesse sido lançado ontem. Mesmo as mais surradas, tipo "Come As You Are" e "Lithium", ganharam um verniz que as protegeu dos efeitos nefastos da passagem dos anos. Esqueça o encanto necrofílico que o álbum exerce sobre os deslumbrados (por exemplo, aqueles que só falam de Nirvana para mencionar a tal "maldição dos 27 anos") e se esgoele junto com Kurt.


Metallica - Metallica (The Black Album)



Foi amor à primeira vista?
Nunca fui grande fã de metal e continuo não sendo. Naquele 1991, porém, o falatório sobre a "transformação" do Metallica era tanto que eu me senti obrigado a saber do que se tratava. As reações foram divididas: enquanto muita gente achava que a banda estava pagando de "traidora do movimento" thrash, outros achavam que reduzir os rococós instrumentais e a duração da música havia feito um bem danado. Sei lá quem estava certo. Tudo que eu tinha era o que saía dos fones e me fazia fumegar as orelhas: canções pesadas e poderosas, que provocavam ímpetos imediatos de tocar air guitar, air bass, air drums e air o escambau! 

E aí, ainda rola gostoso?
Sim, continua excelente, até porque o Metallica nunca mais produziu algo tão bom desde então (por mais que Death Magnetic, de 2008, tenha sido um esforço honesto de resgatar antigas glórias). Taí um disco que precisa urgentemente ganhar uma remasterização, com sonoridade mais polida. Enquanto uma edição especial não sai (e é praticamente inevitável que saia), a banda disponibilizou hoje um arquivo FLAC, sem perda de qualidade. Já deve dar uma senhora vantagem em relação ao velho CD.


Legião Urbana - V



Foi amor à primeira vista?
Seja por falta de personalidade ou genuíno desejo de mudança, a verdade é que todos os discos da Legião Urbana são bastante distintos entre si. Depois da doçura acústica de As Quatro Estações (1989), a Legião voltou com um disco metido a progressivo, cheio de faixas vagarosas e enormes ("Metal Contra as Nuvens" supera "Faroeste Caboclo", estendendo-se até os ONZE minutos). Foi preciso alguma boa vontade, apesar de o primeiro single, "O Teatro dos Vampiros", ter seguido a típica linha suave e messiânica da banda. Certo dia, porém, durante uma faxina, fui definitivamente fisgado pela beleza cortante de "Vento no Litoral" e pensei, "uau, isso é muito bom!" 

E aí, ainda rola gostoso?
Nem tanto. Das faixas mais longas, a que melhor resistiu ao teste do tempo foi a heroinômana "A Montanha Mágica". Já "Metal..." soa exagerada, à beira do insuportável. Para mim, assim como há 20 anos, grande parte da beleza do disco está no início, com a breve e medieval "Love Song", e no encerramento, com "Come Share My Life", singelo instrumental do cancioneiro popular norte-americano. Não é o disco mais bonito, nem o mais vendido, mas há uma boa chance de este ser o esforço mais digno da Legião.


Titãs - Tudo ao Mesmo Tempo Agora



Foi amor à primeira vista?
Depois de se tornarem uma quase unanimidade de público e crítica com Õ Blésq Blom (1989), os Titãs decidiram deixar de lado as experimentações neotropicalistas e voltar ao rock & roll mais básico. A mudança assustou e desagradou: Tudo ao Mesmo Tempo Agora foi massacrado pela crítica e boa parte do público também deu as costas às canções rápidas e recheadas de escatologia, a maioria sem qualquer traço da crítica social refinada de alguns dos clássicos da banda, como "Comida". Eu não achava ruim e ouvia bastante, mas, já naquele tempo, sabia que havia sido um retrocesso na sua escalada criativa. 

E aí, ainda rola gostoso?
Não. O disco hoje soa ainda mais anacrônico do que na época, quando já havia sido acusado disso. Se com 18 anos aquela coleção de faixas boca-suja e francamente preguiçosas (que trabalho dá compor algo como "Obrigado"?) já não impressionava, que direi hoje, aos 38... Para não dizer que o disco é totalmente descartável, "Agora" é um genuíno achado em meio à fedentina inspirada pelas letras. "Flat-Cemitério-Apartamento", apesar de algumas referências datadas, é um bom momento de humor. Pensando bem, vou aliviar para a banda: ponho parte da culpa do fracasso em Liminha e sua produção antenada como tudo que havia de mais moderno... em 1986.


R.E.M - Out of Time



Foi amor à primeira vista?
Era a primeira vez que eu ouviria um disco inteiro do R.E.M. e a expectativa criada por "Losing My Religion" (que dispensa apresentações) era altíssima. O então quarteto não decepcionou, emendando uma grande canção à outra e produzindo clássicos da alegria ("Shiny Happy People"), da estranheza ("Low"), do lirismo ("Half a World Away") e da tristeza ("Country Feedback"). Foi um dos primeiros CDs que comprei e eu estava absolutamente feliz com minha aquisição. O R.E.M. logo tornou-se uma de minhas bandas favoritas. 

E aí, ainda rola gostoso?
Sim, rola muito bem. "Losing My Religion", apesar da onipresença e de ser uma concessão fácil na boca de quem diz odiar rock (a gente não precisa dessa esmola, falô?), tem apelo perene. Out of Time é todinho tão bonito que pega até mal ficar procurando defeito. É pop na melhor acepção da palavra. Ou seja, foi feito para a Eternidade.


U2 - Achtung Baby



Foi amor à primeira vista?
Depois da egotrip americana de Rattle and Hum (1988), o U2 se recolheu em Berlim para tentar seguir relevante nos seus próximos dez anos de vida. Para isso, deixaram de lado o discurso ideológico, investiram em letras altamente emocionais ("One", "So Cruel" e "Love is Blindness" ainda estão entre as melhores coisas que Bono escreveu), botaram a distorção no talo (vide as guitarras de "Zoo Station" e "The Fly") e aprenderam a rir de si mesmos. Foi uma ousadia sem precedentes, totalmente inesperada para uma das bandas mais caretas da história. Deu tão certo que o U2, com todos os seus altos e baixos, ainda é a maior banda do planeta.

E aí, ainda rola gostoso?
Engraçado que o disco soa mais datado justamente no que o fazia mais moderno, à época do seu lançamento: as batidas dançantes. As guitarras mais agressivas que o habitual, a atitude desencanada e a alta qualidade geral das composições permitiram que ele envelhecesse dignamente. A remasterização que chega às lojas em novembro deve dar novo fôlego ao disco que é considerado por muita gente (inclusive por este que vos escreve) como o melhor trabalho do U2.

05/10/2011

Rapidinhas


- Foram quase 20 anos sem saber quase nada da carreira solo de Arnaldo Antunes. Outro dia, a caminho do trabalho, abri no iPod seu mais recente trabalho, Ao Vivo Lá em Casa. Diagnóstico: um dos discos ao vivo mais agradáveis que já tive o prazer de escutar. Rolou do começo ao fim e me provocou sorrisos de satisfação. Além do repertório de letras bem cuidadas e melodias simpáticas, sua banda tem as luxuosas participações de Marcelo Jeneci nos teclados e Edgard Scandurra na guitarra.



- Falando em CDs e no meu renascido desejo de comprá-los, fico pensando se certas coisas só acontecem no Brasil: embora não traga NADA de material extra, seja um livro, um CD de raridades ou um DVD, a caixa reunindo os oito álbuns de estúdio da Legião Urbana custa, em média, 50% a mais do que o valor pago para comprá-los separadamente. Assim não dá. Ser fã é uma coisa. Ser otário é outra, bem diferente.  

- Claudia Leitte é um saco: artificial até a medula, cantora sofrível e celebridade imatura, dada a passar "lições de moral" a quem "ousa" criticá-la. Agora, que se diga, também, que essa patrulha fanática e utópica, essa coisa de "como é que pode, axé no Rock in Rio?" passou dos limites. Não faz o menor sentido crucificá-la: no dia em que cantou, rock era o que menos havia por ali - e quem não sabia disso deveria ter se informado melhor. Ela fez o que se esperava e, sim, muita gente foi lá para vê-la. Não gostar do show é uma coisa, mas, daí a dizer que ela não poderia estar ali, vai uma senhora distância. 

- Sério, pessoal: Guns N' Roses? Só mesmo aqui no Brasil para alguém ainda achar que Axl Rose é ídolo e colocá-lo não só como headliner, mas como atração final de um festival supostamente grandioso. Tem dias que dá vontade de dormir e só acordar em 2011. 

- Meus desejos para o Rock in Rio 2013: Wilco, Feist, Nick Cave & The Bad Seeds, Gossip, The BellRays, Adele, Manic Street Preachers, Doll & The Kicks, Pato Fu, Sharon Jones & The Dap Kings, Air e Morrissey. É claro que não vai rolar... mas eu posso sonhar, certo?