30/08/2012

Vorsprung durch Technik: a fase eletrônica do U2


Exceto pelo início de carreira, quando lançavam disco praticamente todo ano, a habitual espera por um novo trabalho do U2 costuma ser de 3 a 5 anos (a maior foi entre How to Dismantle an Atomic Bomb, de 2004, e No Line on the Horizon, de 2009). Nada mais normal: desde 1992, quando ganhou o mundo com a Zoo TV Tour, o U2 passa cerca de dois anos viajando o mundo com seus palcos gigantescos e revolucionários. Aí, vêm férias, gravações, pós-produção, etc.

Em meros quatro anos da década de 90, porém, os irlandeses lançaram nada menos que três trabalhos: Zooropa (1993), Original Soundtracks 1 (1995) e Pop (1997). Foi a chamada "fase eletrônica" do U2, período que muitos fãs antigos e radicais preferem esquecer.

Zooropa foi gravado entre as pausas feitas no começo da Zoo TV e meio que pegou o mundo de surpresa, ao ser lançado. Empolgados com os novos caminhos abertos e as boas críticas recebidas com Achtung Baby (1991), Bono, Edge, Adam e Larry ousaram ir um pouco mais fundo nas experimentações com sons eletrônicos e climas "viajantes". O abandono dos temas políticos e a aproximação com o synthpop e a dance music (perigosa, para alguns) fizeram muitos fãs torcerem o nariz. "Não é U2" era comentário recorrente, ainda mais quando se olhavam as fotos dos membros com olhos maquiados ou usando vestidos.


Particularmente, considero Zooropa um grande disco. Primeiro, pelo índice próximo a zero de ambição comercial, o que liberou o grupo para inovar de verdade. Quando é que alguém pensou que Bono cantaria sobre um tarado que se apaixona pela imagem de uma garotinha em seu videocassete ("Babyface")? Ou que The Edge assumiria o microfone em um mantra eletrônico sobre o poder da televisão, convenientemente recitado com zero de emoção ("Numb")? Alguém, por acaso, suspeitava que o U2 fosse capaz de uma faixa ultrapop, romântica e repleta de sintetizadores, cantada em falsete ("Lemon")? Ou que, num gesto incrivelmente magnânimo, a maior banda do planeta fosse entregar todo o vocal da última faixa (espécie de western gospel) a uma então viva lenda do rock (Johnny Cash, em "The Wanderer")?

Com ouvidos mais atentos e menos preconceituosos, até mesmo um fã xiita do U2 poderá curtir Zooropa. A faixa-título tem uma longa introdução com piano e ruídos de televisão, mas desagua num dos riffs mais bonitos que The Edge já compôs e num rock absolutamente vigoroso. "Stay (Faraway, So Close!)" ainda é uma das mais belas baladas que o grupo já gravou. "Some Days Are Better than Others" é um quase-funk levado no baixo saturado de Adam Clayton. "Dirty Day", homenagem a Charles Bukowski, é uma daquelas faixas obscuras que viram grandes momentos ao vivo (confira no DVD Zoo TV Live from Sydney).

Menos de dois anos depois, o U2 voltaria à cena sob o pseudônimo Passengers, com um disco experimental que mais parece coisa encomenda do produtor Brian Eno. Original Soundtracks 1 foi pensado como prévia do som do grupo no disco seguinte e trilha para um filme de Peter Greenaway que jamais viu a luz do dia. O jeito, então, foi creditar as faixas a filmes imaginários.


O disco era uma radicalização das viagens eletrônicas do U2. Tinha umas faixas interessantes e outras francamente chatas. A única que conseguiu emplacar nas rádios e TVs foi "Miss Sarajevo", com solo vocal portentoso do tenor Luciano Pavarotti e cordas de derreter corações. Com o tempo, uma outra faixa acabou ganhando reconhecimento como um grande trabalho do U2, a ponto de ser incluída na turnê 360º: "Your Blue Room", com sua atmosfera meio ambient, meio western, oferece ao fã cinco minutos de boa música, sob forma atípica na obra do grupo, mas encantadora. Como era de se esperar, Original Soundtracks 1 encalhou feio e tomou um pau da crítica naquele ano.

Escaldado pelo fiasco, o grupo optou mais uma vez pelo exagero em Pop, mas de uma maneira diferente: a ideia, agora, era levar às últimas consequências o conceito da Zoo TV, na qual o grupo se assumia como mero produto de entretenimento. O U2 voltava à cena vestido de Village People e tocando uma música chamada "Discothèque". Um evento de divulgação (em que tocaram o b-side "Holy Joe") foi realizado na seção de lingeries da loja de departamentos K-Mart, em Nova York. Na capa do disco, os integrantes apareciam em fotos trabalhadas ao estilo de Andy Warhol.

Musicalmente, as coisas mais estranhas eram "MoFo", "Miami" e "If You Wear That Velvet Dress". As duas primeiras, pelas bases eletrônicas - caótica e delirante na primeira, quebrada e metálica na segunda; a terceira, com seus sussurros e sua melodia que evocava baladões dos anos 70.


Que ninguém diga, porém, que não gostou do faiscante riff de guitarra de "Discothèque". A música é uma bobagem sobre o amor, mas a base dançante é simplesmente incendiária (não à toa, ganhou trocentos remixes). "If God Will Send His Angels" e "Staring at the Sun" são baladões reflexivos e semiacústicos, na tradição do que o U2 sempre fez tão bem. "Last Night on Earth", "Gone" e "Please" também honram a obra do grupo, com seus arranjos rock adornados com pequenos toques eletrônicos e refrões que os fãs adoram cantar junto. Ao final de 1997, "Gone" passaria a ser dedicada a Michael Hutchence, vocalista do INXS e amigo pessoal de Bono, que cometera suicídio em novembro.

O disco fecha o mais radical período de experimentações do grupo com uma das letras mais fortes já compostas por Bono. "Wake Up Dead Man" é um questionamento do estado das coisas feito ao próprio Jesus ("se existe alguma ordem em toda essa desordem / será que é como num gravador? / podemos voltar a fita só mais uma vez?"). Pop é um disco vítima de dupla injustiça: não é tanto assim um disco eletrônico, como alguns querem crer, muito menos um disco ruim. O U2 estava próximo dos 20 anos de carreira. Os homens que o compõem haviam mudado e o mundo ao seu redor, mais ainda. Eu ficaria muito mais preocupado e descontente se isso não se refletisse em seu trabalho, um mínimo que fosse.

05/08/2012

Pela volta das elites!


Todo país do mundo civilizado tem uma elite. Países muito melhores do que o nosso, inclusive ("civilizado" já dava uma pista dessa superioridade). Na verdade, uma nação que se preze precisa de uma elite: econômica, científica, política, artística... A elite é quem molda, através da apresentação e do confronto de ideias, os rumos da sociedade e sua evolução como um todo.

Como somos, a grosso modo, uma nação de imbecis com formação escolar mínima insuficiente, definiu-se que, no Brasil, ser da "elite" é ser um filho-da-mãe arrogante. Ou, então, ser capaz de pagar a entrada de uma balada de R$ 1.000. Ou rasgar dinheiro e postar o vídeo no YouTube. Ou, pior ainda, ser "da zelite" é ser aquele empresário que você demoniza na sua campanha para presidente, mas, depois vai procurar com um pires na mão, quando sua cobiça por dinheiro e seu apego pelo poder se tornam maiores que a sua ética ou coerência.

O Brasil tornou-se, então, um país sem uma elite confessa, porque o simples ato de dizer-se da elite já atrai uma pedra em direção à sua testa. Somos, agora, um país assumidamente vira-latas e orgulhoso disso. Quem comanda é o povão e pronto!

Deixando de lado o quanto nossa ilusão de sucesso e controle está puerilmente ligada ao mero ganho de poder aquisitivo (e, com isso, estar mais perto - ou menos distante - "da zelite"), vamos nos concentrar num aspecto pertinente a este blog: o cultural.

Durante anos, reclamou-se que a música brasileira dominante não era representativa da "verdadeira" cultura popular brasileira. Que era tudo muito metido, incompreensível e chato. Vocês sabem muito bem do que estou falando: Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Elis Regina... Depois, vimos a formação de uma elite do rock (por mais contraditório que isso possa soar): Renato Russo, Cazuza, Herbert Vianna, entre outros. Apesar das óbvias e das não tão óbvias diferenças entre estes nomes (e dos maus momentos inerentes à carreira de qualquer artista), um traço em comum os unia: eles faziam (ou interpretavam) música para a alma, com passagem pelo cérebro, eventual escala nos quadris e aporte seguro no coração, não necessariamente nesta ordem.

Mas, ora bolas, este povo todo não está com nada! Principalmente, porque alguns deles cometeram o pecado supremo de ter nascido em berço esplêndido e poder gozar de boas coisas da vida. E olha que muitos deles até se esmeraram na crônica de um estilo de vida que passava longe do seu, justamente para dar alguma visibilidade a quem não tinha nenhuma. Que atire a primeira pedra aquele que não sente um nó na garganta ao ouvir, por exemplo, "Gente Humilde".

Mas, eis que, depois de muita espera, finalmente chegaram ao país a estabilidade e a prosperidade econômica. O povão cresceu e apareceu - e queria sangue.

Assim, depois de vários e sucessivos ensaios (a sertaneja, o axé, o pagode paulista, o funk carioca), a música popular brasileira (pelo menos, a parte visível nas rádios e TVs populares) abraçou de vez a breguice, a superficialidade, a preguiça e a baixaria. Se é o que o povão quer ouvir, que se dê ao povão o que ele pede.

Tá dominado, tá tudo dominado. Retiramos o controle da produção cultural das famigeradas mãos da malvada elite e o entregamos nas mãos do populacho. Finalmente, a música que toca nas novelas e nas rádios e os hits mais baixados na internet espelham o povo que somos: uma música majoritariamente burra, grosseira, infantilizada e infantilizante, exceto (ou inclusive e principalmente?) quando confunde sensualidade com piranhagem.

Sinto muito, mas, eu não consigo me sentir representado por esses "artistas".

Não tem nada a ver com poder aquisitivo. É só uma questão de admitir que você não tem mais 14 anos e que romantismo de agendinha, falando sobre "seu jeitinho de ser" (por que gostam tanto desta expressão?) já não reflete tão bem assim sua vida amorosa. Trata-se de não mais que exigir de seu artista favorito (o cara que, de alguma forma, acaba se apropriando de uma generosa fatia do seu dinheiro) um mínimo de trabalho intelectual, ao compor uma frase que não pareça um amontoado de grunhidos dignos de homens das cavernas:

"Lê lê lê, lê lê lê lê lê, lê lê lê..."
"Tchu, tcha, tcha, tchu, tchu, tcha..."
"Tchê tchererê tchê tchê tchererê tchê tchê..."

Não me iludo achando que isso é um fenômeno novo. Não é de hoje que música boba, engraçada, inconsequente e de duplo sentido abunda (ui!) por aqui. Em outros tempos, porém, a estas era dado o valor que tinham: o de uma curiosidade divertida, uma febre que tomava conta da mídia durante umas semanas e depois sumia sem deixar rastros. Hoje, essas pragas ficam infectando nossos ouvidos por meses ou anos - e, caramba, são identificadas, a sério, como músicas que têm "a cara do Brasil".

Bom, se a cara da música no Brasil do povão é a cara do Luan Santana, da Joelma ou de alguma daquelas gritalhonas desafinadas das bandas de forró eletrônico, eu devo conclamar, com certa urgência, a volta das elites ao controle cultural do país. Essas pessoas ainda estão aí, produzindo (bem) e inspirando novos artistas, inconformados com a situação lamentável de nossa cultura, hoje tão deformada pela desastrosa intervenção de gente medíocre e burra, em nome de um suposto anseio popular pelo baixo nível. 

Houve um tempo em que os representantes da música popular nas camadas sociais mais baixas eram gente como Clara Nunes, Luiz Gonzaga e Zeca Pagodinho. Nota-se, portanto, que o fenômeno não tem a ver com ser pobre ou rico: tem a ver com talento e sensibilidade... ou a falta destes.

Eu quero "a zelite" no poder! Pra ONTEM!