Uma crítica do filme
Homem-Aranha: Um Novo Dia
A esta altura, este filme já vai beirando 2 bilhões de dólares em bilheteria, sepultando de vez a falácia do "cansaço de super-heróis". Existe um cansaço, sim, mas é de filmes genéricos lançados a esmo. Lamento por filmes razoáveis, como Thunderbolts e Quarteto Fantástico, que tentaram furar essa bolha de mesmice, mas pegaram o público no auge da irritação (principalmente, na esteira da bomba de dejetos que foi Capitão América: Admirável Mundo Novo).
Apesar dos três filmes próprios simpáticos e do destaque em filmes dos Vingadores, o Homem-Aranha de Tom Holland não era imune a problemas: os anos passavam e aquele Peter Parker parecia o mesmo moleque bobão que surgiu em Capitão América: Guerra Civil. Também parecia eternamente carente da atenção e dos presentes do onipresente Tony Stark, figura paterna inventada nos filmes, sacada de onde o sol não brilha, por pessoas ruins que resolveram destratar a memória do tio Ben.
Em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), porém, a tragédia bateu à porta de Peter Parker e ele não teve opção, exceto amadurecer. Além do luto, sofre com o apagamento de sua presença das mentes do melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), e da namorada, MJ (Zendaya). O Peter Parker que vemos em Homem-Aranha: Um Novo Dia é, finalmente, o cara que ele é nos quadrinhos, alguém marcado pela tristeza que, ainda assim, escolhe viver a vida do jeito mais leve que consegue.
No mesmo ano do último Homem-Aranha, Destin Daniel Cretton dirigiu Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, um filme que demonstrou imenso potencial em sua primeira metade, mas, do meio pro fim, claramente tomado de suas mãos por executivos que pensavam saber muito bem o que os fãs queriam ver: bichinhos fofinhos, CGI medíocre, Mandarim redimido e uma constrangedora ponta de Trevor Slattery, um dos personagens mais odiados do MCU. "Jênios".
SPOILERS a partir deste ponto. Siga por sua conta e risco!
Nos últimos cinco anos, porém, enquanto o público dava as costas à Marvel, os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers aprimoravam a história de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que serve como primeiro vislumbre dos novos X-Men do cinema, cujo primeiro filme chega em 2028, dirigido por Jake Schreier (de Thunderbolts). Ao impedir um assalto, o Aranha se vê confrontado por uma presença que salta entre corpos e parece ter alvos específicos. Quem leu qualquer coisa sobre o filme antes de sua estreia já sabia quem era: Jean Grey (Sadie Sink).
Enquanto isso, o estresse da vida sem amor e sem amigos está cobrando do corpo de Peter: sua porção aranha, que até então se resguardara (obrigado, Gilberto Gil), começa a assumir controle, levando Peter a sofrer apagões, ganhar os polêmicos lançadores de teia fisiológicos e tornar-se um cara bem menos legal. Outro herói de Nova York também está no encalço de Jean Grey: o Justiceiro (Jon Bernthal), com aquela típica vontade de resolver tudo na bala.
Sem dirigir qualquer filme desde Shang-Chi, Cretton deu tudo de si. O visual do filme oscila entre contrastes de cinza e cores saturadas, especialmente nas cores do herói, vermelho e azul (belíssimo trabalho fotográfico de Brett Pawlak), a exemplo das muitíssimo bem-feitas sequências de luta, especialmente aquelas contra o Tentáculo: Peter parece ler nossas mentes, em um frame totalmente gibizeiro, quando vê os assassinos saltando acrobaticamente e solta um "cara, isso é tão maneiro!". Quando abraça de vez sua parte aracnídea, Peter dá uma demonstração de poder impressionante e visualmente espetacular. Absolute Cinema!
Sendo da parcela da audiência cansada dos velhos truques da Marvel, eu entrei no cinema sem qualquer expectativa, mas fui pego de surpresa por um filme que faz um ótimo trabalho no desenvolvimento de seu protagonista e dá aos coadjuvantes chances de brilhar. Destaca ainda outro aspecto importante do personagem: seu amor incondicional e plenamente correspondido por Nova York. A sequência na frente do hospital, em que revemos um guri que o Aranha salvara no começo do filme, tem o peso simbólico das coisas que fazem o herói ter certeza de que trava o bom combate.
O Aranha tem ótimas interações ao celular com a Capitã DeWolff (Liza Colón-Zayas), que faz as vezes de "mãezona" remota. Os momentos de Peter, MJ e Ned, juntos novamente pela primeira vez, chegam a emocionar - e embora os poderes de Jean Grey talvez pudessem desfazer tudo em dois palitos, o roteiro opta pela trilha mais tortuosa para resolver o problema do estranhamento entre eles: isso se chama respeitar a inteligência do público. É muito bom entrar no cinema pra ver um filme e dividir com o herói tudo aquilo que ele sente. Era um encanto que parecia perdido, mas, como dizem os mais sábios, não há bem que dure para sempre, nem mal que nunca se acabe - ou algo do tipo.
Bem-vindo de volta, Peter. Você parece diferente, mas a gente se lembra.


Nenhum comentário:
Postar um comentário