13/08/2026

Música & Mágica #15


FINE YOUNG CANNIBALS
The Raw and the Cooked
1989

No distante rincão do oeste baiano onde eu morava em 1985, minhas maiores chances de ouvir o fino do pop internacional contemporâneo estavam com as trilhas de novelas e os programas de videoclipes da época, como o Clip Clip da Globo ou o FMTV da Manchete. A partir daí, o próximo passo era encomendar a gravação de uma mixtape na loja de discos local. Escolhido o repertório (e uma Basf cromo, se possível), era esperar a bichinha ficar pronta e partir pro abraço.

Naquele ano, qualquer faixa do autointitulado disco de estreia do Fine Young Cannibals que tenha passado nesses programas a) foi ignorada por mim, ou b) passou num dia em que não assisti. Fato é que, embora lesse sobre a banda e o disco na revista Bizz, por muito tempo, eu não tive a menor noção de como soavam "Johnny Come Home" e sua cover de "Suspicious Minds", por exemplo.

Em 1990, tive a chance de morar em Goiânia, com lojas muito mais variadas e várias boas rádios FM ao meu alcance. Quando cheguei por lá, já estava familiarizado com "She Drives Me Crazy", um dos maiores hits e uma favorita pessoal do ano anterior. Também já tinha escutado "Don't Look Back" e "Good Thing", mas fui ainda mais exposto a elas através de comerciais de TV, ou da sorte de estar sintonizado na rádio certa, na hora certa.

Naquele tempo, não era comum que um segundo álbum levasse tanto tempo (quatro anos!) desde uma estreia de sucesso. Roland Gift (voz), Andy Cox (guitarras) e David Steele (baixo, teclados e drum machine), porém, não tiveram pressa em preparar um segundo disco, pelo fato de que haviam se juntado para fazer música por amor à música em si. Que bom que também dava pra ganhar dinheiro, claro, mas não era apenas isso que os movia.

Com seu som de caixa muito característico, "She Drives Me Crazy" era imediatamente reconhecível. O vocal de Gift se dividia entre o falsete dos versos e a entrega visceral do refrão. Sobre a base rítmica genial de David Z (produtor que havia trabalhado com Prince), a guitarra de Cox era ora funkeada, ora distorcida. Tinha tudo para dar errado, mas dava incrivelmente certo. Um clássico instantâneo.

Em partes iguais muito vintage e muito moderna, "Good Thing" tinha uma levada Motown/Stax de guitarra, baixo, bateria e piano, abrigando o lamento de Gift sobre não superar a partida da mulher que ele bestamente perdeu. Quando colocar batida de hip-hop em uma canção romântica ainda era um tipo de transgressão, os FYC nos deram "I'm Not the Man I Used to Be", com suas dúvidas cruéis: "me pergunto no que você está pensando / me pergunto por que estou bebendo / mas está na cara / eu não sou o homem que eu era".


Cox, Gift e Steele: diversão acima de tudo

O álbum é inteiro sobre coisas do coração. O som vai do soul quase ortodoxo de "Tell Me What" à levada rock de "Don't Look Back", com suas guitarras fenomenais e refrão empolgante. As batidas black eram o que havia de mais moderno naquele fim de década e o álbum teve impressionantes SETE singles entre suas meras dez faixas. Apesar disso, "Don't Let It Get You Down" é um vacilo, quase uma brincadeira estridente, enquanto "As Hard As It Is" tem firulas vocais que devem ter provocado ligações no meio da noite de Mike Patton (Faith No More) para Roland Gift.

Se o pique cai um pouco perto do fim, a retomada é espetacular na conclusão: a cover de "Ever Fallen in Love", dos Buzzcocks, é um exemplo perfeito de como fazer uma versão que melhora muito a original, desacelerando e adicionando peso e drama (afinal, a letra é sobre um dilema sexual), onde antes só havia distorção e pressa. Os Buzzocks devem aos Fine Young Cannibals a sobrevida de sua canção no imaginário popular .

O sucesso mundial rendeu uma pressão enorme por parte da gravadora, que exigia dos FYC um terceiro disco mais rápido do que eles se achavam capazes de fazer (isto é, dentro dos padrões de qualidade e diversão que estabeleceram para si). Houve também muito disse-me-disse sobre possíveis trocas na formação e sobre como a banda era "Gift e mais dois". A deixar que a fofoca e a cobrança por resultados (leia-se dinheiro) estragassem a coisa toda, o trio achou melhor simplesmente debandar, encerrando suas atividades no auge.

Anos depois, quando o Brasil finalmente ganhou um mercado de home video musical decente, fui apresentado ao maravilhoso filme-concerto Fine Young Cannibals Live at the Paramount (1990), onde finalmente pude conhecer, junto às faixas de The Raw and the Cooked, grande parte do repertório do primeiro álbum. Ao charme natural de frontman de Roland Gift e o jeitão "boneco de posto" de Cox e Steele, havia o acréscimo da presença graciosa e versátil do sexteto vocal feminino The Mint Juleps. Uma delícia de ver e ouvir, e registro definitivo de um trio pop que implodiu sob o peso da própria genialidade.


* * * * *

Fine Young Cannibals
The Raw and the Cooked

Produzido por Fine Young Cannibals, Jerry Harrison e David Z
Lançado em 13 de janeiro de 1989

1. She Drives Me Crazy
2. Good Thing
3. I'm Not the Man I Used to Be
4. I'm Not Satisfied
5. Tell Me What
6. Don't Look Back
7. It's OK (It's Alright)
8. Don't Let It Get You Down
9. As Hard As It Is
10. Ever Fallen in Love

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