27/02/2026

Música & Mágica #11


OS PARALAMAS DO SUCESSO
Hey Na Na
1998

No final dos anos 90, houve um primeiro revival dos anos 80 no pop brasileiro. Depois da natural tentativa de negação por parte da geração que a sucedeu (afinal, eles precisavam romper com o passado e criar sua própria identidade), os artistas e jovens ouvintes estavam reencontrando valor na produção musical dos 80, que vinha sendo tratada a chutes. Entende-se: como bem dizem, nada é mais antigo do que o passado recente e, naquele fim de década (e de século), tudo que dizia respeito aos anos 80 (em moda, estética ou valores) era exatamente tudo que a geração 90 parecia querer evitar - mas, de repente, passou-se a olhar com mais carinho para o período.

Não que Os Paralamas do Sucesso tenham precisado de uma onda nostálgica: eles estavam muito vivos e produtivos. Nos anos 90, lançaram os discos mais experimentais e menos populares de sua carreira - Os Grãos (1991) e Severino (1994) - que, mesmo sem a adoração de massa de que a banda gozava na década anterior, tiveram seus hits, como "Tendo a Lua" e "Trac Trac". Depois, voltaram ao pop e ao gosto popular, com o meio inédito e meio ao vivo Vamo Batê Lata (1995), que continha a onipresente "Uma Brasileira", e o curtíssimo e gostosíssimo 9 Luas (1996), de onde vieram sucessos como "Loirinha Bombril" e a cover de "Capitão de Indústria", de Marcos Valle.

Para seu último disco de estúdio no século XX, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone chamaram Chico Neves, produtor que já havia trabalhado com artistas como Lenine e Fernanda Abreu. Equilibrado entre o popular e o experimental, entre a serenidade e a agonia, Hey Na Na resultou em um dos trabalhos mais maduros e bem-resolvidos dos Paralamas. Beirando os 40, longe das angústias juvenis de outrora, Herbert cantava sobre as pressões da vida na estrada e em hotéis, conflitos do coração e da alma, com aquela sabedoria que só a idade costuma trazer.

Barone, Herbert e Bi: quarentando e andando

A exaustão e o arrependimento de quem dedica a vida ao trabalho e levanta com o pé esquerdo todo dia está nas linhas de "Por Sempre Andar", com um fraseado de guitarra tão bom que quase funciona como um segundo refrão. Aliás, que se diga, logo de saída: Herbert Vianna é um dos melhores guitarristas que este país já ouviu tocar, passando de finos dedilhados acústicos a solos faiscantes com igual desenvoltura. Quando podia ter dito apenas "eu tô só a capa da gaita", ele fez diagnósticos elegantes, que deixam a gente cansado só de ler.

O curioso nome do disco vem do refrão de "Depois da Queda, o Coice", na qual Barone desce as baquetas com força e os metais que costumam ornar as canções do trio brilham muito. Herbert parece estar versando sobre o efeito dos dias ruins e dos trabalhos criticados, que podem fazer muita gente boa desistir da música: "pra uns, só traz a foice; pra outros, traz alívio". Ou seja, fazer um trabalho que nem todo entende pode render críticas, mas também tira todas as pressões que o sucesso de massa costuma impor.

O alter ego feminino em "O Trem da Juventude" parece descrever o próprio Herbert e as escolhas que fez desde que entrou para a vida pública. À genial percussão, juntam-se efeitos eletrônicos pertinentes. Em seguida, "Brasília, 5:31" é mais uma a tratar das pressões de viver viajando pelo país: "um estranho no espelho / eu quase nem me conhecia / e uma voz estranha diz 'bom dia'". A citação a "Here Comes the Sun", dos Beatles, é o que traz algum alento.

O bloco central é composto pelas românticas "O Amor Não Sabe Esperar" e "Ela Disse Adeus" - não por acaso, as mais radiofônicas do disco. Na primeira, um lovers rock com vocais preciosos de Marisa Monte, um recado que vivenciei em primeira mão, em 2022, tendo acabado de arruinar, sem querer, algo que prometia ser legal: "ficar só é a própria escravidão". Levaria meio ano até eu conseguir consertar as coisas e encerrar minha escravidão pessoal. A segunda tem belas harmonias vocais de Herbert em inglês, e uma letra falando de juntar os cacos depois do fim de um relacionamento.

"Scream Poetry" era uma letra inédita de Chico Science, falecido no ano anterior. Os vocais foram entregues ao ídolo Jorge Mautner e sua rabeca, e a levada de maracatu não deixa dúvida de que a Nação Zumbi e os Paralamas não são parentes tão distantes, enfim - apesar da falta que faz o peso das alfaias. A poderosa versão da deprimida "Viernes 3 AM", de Charly García, comprova a afinidade da banda com os argentinos (que os amam), com guitarras incríveis, além de vocalizações soul arrepiantes a cargo de Cecília Spyer.

O final leva as coisas para a costa mediterrânea: "Um Dia em Provença" é a faixa menos interessante, com sua letra good vibes, na linha "deixa disso, vai ficar tudo bem" - mas mesmo ela tem seus encantos, como a flauta que surge depois do primeiro refrão. A bucólica "Santorini Blues" faz referência a momentos felizes, vividos por Herbert e a esposa Lucy com a filha Hope Izabel, na famosa ilha grega, em meio a bonitos violões de fado.

Hey Na Na foi, ainda, o último disco dos Paralamas antes do fatídico acidente de ultraleve de Herbert, em 2001, que vitimou sua esposa e o deixou paraplégico e, por algum tempo, desmemoriado. Felizmente, ele se recuperou e seguiu com a banda, embora o intervalo entre os discos inéditos tenha crescido a cada lançamento (2002, 2005, 2009 e 2017), e já chegue a nove anos desde Sinais do Sim. Entre eles, discos ao vivo e coletâneas (e apresentações lotadas) mantêm viva a chama do power trio que começou como um "Police brasileiro" e se metamorfoseou em uma máquina de brasilidade, sem que isso comprometesse sua pegada rock. Os Paralamas do Sucesso são um grande patrimônio deste país.

* * * * *

Os Paralamas do Sucesso
Hey Na Na
Produzido por Chico Neves
Lançado em 16 de junho de 1998

1. Por Sempre Andar
2. Depois da Queda, o Coice
3. O Trem da Juventude
4. Brasília 5:31
5. O Amor Não Sabe Esperar
6. Ela Disse Adeus
7. Scream Poetry
8. Viernes 3 AM
9. Um Dia em Provença
10. Santorini Blues

24/02/2026

Agente como a gente


Uma crítica do filme
O Agente Secreto

Voltando ao Recife de 1977, o professor Armando (Wagner Moura) tenta escapar à perseguição dos militares em seu encalço. Aproveitando a distração do violento carnaval daquele ano, ele se instala em um lar de refugiados, adota o pseudônimo de Marcelo e passa a trabalhar num instituto de identificação, na esperança de voltar a viver com seu filho, criado pelos avós após a morte de sua esposa. Em paralelo, uma perna humana é encontrada dentro de um tubarão, dando origem a teorias e uma lenda urbana.

O Agente Secreto é a esperança brasileira de um bicampeonato no Oscar, um ano após a consagração de Ainda Estou Aqui. Divide com o filme de Walter Salles o tema dos dias sombrios da ditadura militar, mas é só: o que aquele tem de lírico, este tem de caótico. Como em Bacurau (2019), seu filme anterior, o diretor Kleber Mendonça Filho adota uma estética popular e bagaceira, coloca trocentos personagens em cena e explode nossas mentes com lisergia, violência, absurdos e ocasional vulgaridade.

Não apenas porque se passa 50 anos no passado, o filme versa muito sobre a memória: para além de focar sobre os desmandos dos militares, a busca de Armando por informações sobre a mãe que mal conheceu (cujo nome muito comum, Maria Aparecida dos Santos, dificulta sua identificação) é, também, a busca dos familiares dos sumidos e provavelmente mortos pelo regime. Gente que passou (passa?) a vida sem saber do destino de entes queridos. A cuidadosa reconstituição de época (que deu à Recife retoques de beleza e feiúra bastante autênticos) é uma homenagem do diretor à cidade onde nasceu.

Muitas obras já revisitaram nossos famosos "anos de chumbo" em cenários como Rio e São Paulo. Ao escolher Recife como cenário, o diretor mostra que os tentáculos da ditadura se estendiam por todo o país, sem distinção, além de reforçar uma identidade cultural orgulhosa, quase sempre menosprezada por tipos como o executivo paulista da Eletrobrás com quem Armando compra uma briga política e pessoal, ao ver-se desrespeitado junto com a esposa, Fátima (Alice Carvalho). A cena com o guardanapo e a "carteirada racial" trazem à memória a cena do jantar em Bacurau. Como naquele, quem diz o que quer, acaba ouvindo o que não quer.

Para quem cresceu ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, os ataques e invasões atribuídos à tal "Perna Cabeluda" já não eram novidade. No filme, a Perna ganha vida e ataca um grupo de homossexuais (em cena feita para arrepiar moralistas). É tosco e parece despropositado, mas, longe disso: na vida real, a violência oficial sempre foi encoberta com metáforas, atribuída a forças misteriosas, ou, pior ainda, "ninguém sabe, ninguém viu". Pouca gente teria aquela coragem dos amigos do Scooby-Doo de "puxar a máscara" da Perna. O medo é uma ferramenta poderosa de controle.

Wagner como Armando como Marcelo

Desde a famosa cena de abertura, com o cadáver no posto de gasolina, há momentos que beiram o surreal, seja pelo absurdo da situação em si ou pelas opções visuais do filme, que tornam algumas cenas quase oníricas (como a de Armando dirigindo à noite no interior de São Paulo). Somados à estética geral naturalmente cafona dos anos 70, estão lugares, nomes e músicas que montam um quadro muito rico e peculiar do Recife de então.

Há pouco que ainda precise ser dito sobre a atuação de Wagner Moura. O cara é espetacular, com Oscar ou sem, e é natural pro espectador sentir empatia por Armando, compartilhando de sua indignação, seu medo e sua coragem. O numeroso elenco, que conta com Maria Fernanda Cândido, Thomás Aquino, Ítalo Martins, Hermila Guedes, Licínio Januário e uma multidão de quase anônimos (entre os quais se destacam a sapeca velhinha Tânia Maria e o garoto Robson Andrade, que faz Clóvis, o fofíssimo filho de Armando) é todo muito bem dirigido, uma prova de justiça na indicação na nova categoria do Oscar, a de Melhor Elenco.

Guardadas as devidas proporções, os anos de ditadura militar são para o Brasil o que o Holocausto é para a Alemanha: uma chaga ainda aberta e que, se não for denunciada pelo que realmente foi (uma vergonha histórica), corre o risco de tomar o corpo da nação mais uma vez. Não é de hoje que se vasculha o período em filmes, e O Agente Secreto não há de ser o último a fazê-lo. Se a Justiça foi branda com nossos ditadores, preferindo o "deixa disso" às punições cabíveis, a Arte (sempre tão atacada em governos repressivos) tem o dever de cutucar e jogar sal nessa ferida.

22/02/2026

Espada, escudo e coração


Uma crítica da série
O Cavaleiro dos Sete Reinos, da HBO Max

Eu demorei cinco temporadas para entrar no hype de Game of Thrones, mas, uma vez envolvido, não tive como não admitir: a série merecia o status de fenômeno cultural que havia conquistado. Era bem produzida, escrita e atuada, um típico produto HBO. A força da série excedeu os livros onde teve origem: diante da demora do autor George R. R. Martin em concluir as Crônicas de Gelo e Fogo - o quinto de supostos sete livros saiu em 2011 - a HBO teve que imaginar (com supervisão criativa de Martin) os destinos de seus personagens, o que deu muito certo na sexta temporada e terrivelmente errado nas duas seguintes. O final de GoT é frequentemente apontado como um dos mais frustrantes da história da TV.

Apesar da decepção, uma nova série dentro do universo de Westeros chegou em 2022: prestes a estrear sua terceira temporada, A Casa do Dragão traz histórias de quase 200 anos antes de onde começa Game of Thrones. Até aqui, teve uma boa primeira temporada e uma segunda irregular, por vezes tediosa, e correções de rumo são esperadas na terceira, já que a previsão é que ela acabe na quarta, em 2028. A HBO, porém, decidiu não nos deixar esperando demais e anunciou um segundo spin-off: O Cavaleiro dos Sete Reinos se situa cerca de 100 anos após A Casa do Dragão e 100 antes da série original.

Quando vi o trailer, não fiquei animado: piadinhas, escatologia e crianças, uma combinação que me lembrava mais a Sessão da Tarde da Globo do que o horário nobre da HBO. Mesmo assim, mantive a fé, abri o HBO Max na noite de 19 de janeiro e dei play no primeiro episódio.

Coisa boa é estar errado: desde o momento em que aparece enterrando seu mentor, o ingênuo escudeiro Dunk (Peter Claffey) conquista nossa simpatia. Ao ver-se sozinho no mundo, ele decide carregar o legado do finado Sir Arlan de Centárbor (Danny Webb): espada, escudo e três cavalos. Numa estalagem, ele é abordado por um garoto careca, Egg (Dexter Sol Ansell), que lhe pede que o deixe ser seu escudeiro. Inicialmente, Dunk tenta livrar-se do pirralho, mas acaba cedendo à sua insistência.

Dunk e Egg: pagando pra entrar numa briga

Ao saber de um torneio de cavaleiros em Vaufreixo, ele pede para ser listado como competidor, alegando que Sir Arlan o nomeou cavaleiro antes de morrer. Com dificuldade para ter seu título reconhecido, ele apela aos cavaleiros e nobres presentes com as memórias de seu mentor. O problema é que ninguém parece se lembrar das histórias contadas a Dunk por Sir Arlan. Por vias muito tortas, ele acaba reconhecido e ganha direito de competir. Egg lhe diz que "Dunk" não é um nome digno de cavaleiro, o que o faz adotar a alcunha de Sir Duncan, o Alto.

Se os problemas de Dunk pareciam resolvidos, a verdade é que estavam apenas começando: além de não ter real experiência de combate, Dunk é puro até a medula, e seu elevado senso de justiça vem de uma idealização do posto de cavaleiro. Seus competidores, guerreiros experientes, parecem mais interessados na festa e no prêmio. Ao defender uma mulher da crueldade de um nobre, tanto o cavaleiro quanto o escudeiro se veem confrontados com decisões difíceis.

Enquanto escrevo esta crítica, falta sair apenas o sexto e último episódio desta temporada inaugural, e 2026 mal começou, mas O Cavaleiro dos Sete Reinos já se apresenta como uma das melhores produções do ano. Sem a distração artificial dos dragões (que são dados como extintos), toda a força dramática está nos poucos personagens e seu desenvolvimento. A gradual transformação de Dunk - de maltrapilho desastrado a cavaleiro autêntico - convence e emociona. A amizade entre ele e Egg resulta em conversas iluminadas, ternas e engraçadas. As batalhas seguem o padrão impecável da franquia, crescendo em escala, violência e importância.

Termino este texto a menos de duas horas da estreia do sexto episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos, confiante de que o brilhantismo dos cinco anteriores (especialmente do terceiro ao quinto) será ratificado - os produtores tinham tamanha confiança na série que uma segunda temporada foi anunciada antes mesmo da estreia da primeira. A esta altura, já nem me lembro de ter sentido qualquer desconfiança por aquele primeiro trailer. Imagina, nunca critiquei!

20/02/2026

Indignados, pero no mucho


Uma crítica do álbum
Days of Ash, do U2

Nos quase dez anos desde que lançou Songs of Experience (2017), o U2 tentou manter-se em evidência com manobras de efeito variado: houve a autobiografia do Bono (Surrender), um bom livro; o documentário A Sort of Homecoming e o disco Songs of Surrender (2023), com diversas músicas em versões delicadas e com letras alteradas; a longa residência inaugurando a Sphere, em Las Vegas, com U2:UV: Achtung Baby Live; por fim, houve o curta-metragem Stories of Surrender (2025), leitura dramática e musicada de Bono para histórias extraídas de seu livro.

Goste-se ou não desses produtos, o resumo é: o U2 ficou voejando em cima de seu próprio legado - o que é coerente para uma banda beirando os 50 anos de carreira. A esta altura do campeonato, é pouca, quase nenhuma, a chance de que o U2 possa produzir um disco que eletrize sua base de fãs, àquele ponto em que a gente vai comprar o ingresso do show, secos de vontade de ouvir aquelas canções ao vivo. Pessoalmente, o repertório do U2 já deixou de importar para mim desde Songs of Innocence (2014). Imagina para quem aprendeu a gostar de música com a impessoalidade do streaming...

Pois bem, Bono, Adam, Larry e The Edge acharam que valia a pena lançar um EP (longo o suficiente para aplacar a sede do fã por novidades, curto o bastante para dar uma ideia de que vem mais por aí - se vem, pra valer, é outra história), tecendo comentários sobre as questões geopolíticas mais prementes da atualidade: a truculência do ICE, a guerra na Ucrânia e a situação na Palestina. 

O primeiro problema é que, apesar de um lançamento do U2 ainda ser capaz de chamar atenção, eles dificilmente serão protagonistas de um "chamado às armas" - porque, entre outras razões, Bono e seus colegas têm rabo preso com políticos e corporações. A mensagem de que "eu te amo mais do que o ódio ama a guerra" (verso do refrão de "American Obituary"), além de genérica, não esconde o óbvio: o U2 morde e assopra. Para piorar, é uma revolta difusa, sem foco, do tipo "contra tudo isso que aí está".

O que vamos fazer hoje, Cérebro?
O que sempre fazemos, Pinky: tentar salvar o mundo.

Para ficar em apenas um exemplo recente, Bad Bunny foi bem mais político e contundente, negando-se a fazer shows nos EUA durante todo o ano passado (mesmo tendo o disco mais ouvido do mundo) e fazendo o Halftime Show do SuperBowl 2026 dizendo apenas três palavras em inglês. Vê se Donald Trump tuitou nervosinho sobre as músicas do U2?

O segundo problema é a música, que, se não é ruim, tampouco empolga. As seis faixas parecem sobras do Songs of Experience, com a produção impecável coroando o esforço notável de Edge, Larry e Adam: o trio de escudeiros faz o que pode, injetando peso e melodia, mas falta aos temas, para usar um termo corrente, "o molho". Edge parece particularmente inspirado, algumas faixas têm ótimas guitarras, mas falta um gancho, uma letra de Bono que seja não apenas um amontoado de versos (ainda que bem bonitos, alguns), mas, também, gostosa de cantar junto. Há esta ausência notável aqui: a habilidade que o U2 já teve de combinar substância temática com música empolgante e sotaque pop.

Se o U2 vai lançar um álbum inteiro em breve, pode ser que este pequeno deslize chamado Days of Ash seja esquecido em breve - até porque, com seus temas pontuais, inevitavelmente será. A idade chega para todos, eles não têm mais nada a provar, mas este é o perigo de passar tanto tempo longe: você vai caminhar pelas ruas que já chamou de suas e não vai reconhecer nenhuma casa ou pessoa, e os novos moradores vão te olhar e pensar "quem é esse aí?" e voltar pra dentro de casa, pois a vida aprendeu a seguir sem você.

* * * * *

U2
Days of Ash
Produzido por Jacknife Lee
Lançado em 18 de fevereiro de 2026

1. American Obituary
2. The Tears of Things
3. Song of the Future
4. Wildpeace
5. One Life at a Time
6. Yours Eternally

17/02/2026

Espiões ao relento


Uma crítica do quadrinho
Incógnito: Edição Confidencial

Deu tristeza saber do melancólico fim da Editora Mino. Por cerca de cinco anos, ela foi responsável pelo lançamento da obra autoral de Ed Brubaker por aqui. Foi graças a ela que os leitores brasileiros puderam saber como Criminal prosseguia após Lawless (segundo volume da série e último publicado pela Panini, há 15 anos), além de ter acesso a grande parte do impecável catálogo da dupla, em ótimo padrão gráfico. Porém, embora quadrinhos sejam uma paixão, eles também são um negócio e precisam gerar dinheiro. A conta não fechava mais, e a Mino liquidou seu estoque em janeiro, anunciando a suspensão total de suas atividades. Reckless ficou incompleta, faltando o quinto volume. Embora a Panini tenha publicado Sleeper (2002) e a QS Comics tenha publicado Friday (2020), até o momento, nenhuma editora foi confirmada como a nova casa oficial de Brubaker no Brasil.

Incógnito: Edição Confidencial foi o último Brubaker da Mino que comprei e, por alguma razão, ele furou a fila de leitura (que inclui Fade Out, Reckless #3 e o Sleeper da Panini). Foi degustado com avidez, ao longo de duas sentadas (mmm), uma para cada minissérie do encadernado: sábado foi dia da Incógnito original, domingo foi dia de Incógnito: Más Influências. As 368 páginas deste bonito encadernado incluem as capas duplas originais e alguns sketches de Sean Phillips (o parceiro mais constante de Brubaker) e um posfácio do escritor Jess Nevins, com a qualidade gráfica irrepreensível que foi uma marca da Mino.

Todo esse luxo em celulose seria inútil se a história fosse um lixo. Felizmente, um quadrinho de segunda de Ed Brubaker ainda consegue ser melhor do que os melhores esforços de muito escritor chamado de "gênio" a esmo por aí - e nem é o caso: Incógnito é um senhor quadrinho. Se há algo de que reclamar, é que ambas têm final em suspenso; a diferença é que a minissérie original termina deixando o futuro a cargo da imaginação do leitor, enquanto a segunda tem cara de ideia abandonada no meio, mesmo.

Inclusive, no prefácio do autor, a gente descobre que Incógnito nasceu de um impulso de voltar ao universo dos super-humanos, do qual ele se distanciou para escrever sobre gente comum. Após deixar sua marca em heróis da Marvel e DC (entre outros, Demolidor e Batman), ele sentiu o comichão de uma ideia sobre um supervilão aposentado e inserido em um programa de proteção a testemunhas. A Incógnito original foi publicada dentro do selo autoral Icon, da Marvel, a partir de dezembro de 2008.

Por anos, Zack Chacina e seu irmão Xander aterrorizaram o país em nome do Morte Negra, um supervilão bicentenário. Com força e resistência sobre-humanas, os irmãos Chacina matavam muito e alegremente. Após a morte de Xander, Zack foi colocado sob proteção do governo numa nova identidade civil, como arquivista, usando um soro inibidor de poderes. Ser um cidadão comum o está matando aos poucos - de tédio. Para extravasar, certa noite, ele fica chapado com um amigo, que o oferece um líquido para apagar o rastro das drogas no sangue, mas que acaba tendo um efeito adverso bastante interessante: ele anula o efeito do soro inibidor.

Zack Chacina: "eu racho cabeças, mas, no fundo, sou fofo."

Para testar os poderes reconquistados, Zack quebra a cara (e o resto da cabeça) de bandidinhos que iam atacar uma mulher. Não é a única surpresa do dia: ele adora matar, mas acaba descobrindo que também gosta de salvar pessoas. Suas saidinhas noturnas logo deixam de ser secretas e chamam atenção do governo e de seus antigos aliados no crime - e ninguém parece muito satisfeito com a volta de Zack Chacina à atividade. Seu novo mergulho no submundo vai colocá-lo diante de verdades sobre seu passado e dúvidas sobre seu futuro.

Como dito antes, a conclusão da minissérie original é daquelas que deixam a imaginação do leitor trabalhar, mas, de fato, é uma conclusão - ainda que atípica, abrupta e em aberto, como é de praxe nos trabalhos de Brubaker. A impressão é diferente ao fim de Incógnito: Más Influências (2010). Nas cinco edições da série, Zack Chacina está integrado ao programa de espionagem do governo e recebe a missão de se infiltrar na Level 9 para resgatar um agente duplo. Uma figura ligada ao passado de Zack reaparece, mas Brubaker não amarra as pontas soltas deixadas com Más Influências - e lá se vão 15 anos, então, é pouca a chance de que ele volte a este universo para uma conclusão, o que é uma pena.

Confesso que comprei Incógnito: Edição Confidencial às cegas e que este porém da falta de conclusão me desanimaria, mas este encadernado é, como tudo feito pela dupla Brubaker/Phillips, uma ótima leitura. Resta torcer para, um belo dia, acordar com a notícia de que Incógnito voltará para mais uma temporada - agora, com a esperança extra de que a dupla já tenha um novo (e bom) lar por aqui. A Mino nos deixou mal acostumados.

09/02/2026

Ego em chamas


Uma crítica do livro
Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Jr.

Tendo escrito um dos romances brasileiros mais elogiados, premiados e vendidos deste século (Torto Arado), era natural que a expectativa sobre o livro seguinte do baiano Itamar Vieira Jr. - segunda parte do que ele chamou de "Trilogia da Terra" - estivesse nas alturas, quando, em 2023, Salvar o Fogo foi lançado. O livro se tornou um sucesso rapidamente, mas, quando uma crítica da doutora em literatura Lígia G. Diniz, também docente da UFMG, "ousou" apontar problemas em sua obra (ainda que mantendo elogios sinceros ao livro e ao autor), Itamar reagiu mal, errando feio e errando rude. Leia AQUI sobre o trololó.

Salvar o Fogo é um bom livro, e tudo bem que seja "apenas" bom, mas falta a ele o frescor e o fascínio sentidos ao ler Torto Arado. Na paupérrima comunidade de Tapera do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, Luzia vive numa casa com seu pai e um irmão temporão. Ainda no começo da adolescência, quando sua casa ainda abrigava sua mãe e outros irmãos e irmãs, ela começou a ser chamada de "bruxa" pela fanaticamente católica população da Tapera, que há tempos a humilha e agride. A "marca da maldade" que ostenta é uma corcunda precoce.

A vida de Luzia é abundante em tragédias e segredos, que se descortinam ao leitor pelas páginas. No passado, apostar no amor foi seu maior arrependimento. Dos irmãos que caíram no mundo, pouco sabe, e o pouco que sabe é quase que somente por telefone. Ao irmão menor, "o Menino", ela dedica toda sua severidade e quase nenhum afeto. A falta de perspectivas na pequena vila de marisqueiros e cortadores de cana é agravada pela disputa por terras, mediada com pouca justiça pela igreja que controla todos os destinos.

Há eventos narrados com precisão e lidos com empolgação, ao lado de outros que dão uma sensação forte de déjà-vu, ou de estar advogando bem pouco sutilmente em nome de alguma bandeira - mais notadamente, reforma agrária e reparação racial. Tudo muito nobre e bem-intencionado, mas, em certos momentos, parece que o autor "baixou" em seus personagens, falando não apenas através deles, como também em lugar deles, com raciocínios talvez sofisticados demais para pessoas sem letramento algum.

Em que pesem problemas assim, ainda são muitas as virtudes deste livro. Mesmo assim, acho que vou preferir um pequeno "resguardo" antes de encarar Coração Sem Medo (2025), última parte da "Trilogia da Terra". Com mais tempo para absorvê-lo (e já mais longe no tempo da polêmica egotrip no rastro do seu lançamento), talvez eu venha a pensar com mais carinho em Salvar o Fogo.

01/02/2026

Música & Mágica #10


NEW ORDER
Technique
1989

O New Order foi um fenômeno que eu demorei a entender. Minha principal referência de música em toda a segunda metade dos anos 80, a revista Bizz (1985-2007), falava muito bem deles desde sempre, mas eu, isolado de quase tudo no oeste baiano, nunca os tinha escutado. Se cheguei a vê-los em algum programa de clipes da TV aberta (a MTV Brasil só chegaria em 1990), ou não percebi que eram eles, ou ouvi e não fiquei impressionado.

Meu primeiro contato consciente com o som do New Order aconteceu em 1990, em Goiânia, onde morei naquele ano. Um amigo/familiar chegou em casa com um vinil deste Technique e botou pra tocar. A primeira coisa que chamava atenção (e nesse aspecto, o da apreciação visual que acompanha a música, o vinil é imbatível) era esta capa barroca e psicodélica incrível, do habitual designer da banda, Peter Saville.

Finda a audição, eu havia gostado de apenas três músicas: "All the Way", "Love Less" e "Dream Attack", porque tinham uma pegada mais indie rock. Tudo mais que era eletrônico ou híbrido foi ouvido com a devida má-vontade. Leve em conta que eu era um adolescente de 17 anos cheio de certezas - ou seja, muito burro. Durante muito tempo, meu conhecimento do Technique esteve limitado a essas três faixas.

Os anos me apresentaram a clássicos do New Order que caíram bem em meus ouvidos cada vez mais tolerantes: "Bizarre Love Triangle", "Blue Monday", "The Perfect Kiss", "Regret"... Ao ponto em que eu, antes resistente, comprei em CD a coletânea (The Best of) New Order, de 1994, com a já clássica capa da interrogação azul estilizada. Nela, conheci coisas como "True Faith" e "1963". O New Order era bom de verdade, eu precisava admitir.

Daí que, em diversos momentos dos anos seguintes, me dediquei a redescobrir o Technique, sempre listado entre os melhores discos da banda e presença certa em listas dos grandes discos dos anos 80.

Começando pelas faixas que eu já curtia, "All the Way" é um rock acelerado, guiado pelo baixo inigualável de Peter Hook, sempre em primeiro plano. Tem um refrão que faz mais pela sua autoestima do que cursos inteiros de positividade tóxica: "leva anos pra encontrar a coragem / de se afastar do que você fez / pra encontrar a verdade dentro de si / e não depender de ninguém". Tem, ainda, um riff de teclados bem bonito, cortesia de Gillian Gilbert.

"Love Less" abre com a bateria forte de Stephen Morris, mas, de novo, o baixo de Hook sobressai, sinuoso. A voz grave de Bernard Sumner entrega a queixa do cara que está tentando de tudo, mas não derrete o coração da moça: "eu trabalho duro pra dar tudo que você precisa / e basicamente qualquer coisa que você veja / eu passei uma vida toda investindo em você / e você nem fala comigo". Boas letras são uma constante por aqui.

"Dream Attack" é a faixa que encerra o disco, então, deixo pro final.

A faixa de abertura, "Fine Time", é o New Order fazendo house music - e muito bem, diga-se. A banda pegou os beats populares nos clubes de lugares como Ibiza (onde parte do disco foi gravada) e deu um verniz todo particular, uma aula de programação rítmica. Vítima de total rejeição de minha parte naquele 1990, segue não sendo uma favorita, mas já ouço suas virtudes. Sou eu o problema, não ela.

Bernard, Stephen, Peter e Gillian: tardiamente amados

"Round & Round" estava pronta para ser um grande hit de FM - e foi. Também, pudera: tem um loop de percussão absolutamente matador e um refrão muito bom de cantar junto. Até a voz quase sempre estranha de Sumner soa como a mais adequada a ela. "Guilty Partner" é um ótimo rock, de ritmo forte, e as coisas ficam um pouco mais tranquilas em "Run", com boas guitarras do vocalista.

Perto do fim, a eletrônica domina (o teor de maquinário no disco foi causa de incômodo para Hook, que preferia uma direção mais rock and roll): "Mr. Disco" e "Vanishing Point" são as faixas que menos funcionam para mim. A primeira é o inegável ponto baixo do álbum, para mim. A segunda tem ótima programação, mas não gosto da melodia dos versos.

Felizmente, Technique encerra da melhor maneira possível: "Dream Attack" é um espetáculo de construção gradual: quatro marretadas na bateria, com violão, guitarra, programação, baixo e teclado entrando no rastro delas. Se posso fazer uma comparação elogiosa, me faz lembrar a introdução de "Just Like Heaven", do The Cure. Como esta, também é uma love song: "eu não vejo sentido na sua partida / só preciso do seu amor pra acreditar nele / e por você, eu faria o que pudesse / mas não posso mudar quem eu sou".

Escutar este álbum repetidamente para a produção deste texto me fez perceber que, apesar de a banda ter ganhado meu respeito, ignorei a produção do New Order quase completamente depois da coletânea de 1994. É muita coisa para colocar em dia, mas quero ouvir tudo que for possível. Se vou encontrar algo tão bom quanto Technique, não importa: o New Order não precisa me provar mais nada.

* * * * *

New Order
Technique
Produzido por New Order
Lançado em 30 de janeiro de 1989

1. Fine Time
2. All the Way
3. Love Less
4. Round & Round
5. Guilty Partner
6. Run
7. Mr. Disco
8. Vanishing Point
9. Dream Attack