01/02/2026

Música & Mágica #10


NEW ORDER
Technique
1989

O New Order foi um fenômeno que eu demorei a entender. Minha principal referência de música em toda a segunda metade dos anos 80, a revista Bizz (1985-2007), falava muito bem deles desde sempre, mas eu, isolado de quase tudo no oeste baiano, nunca os tinha escutado. Se cheguei a vê-los em algum programa de clipes da TV aberta (a MTV Brasil só chegaria em 1990), ou não percebi que eram eles, ou ouvi e não fiquei impressionado.

Meu primeiro contato consciente com o som do New Order aconteceu em 1990, em Goiânia, onde morei naquele ano. Um amigo/familiar chegou em casa com um vinil deste Technique e botou pra tocar. A primeira coisa que chamava atenção (e nesse aspecto, o da apreciação visual que acompanha a música, o vinil é imbatível) era esta capa barroca e psicodélica incrível, do habitual designer da banda, Peter Saville.

Finda a audição, eu havia gostado de apenas três músicas: "All the Way", "Loveless" e "Dream Attack", porque tinham uma pegada mais indie rock. Tudo mais que era eletrônico ou híbrido foi ouvido com a devida má-vontade. Leve em conta que eu era um adolescente de 17 anos cheio de certezas - ou seja, muito burro. Durante muito tempo, meu conhecimento do Technique esteve limitado a essas três faixas.

Os anos me apresentaram a clássicos do New Order que caíram bem em meus ouvidos cada vez mais tolerantes: "Bizarre Love Triangle", "Blue Monday", "The Perfect Kiss", "Regret"... Ao ponto em que eu, antes resistente, comprei em CD a coletânea (The Best of) New Order, de 1994, com a já clássica capa da interrogação azul estilizada. Nela, conheci coisas como "True Faith" e "1963". O New Order era bom de verdade, eu precisava admitir.

Daí que, em diversos momentos dos anos seguintes, me dediquei a redescobrir o Technique, sempre listado entre os melhores discos da banda e presença certa em listas dos grandes discos dos anos 80.

Começando pelas faixas que eu já curtia, "All the Way" é um rock acelerado, guiado pelo baixo inigualável de Peter Hook, sempre em primeiro plano. Tem um refrão que faz mais pela sua autoestima do que cursos inteiros de positividade tóxica: "leva anos pra encontrar a coragem / de se afastar do que você fez / pra encontrar a verdade dentro de si / e não depender de ninguém". Tem, ainda, um riff de teclados bem bonito, cortesia de Gillian Gilbert.

"Loveless" abre com a bateria forte de Stephen Morris, mas, de novo, o baixo de Hook sobressai, sinuoso. A voz grave de Bernard Sumner entrega a queixa do cara que está tentando de tudo, mas não derrete o coração da moça: "eu trabalho duro pra dar tudo que você precisa / e basicamente qualquer coisa que você veja / eu passei uma vida toda investindo em você / e você nem fala comigo". Boas letras são uma constante por aqui.

"Dream Attack" é a faixa que encerra o disco, então, deixo pro final.

A faixa de abertura, "Fine Time", é o New Order fazendo house music - e muito bem, diga-se. A banda pegou os beats populares nos clubes de lugares como Ibiza (onde parte do disco foi gravada) e deu um verniz todo particular, uma aula de programação rítmica. Vítima de total rejeição de minha parte naquele 1990, segue não sendo uma favorita, mas já ouço suas virtudes. Sou eu o problema, não ela.

Bernard, Stephen, Peter e Gillian: tardiamente amados

"Round & Round" estava pronta para ser um grande hit de FM - e foi. Também, pudera: tem um loop de percussão absolutamente matador e um refrão muito bom de cantar junto. Até a voz quase sempre estranha de Sumner soa como a mais adequada a ela. "Guilty Partner" é um ótimo rock, de ritmo forte, e as coisas ficam um pouco mais tranquilas em "Run", com boas guitarras do vocalista.

Perto do fim, a eletrônica domina (o teor de maquinário no disco foi causa de incômodo para Hook, que preferia uma direção mais rock and roll): "Mr. Disco" e "Vanishing Point" são as faixas que menos funcionam para mim. A primeira é o inegável ponto baixo do álbum, para mim. A segunda tem ótima programação, mas não gosto da melodia dos versos.

Felizmente, Technique encerra da melhor maneira possível: "Dream Attack", é um espetáculo de construção gradual: quatro marretadas na bateria, com violão, guitarra, programação, baixo e teclado entrando no rastro delas. Se posso fazer uma comparação elogiosa, me faz lembrar a introdução de "Just Like Heaven", do The Cure. Como esta, também é uma love song: "eu não vejo sentido na sua partida / só preciso do seu amor pra acreditar nele / e por você, eu faria o que pudesse / mas não posso mudar quem eu sou".

Escutar este álbum repetidamente para a produção deste texto me fez perceber que, apesar de a banda ter ganhado meu respeito, ignorei a produção do New Order quase completamente depois da coletânea de 1994. É muita coisa para colocar em dia, mas quero ouvir tudo que for possível. Se vou encontrar algo tão bom quanto Technique, não importa: o New Order não precisa me provar mais nada.

* * * * *

New Order
Technique
Produzido por New Order
Lançado em 30 de janeiro de 1989

1. Fine Time
2. All the Way
3. Love Less
4. Round & Round
5. Guilty Partner
6. Run
7. Mr. Disco
8. Vanishing Point
9. Dream Attack