Uma crítica da série
Lanternas, da HBO Max
Lanternas foi uma série de excelente nível em cenografia, diálogos e interpretações, dentro do que se entende como sendo um "padrão HBO" de qualidade. Enquanto assistia, me empolgava e ficava ansioso pelo próximo episódio. Com o encerramento da primeira temporada, porém, a série parece estar envelhecendo mal em minha memória. Eu leio Lanterna Verde há décadas e, finda a experiência, enxergo pouco dos quadrinhos nela. Houve "roteirismos" de baciada, e muita coisa ficou confusa ou inexplicada, sem pudor algum. Na ânsia de fugir do óbvio e oferecer uma "True Detective com Lanternas Verdes", os muitos talentos envolvidos (Damon Lindelof, Tom King, James Gunn) entregaram um mash-up bastante desequilibrado.
Este texto contém SPOILERS. A partir daqui, leia por sua conta e risco.
Um inegável acerto de Lanternas é a dupla de protagonistas: Kyle Chandler e Aaron Pierre encarnam seus papéis de Hal Jordan e John Stewart com total propriedade. Colocado numa versão mais velha do primeiro Lanterna humano, Chandler incorpora à perfeição o jeitão arrogante e irreverente de Jordan, que teima em querer parecer relevante e confiante, enquanto treina seu provável substituto. Como John Stewart, Aaron Pierre tem o físico certo e o jeitão ultradisciplinado que o personagem pede.
Muito do "ouro" encontrado em Lanternas vem das interações entre Jordan e Stewart. Ao longo dos oito episódios, eles divergem sobre basicamente tudo e, desses embates, nascem alguns ótimos diálogos sobre heroísmo, dever, mérito, culpa, vida e morte. O mesmo pode ser dito sobre os flashbacks da infância de Stewart, em que os métodos pouco ortodoxos (pra dizer o mínimo) de seus pais para criar um filho sem medo são entremeados com conversas incomumente profundas para uma série do gênero.
Igual esmero, porém, não é notado em questões como o uso do anel: não são raros os momentos em que Hal, sendo tão experiente, parece perdido e hesitante em usar o imenso poder à sua disposição. A destruição de Rushville parece plenamente evitável e, ainda assim, acontece. Mesmo com uma bateria ao seu alcance, Jordan usa seu anel como se ele fosse uma cópia barata comprada na Shopee, eternamente com carga entre 2% e 5% - e a gente ainda tem que engolir que a assim chamada "arma mais poderosa do universo" precisa de uma pancada pra pegar no tranco.
Não bastasse estar na fila de emprego mais longa que já existiu, a gente só vê o coitado do John assumir o anel e voar nos últimos minutos do último episódio. Lanternas padece de uma imensa vergonha de seu material fonte, com uso pouco imaginativo do anel por parte dos dois heróis, exceção feita à escavadeira criada por John para adentrar o covil do Caçador Cósmico infiltrado na população. Fora isso, é um festival de campos de força arredondados e genéricos.
As caracterizações dos protagonistas também têm seus percalços: Hal Jordan sofre de um inexplicável fetiche de se jogar de carros em movimento, artifício "engraçado" que atinge saturação, tamanha a recorrência. Ele é visto visitando Oa, mas entra e sai do planeta sem que vejamos qualquer outro Lanterna Verde ou Guardião. Seu holograma backup de "segurança", por algum motivo, passa dez longos anos sem atualizações. Sinestro (Ulrich Thomsen) está preso 99% do tempo e oferece zero perigo no 1% em que aparece solto. No último episódio, John faz exatamente aquilo que passou sete outros resistindo a fazer, mas de maneira bem menos digna.
Acho até interessante, porém, a ideia de que o anel de Jordan é meio como o Um Anel de Sauron, de O Senhor dos Anéis: uma força que vicia e compromete seu usuário. O problema desta e de outras ousadias (Jordan sendo herói antes do Superman, seu pai sendo um aviador suicida, John conhecendo "biblicamente" um Caçador Cósmico) é que elas quase sempre desagradam a quem já conhece o Lanterna minimamente e confundem a quem está chegando agora. É por causa de coisas assim que, até hoje, há quem acredite que a DC é "realista e sombria" (argh).
Embora cativante ao ponto de tornar-se a terceira maior série da HBO em audiência, Lanternas ficou devendo respeito ao cânone e mostrou-se uma complicada porta de entrada para o novo UDC: embora John Stewart esteja confirmado no próximo filme do Superman, James Gunn já se apressou em dizer que Lanternas é uma história Elseworlds (ou seja, de universo alternativo), em vez de apenas admitir, "erramos, vamos fazer melhor na próxima temporada" - ou seja, o que era para ter sido apenas uma minissérie ganhou uma sobrevida que, torçamos, talvez traga algumas correções de rumo. Do jeito que está, o brilho verde que ela emana mais ofusca do que orienta.
























