01/02/2026

Música & Mágica #10


NEW ORDER
Technique
1989

O New Order foi um fenômeno que eu demorei a entender. Minha principal referência de música em toda a segunda metade dos anos 80, a revista Bizz (1985-2007), falava muito bem deles desde sempre, mas eu, isolado de quase tudo no oeste baiano, nunca os tinha escutado. Se cheguei a vê-los em algum programa de clipes da TV aberta (a MTV Brasil só chegaria em 1990), ou não percebi que eram eles, ou ouvi e não fiquei impressionado.

Meu primeiro contato consciente com o som do New Order aconteceu em 1990, em Goiânia, onde morei naquele ano. Um amigo/familiar chegou em casa com um vinil deste Technique e botou pra tocar. A primeira coisa que chamava atenção (e nesse aspecto, o da apreciação visual que acompanha a música, o vinil é imbatível) era esta capa barroca e psicodélica incrível, do habitual designer da banda, Peter Saville.

Finda a audição, eu havia gostado de apenas três músicas: "All the Way", "Loveless" e "Dream Attack", porque tinham uma pegada mais indie rock. Tudo mais que era eletrônico ou híbrido foi ouvido com a devida má-vontade. Leve em conta que eu era um adolescente de 17 anos cheio de certezas - ou seja, muito burro. Durante muito tempo, meu conhecimento do Technique esteve limitado a essas três faixas.

Os anos me apresentaram a clássicos do New Order que caíram bem em meus ouvidos cada vez mais tolerantes: "Bizarre Love Triangle", "Blue Monday", "The Perfect Kiss", "Regret"... Ao ponto em que eu, antes resistente, comprei em CD a coletânea (The Best of) New Order, de 1994, com a já clássica capa da interrogação azul estilizada. Nela, conheci coisas como "True Faith" e "1963". O New Order era bom de verdade, eu precisava admitir.

Daí que, em diversos momentos dos anos seguintes, me dediquei a redescobrir o Technique, sempre listado entre os melhores discos da banda e presença certa em listas dos grandes discos dos anos 80.

Começando pelas faixas que eu já curtia, "All the Way" é um rock acelerado, guiado pelo baixo inigualável de Peter Hook, sempre em primeiro plano. Tem um refrão que faz mais pela sua autoestima do que cursos inteiros de positividade tóxica: "leva anos pra encontrar a coragem / de se afastar do que você fez / pra encontrar a verdade dentro de si / e não depender de ninguém". Tem, ainda, um riff de teclados bem bonito, cortesia de Gillian Gilbert.

"Loveless" abre com a bateria forte de Stephen Morris, mas, de novo, o baixo de Hook sobressai, sinuoso. A voz grave de Bernard Sumner entrega a queixa do cara que está tentando de tudo, mas não derrete o coração da moça: "eu trabalho duro pra dar tudo que você precisa / e basicamente qualquer coisa que você veja / eu passei uma vida toda investindo em você / e você nem fala comigo". Boas letras são uma constante por aqui.

"Dream Attack" é a faixa que encerra o disco, então, deixo pro final.

A faixa de abertura, "Fine Time", é o New Order fazendo house music - e muito bem, diga-se. A banda pegou os beats populares nos clubes de lugares como Ibiza (onde parte do disco foi gravada) e deu um verniz todo particular, uma aula de programação rítmica. Vítima de total rejeição de minha parte naquele 1990, segue não sendo uma favorita, mas já ouço suas virtudes. Sou eu o problema, não ela.

Bernard, Stephen, Peter e Gillian: tardiamente amados

"Round & Round" estava pronta para ser um grande hit de FM - e foi. Também, pudera: tem um loop de percussão absolutamente matador e um refrão muito bom de cantar junto. Até a voz quase sempre estranha de Sumner soa como a mais adequada a ela. "Guilty Partner" é um ótimo rock, de ritmo forte, e as coisas ficam um pouco mais tranquilas em "Run", com boas guitarras do vocalista.

Perto do fim, a eletrônica domina (o teor de maquinário no disco foi causa de incômodo para Hook, que preferia uma direção mais rock and roll): "Mr. Disco" e "Vanishing Point" são as faixas que menos funcionam para mim. A primeira é o inegável ponto baixo do álbum, para mim. A segunda tem ótima programação, mas não gosto da melodia dos versos.

Felizmente, Technique encerra da melhor maneira possível: "Dream Attack", é um espetáculo de construção gradual: quatro marretadas na bateria, com violão, guitarra, programação, baixo e teclado entrando no rastro delas. Se posso fazer uma comparação elogiosa, me faz lembrar a introdução de "Just Like Heaven", do The Cure. Como esta, também é uma love song: "eu não vejo sentido na sua partida / só preciso do seu amor pra acreditar nele / e por você, eu faria o que pudesse / mas não posso mudar quem eu sou".

Escutar este álbum repetidamente para a produção deste texto me fez perceber que, apesar de a banda ter ganhado meu respeito, ignorei a produção do New Order quase completamente depois da coletânea de 1994. É muita coisa para colocar em dia, mas quero ouvir tudo que for possível. Se vou encontrar algo tão bom quanto Technique, não importa: o New Order não precisa me provar mais nada.

* * * * *

New Order
Technique
Produzido por New Order
Lançado em 30 de janeiro de 1989

1. Fine Time
2. All the Way
3. Love Less
4. Round & Round
5. Guilty Partner
6. Run
7. Mr. Disco
8. Vanishing Point
9. Dream Attack

30/01/2026

Pensando pequeno


Uma crítica da série
Magnum, do Disney+

Há uma dura verdade no ar: ninguém mais liga tanto assim para a Marvel. Ainda que levemos em conta acertos eventuais, os erros em série minaram a paciência do espectador médio, que perdoava basicamente tudo porque, afinal, mesmo as tranqueiras colocavam uma peça nova pro apogeu da Saga da ocasião. Hoje em dia, as pessoas pensam muito antes de deixar seus suados caraminguás na bilheteria: Capitão América: Admirável Mundo Novo, Thunderbolts e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, ainda que divertidos, estavam longe de ser capazes de devolver a Marvel aos seus dias de glória, e o público não se iludiu por pouco.

É bom que lembremos: estamos todos 18 anos mais velhos desde o primeiro Homem de Ferro. A cara de novidade que os filmes da Marvel tinham perdeu o colágeno faz um bom tempo. Alguns testes definitivos para sua atualmente questionável capacidade de se recuperar acontecerão este ano: se o público torcer o nariz para Homem-Aranha: Um Novo Dia e para Vingadores: Doutor Destino, acho que já se pode mandar fechar o caixão e tocar o enterro. Espero estar errado, porém (e digo isso embora seja um decenauta de carteirinha).

Talvez por entender que a audiência já não reage da mesma forma à simples menção do nome Marvel foi que o estúdio preferiu discrição e cautela ao lançar a série Magnum: quase engavetada, a série veio pro Disney+ inteira, de uma só tacada - ou seja, não houve confiança de que ela geraria o zum-zum-zum de outrora, do tipo que duraria semanas. É uma bem-vinda prova de humildade, claro, mas, desta vez, a Marvel podia ter se gabado um pouquinho, porque Magnum é uma delícia de assistir.

Nos quadrinhos, o personagem é um Vingador "série B", um ator profissional que acumula e manipula energia iônica. Tudo que sei dele, além disso, é que ele namorou a Capitã Marvel. Me falta leitura das fases com Magnum na equipe. Ele é originalmente branco, mas, na série, ganhou a cara de Yahya Abdul-Mateen II.

Simon e Trevor: mais que amigos, friends.

Simon Williams (nome civil do herói) está prestes a conseguir uma grande chance de "acontecer" em Hollywood, ao ser chamado para um papel na série American Horror Story. Porém, Simon não consegue dominar suas inseguranças e, com suas intermináveis sugestões para "melhorar" o roteiro, irritando a todos ao seu redor e atrasando os trabalhos, acaba demitido. Para esquecer do dia ruim, ele vai a um cinema que exibe filmes clássicos e conhece Trevor Slattery (Ben Kingsley), ator que deu vida ao falso Mandarim em Homem de Ferro 3, que goza do status de subcelebridade. Os dois se tornam improváveis amigos e, juntos, decidem fazer testes para o remake de Magnum (Wonder-Man, no inglês original), clássico herói de ficção científica dos anos 80 (no MCU, claro).

Como dois amantes da atuação em busca de oportunidades, Simon e Trevor têm diálogos muito bacanas sobre sua arte (e já falei que adoro metalinguagem), e tudo que eles vivem em sua jornada - não pela fama ou dinheiro, que são ótimos efeitos colaterais, mas pela realização de seu potencial - é parte fundamental do que torna Magnum uma série muito interessante e diferente dentro do MCU. Simon ganha desenvolvimento, coisa rara, o que é "super" nele é o que menos importa e pouco é visto: no MCU, os supers são proibidos de estar em produções de cinema ou TV, desde um acidente em estúdio com um ator meta-humano (flashback que rende um episódio maluco e maravilhoso). Em nome da segurança própria e alheia, Simon oculta seus poderes.

Só que esconder sua verdadeira natureza está fazendo mal a Simon (e, aqui, você aplica a interpretação que desejar). Ele não consegue acessar as próprias emoções e sempre põe tudo a perder. O apoio e a sabedoria de Trevor ajudam, mas meio que viram muletas para Simon. Como em toda história de bromance, algumas revelações e decepções estão no caminho dos amigos, mas a esperta e emotiva sequência final (em que Simon faz pesquisa para um personagem) aproxima Magnum um pouco mais do universo do qual mal parecia fazer parte.

Não há como não elogiar as atuações de Mateen II e Ben Kingsley. Enquanto um é pura tensão e autocontrole, o outro é a experiência e a esperteza encarnadas, quase um guru involuntário, embora seja basicamente um pilantra. Nas audições definitivas para o filme do Magnum, algumas escolhas narrativas tiram o peso do que poderia ser um momento transcendental na série, mas há um surto gore no meio de tudo que até compensa. Não podia ter havido um resgate melhor de Trevor Slattery, redimindo Ben Kingsley completamente da participação constrangedora em Shang-Chi - inclusive, os primeiros episódios são dirigidos pelo mesmo Destin Daniel Cretton, e o cara é bom de ação com humor e ternura; deve render bem no Homem-Aranha: Um Novo Dia.

Como isso vai reverberar nos filmes, ficamos por ver. Por enquanto, se acabasse de vez no fim de seu oitavo episódio, a série estaria perfeitamente fechada. O nome de Mateen II não consta do elenco de Vingadores: Doutor Destino, então, talvez a inevitável entrada de Magnum na equipe fique para Vingadores: Guerra Secretas, no fim do ano que vem - mas, surpresas não estão descartadas. Magnum, a série, veio provar que pensar pequeno pode compensar pra Marvel, e que boas histórias importam mais do que hype vazio. Que a lição não seja esquecida tão cedo.

23/01/2026

A portas fechadas


Uma crítica do filme
Valor Sentimental

Em 1995, meus pais se separaram. Nós, os filhos, tomamos partido por nossa mãe e com ela ficamos (com exceção da mais velha, então já casada). Houve muito julgamento e pouca conversa com ele. A gente meio que só conhecia o lado de nossa mãe e, tendo ele assumido os deslizes que levaram ao divórcio, negamos a ele o direito de dar sua versão. Apesar disso, pouco tempo depois, durante a maior pindaíba que já enfrentamos na vida, ele me acolheu em sua casa e me deu trabalho e algum dinheiro.

Durante um ano e meio, aprendi a conhecer meu pai melhor do que conheci nos 25 anos anteriores. Ouvi dele suas histórias, esperanças e arrependimentos. Não compensava os anos em que ele foi pouco mais do que um provedor, mas era bom. Falávamos com muita sintonia sobre música, por exemplo, e eu adorava mostrar sons novos a ele. Com minha intercessão, meus irmãos se abriram a recebê-lo de volta em suas vidas.

No começo de 1999, eu deixei sua casa para trabalhar em meu primeiro emprego como professor de inglês. Passei a visitá-lo esporadicamente, uma vez ao ano, pelo menos. Houve um acidente com fogo, uma condição cardíaca e, por fim, o Alzheimer que o levou em 2019. Felizmente, algum tempo antes, eu consegui dizer que o amava e era grato por tudo que ele havia feito por mim. Foi observando meu pai que eu percebi que não deve haver sofrimento maior do que se ver apartado de sua família, sendo esta uma que você ainda ama.

Gustav Borg (Stellan Skarsgård) encontra-se apartado de sua família e, apesar de todo o respeito conquistado como diretor de cinema (e da máscara de bon vivant que ostenta), sofre. Anos atrás, o fim do seu casamento foi a desculpa para que ele deixasse a Noruega em direção à Suécia para focar em sua carreira, enquanto a mãe criou as filhas Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e Nora (Renate Reinsve), que se tornaram historiadora e atriz, respectivamente. A esta altura, Sissel, a mãe, já havia falecido.

Nora vive um momento de muito sucesso nos palcos, o que não a impede de ter ataques de pânico e de fazer besteiras, como se envolver com um colega casado. A volta de Gustav reacende velhos rancores, mais em Nora que em Agnes, que tem espírito mais conciliador. Gustav não deseja apenas reconectar-se com suas filhas: ele escreveu o roteiro de um filme para Nora e espera que ela aceite ser a protagonista. Diante de sua recusa agressiva, resta a Gustav contar com a atriz do momento, Rachel Kemp (Elle Fanning), para tocar adiante o seu filme mais pessoal.

Filmes sobre fazer filmes têm o charme da metalinguagem, mas está longe de ser este o único encanto de Valor Sentimental, dirigido por Joachim Trier, e forte candidato ao Oscar deste ano, com nove indicações. Conta com um tema de apelo praticamente universal e um roteiro primoroso, co-escrito por Trier e Eskil Vogt. Sua maior força, porém, está nas atuações estelares de Skarsgård e Reinsve. Gustav e Nora têm muito a dizer um ao outro, mas não conseguem se comunicar - não sem a filha despejar um caminhão de ressentimento sobre o pai, ou sem que este não pareça fazer pouco caso dos efeitos de sua ausência.

Nora e Agnes: ali está papai, conhecido como "aquele velho fdp"

São dois turrões: ela, uma atriz que emociona plateias, mas parece incapaz de sentir ou demonstrar afeto profundo; ele, um homem em busca de um perdão que, de preferência, não desenterre suas vergonhas. Enquanto Gustav tenta provar seu amor por Nora dando a ela trabalho que valorize seu talento, ela rejeita as investidas daquele homem que se comporta mais como diretor que como pai. Entre os dois, Rachel e Agnes, ambas tentando apagar esse incêndio sem sair chamuscadas.

Como Rachel Kemp, Elle Fanning é pura beleza e delicadeza. Ela quer apenas fazer o melhor que pode pelo diretor que é um ídolo para ela, mesmo ao dar-se conta de que está pisando em um campo minado emocional. Rachel e Agnes ajudam a dar forma ao que parece uma solução para o embate entre Nora e Gustav, mas, ao chegarmos na cena final, a vida parece imitar a arte que imitou a vida, quando uma porta se fecha. A verdade está do outro lado e, de coração em frangalhos, a gente a vê.

Valor Sentimental é um dos grandes filmes de 2025, um drama igualmente fácil (pois é impecavelmente narrado) e difícil (pois remexe em feridas que quase todos temos) de assistir. No fim das contas, grudou em minha memória a imagem do Gustav sentado no jardim, dando o dedo médio pra casa e pros fantasmas que nela habitavam. O passado não pode ser desfeito ou refeito, mas somente perdoando (aos outros e a si mesmo) é que a vida encontra um caminho rumo ao futuro. Amar nem sempre é somente instinto ou convenção: às vezes, é preciso decidir fazê-lo.

22/01/2026

Forjada em fogo e fúria


Uma crítica da HQ
Absolute Mulher-Maravilha #1

Este é, sem meias palavras, o gibi do momento, a melhor coisa super-heroica sendo publicada pela Panini Comics. Já se pode comprar sua segunda edição, mas ainda vale a pena falar da estreia (reunindo as duas primeiras edições originais), e eu, como bom amigo, desejo que você ainda consiga achá-la por aí, nas bancas ou nos sites da sua preferência.

O Universo Absolute surgiu como uma espécie de "alternativo oficial" à linha regular da DC. No especial DC Sem Limites (nome de toda a fase atualmente em publicação), a aparente morte de Darkseid faz nascer todo um universo com base na sua essência dissipada. Neste novo universo, repleto de adversidades, Bruce Wayne não é um playboy bilionário; Kal-El não é um alien com pais adotivos amorosos; e Diana não foi criada como princesa de Themiscyra, como sempre os conhecemos. Neste mundo, super-heróis são vistos como párias.

A linha Absolute já tem suas versões de diversos heróis, mas, em minha opinião, nenhum deles rivaliza em qualidade com a Absolute Mulher-Maravilha, escrita por Kelly Thompson e desenhada por Hayden Sherman (ainda que seja o Absolute Batman, de Scott Synder e Nick Dragotta, o campeão de vendas e de hype).

Como punição de Zeus às amazonas, Diana é retirada de Themiscyra ainda bebê e entregue por Apolo aos cuidados da feiticeira Circe, que vive exilada na chamada Ilha Selvagem, no Inferno. Relutante e proibida (por meio de mágica) de dizer a palavra "amazona", Circe acaba por afeiçoar-se à menina, a quem ensina suas artes arcanas. Conforme passa o tempo, cresce a curiosidade de Diana sobre sua origem e o "pecado" que levou ao castigo das amazonas. Armada de magia, sabedoria e coragem, ela parte rumo ao mundo terreno.

Durante metade de sua octogenária existência, a Mulher-Maravilha foi tratada como heroína de segundo escalão, mera coadjuvante de colegas mais populares como Superman e Batman. Nesse passado sombrio, chegaram ao cúmulo de reduzi-la a secretária da Sociedade da Justiça, ou transformá-la numa espiã que confiava mais em artes marciais do que em seus poderes divinos (um conceito que, pensando bem, poderia render um bom gibi, mas que não parece ter sido o caso). Tudo mudou após a Crise nas Infinitas Terras (1985), megaevento que realinhou a continuidade da DC Comics. Uma das principais reinvenções do período foi a hoje clássica Mulher-Maravilha por George Pérez, que estabeleceu conceitos que valem até os dias atuais, após tantas outras décadas de retcons e reboots.

"Traz essa laranja aqui, que eu descasco..."

Com variado grau de êxito por parte de seus autores, Diana passou a ser melhor tratada dentro da sua própria casa, que a estabeleceu como uma das forças centrais do seu panteão, formando a famosa Trindade ao lado de Superman e Batman. Sua origem já foi contada e recontada mais vezes do que consigo lembrar, mas Kelly Thompson nos presenteou com uma versão muito diversa e intrigante, mantendo aspectos fundamentais da personagem: a bravura, a sabedoria e a compaixão por quem a merece; aos indignos, sobram a força de seus punhos e o fio da sua enorme espada.

Vai por mim: esta revista só melhora. Até este momento, foram publicadas 15 edições nos EUA e Kelly Thompson jamais deixou a peteca cair. Não houve edição ruim, ainda que nem todas fossem igualmente interessantes. Tudo bem, tudo normal. Só por trazer um frescor inédito a uma personagem com mais de 80 anos de idade, Thompson já mereceria reconhecimento (que veio em forma do Eisner Awards de Melhor Série Nova). Ajuda contar com a arte precisa e cheia de personalidade de Hayden Sherman (guarde este nome!), que dá às ameaças a escala e o temor que elas inspiram. O trabalho de Jordie Bellaire nas cores também foi agraciado com um Eisner. Acredite quando digo que este gibi é coisa muito fina.

Quando começou, o Universo Absolute tinha toda a cara de evento feito para durar somente até o fim da primeira supersaga que chegasse, a ser desfeito numa típica manobra mágica ou científica qualquer. Porém, DC KO (a saga da vez) já se aproxima do fim, mas, dado o sucesso da iniciativa, parece que os gibis Absolute serão vistos por um bom tempo ainda, e mais títulos vão surgindo. Espero que Thompson (ou um eventual substituto) mantenha a régua alta que foi demonstrada nesse primeiro ano da série, com a graça de Hécate.

16/01/2026

Amor em tempos de seca (e sangue)


Uma crítica da novela
Guerreiros do Sol, da Globoplay

As novelas da Rede Globo já foram o principal lazer das famílias brasileiras. Suas tramas e pautas eram discutidas em todos os ambientes. A chegada da TV por assinatura e da internet, porém, fragmentou a atenção do público, que passou a preferir histórias mais curtas e com produção mais caprichada, sem o compromisso de estar na frente da TV, religiosamente, às 18, 19h ou 21h, seis dias por semana, seguindo uma trama cheia de "barrigas" (aqueles momentos em que a história não avança) que podia se estender por meio ano, ou até mais.

Desde então, a Globo tem obtido relativos sucessos de audiência, mas longe dos números dos seus anos dourados. Depois de passar anos lamentando e tentando fazer de conta que a internet não era uma ameaça, parece que a emissora carioca aprendeu a conviver nos ambientes virtuais e atendeu a uma demanda antiga da audiência quando inaugurou o Globoplay, há dez anos. Sua posição entre os serviços de streaming com maior audiência no país varia de acordo com quem pesquisa, mas é certo que está entre os cinco mais populares e segue crescendo.

Há anos produzindo documentários e minisséries, a Globoplay lançou sua primeira novela exclusiva em 2025. Guerreiros do Sol foi exibida entre 11 de junho e 6 de agosto de 2025, em levas semanais de cinco capítulos, totalizando 45. Prometida para estrear na Globo "normal" em abril deste ano, é uma produção de ótimo nível, o que não impede que tenha seus problemas. Sua história é livremente baseada no livro Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, e na famosa história do bando de Lampião e Maria Bonita.

Nos anos 1930, Rosa (Isadora Cruz) e Josué (Thomás Aquino), se conhecem e se apaixonam no sertão pernambucano, para depois terem suas vidas transformadas pela violência. Josué se vê obrigado a montar seu próprio bando de cangaço, do qual participam três de seus quatro irmãos: Arduíno (Irandhir Santos), Milagre (Ítalo Martins) e Sabiá (Vitor Sampaio). O bando cresce em tamanho e em fama, com suas proezas fora-da-lei levando Josué a ser conhecido como "governador do sertão". Com inveja do irmão temido e respeitado, Arduíno se volta contra o bando, jurando acabar com a vida dos irmãos.

Josué e seu bando: a mão que atira é a mesma que esfaqueia

Este é apenas o conflito central de Guerreiros do Sol. Existem outros, mais ou menos interessantes ou bem desenvolvidos. Como costuma acontecer em novelas, as coisas que dão certo são espremidas até que delas não pingue mais nada, e alguns personagens e situações tolas irritam muito mais do que empolgam. Tem luta pelo voto feminino, exploração da miséria, trabalho escravo, amor entre mulheres, críticas à política e à polícia.

Há uma notável cota de nordestinos autênticos entre os atores, mas mesmo aqueles vindos de outras regiões não fazem feio. Novelas passadas no interior profundo, porém, parecem padecer de certa "síndrome de Pantanal": com frequência, tudo em Guerreiros do Sol fica muito lento e contemplativo, com todo mundo falando baixinho e cheio de glicose nas palavras. Haja close, haja afago, haja frase feita... Há ainda um excesso de filtro amarelo, mas a bonita cenografia compensa certos deslizes.

Entre os nomes do elenco, além dos já citados, veem-se ainda Alinne Moraes, José de Abreu, Daniel Oliveira, Kelner Macedo, Nathalia Dill, Marcélia Cartaxo, Luis Carlos Vasconcelos, Theresa Fonseca, Alexandre Nero, Tuca Andrada e Kaysar Dadour, entre outros. Sendo uma novela sobre bandos de cangaço em luta contra a polícia, o que mais tem é gente perdendo a vida na bala. Tente não se apegar muito a ninguém, vai por mim.

Como primeira novela de seu catálogo, Guerreiros do Sol conta muitos pontos a favor da Globoplay. Apesar de curta, ainda tem umas gordurinhas a cortar, mas cativa a audiência. Ao ser exibida na Globo, perderá algumas cenas mais sangrentas ou chocantes, e pode-se entender por quê. Na guerra de repercussão online, perdeu para a Beleza Fatal, da HBO Max (que já engatilhou Dona Beja para fevereiro). Quem sabe agora, com a visibilidade da TV aberta, ganha mais espaço na memória coletiva do Brasil noveleiro.

14/01/2026

Mar de ausências e silêncios


Uma crítica do filme
O Filho de Mil Homens

Temos aqui um claro exemplo do que torna o modelo de negócio e produção artística da Netflix um problema: um filme tão bom, tão forte e tão bonito deveria ter feito carreira no cinema - e arrisco que teria feito bonito. Porém, exceto por algumas exibições em festivais e privilegiadas salas de arte, O Filho de Mil Homens chegou direto no streaming. Parece cruel e injusto para com um filme de tamanha qualidade.

O livro homônimo do angolano radicado português Valter Hugo Mãe é um dos mais tristes em que já pus os olhos. A história do pescador Crisóstomo, entremeada com a de outros personagens igualmente trágicos, era uma leitura tocante, mas, por vezes, difícil, tamanhas as provações e que seus personagens eram submetidos. Quase não havia trégua na dor física e/ou emocional que os atravessava.

O filme de Daniel Rezende também não poupa o espectador. Não chega a ser chocante, mas esteja avisado de cenas de nudez frontal masculina e de sugestão sexual. Além de ocasional violência física, existe muita violência psicológica: as coisas ditas pelas bocas maldosas das "pessoas de bem" do vilarejo - e mesmo pelos protagonistas entre si, em momentos de tensão - podem machucar tanto quanto um soco.

Desde o surpreendente Bingo - O Rei das Manhãs (2017), tudo que eu podia usar para qualificar o trabalho de Daniel Rezende eram os filmes da Turma da Mônica, todos muito bonitinhos, mas bobinhos - portanto, a expectativa era baixa, admito. O Filho de Mil Homens, porém, é o belo fruto de uma enorme sensibilidade e de um bom gosto raro em nosso cinema.

Primeiramente, salta aos olhos a beleza da fotografia de Azul Serra. Desde as paisagens naturais até os interiores das casas, Serra entrega imagens de composição exemplar, que colam em nossas retinas, ampliando a força dramática do roteiro de Daniel Rezende. As filmagens foram realizadas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA), separadas por quase 1.500 km, mas somos persuadidos a crer que são dois cenários do mesmo lugar. As cores, os enquadramentos, as soluções técnicas (como começar o filme com tela quadrada e terminar com ela expandida), é tudo de uma excelência ímpar.

Toda a beleza da fotografia, porém, significaria pouco, se estivesse aliada a um roteiro piegas. A opção de Rezende em manter a crueza das páginas do livro revela-se um tremendo acerto. Coaches de autoestima e influencers de fofura podem até gostar do filme, mas devem relutar em usar cortes dele, sob risco de ter seguidores assistindo-o e cogitando processá-los, por motivo de pintos balançando em close-up (mas, cá pra nós, é uma possibilidade que me diverte).


Existe ainda, o elenco totalmente entregue a seus papéis. Rodrigo Santoro adiciona mais um desajustado à sua já extensa galeria. O pescador Crisóstomo é um eremita, evitado até pelos colegas pescadores, por conta de sua biografia problemática. Sua única companhia é um boneco de pano, estranhamente carismático em seu silêncio. Ao atingir os 40 anos, ele decide que não quer mais ser sozinho e deseja começar uma família. Seu desejo vai, aos poucos, sendo atendido por meio de encontros mais ou menos casuais: primeiro, ele conhece o precoce menino Camilo (Miguel Martines); depois, chega Isaura (Rebeca Jamir), cujo casamento acaba mesmo antes de começar. Por fim, Antonino (Johnny Massaro), um rapaz gay que não tem paz em casa, nem fora dela.

As histórias desses estranhos se entrelaçam e se assemelham, enquanto produtos do descumprimento das expectativas e convenções sociais. Enquanto estão ali, tentando realizar os sonhos de felicidade dos outros, ao custo de seus próprios sonhos e felicidade, essas pessoas se veem apequenadas, limitadas, presas em cubículos literais ou simbólicos (lembra da tela quadrada mencionada acima?). Somente quando abraçam suas próprias imperfeições e as alheias é que aprendem a sentir-se livres. Não é fácil o caminho, não é indolor o processo, mas o horizonte que se estende à sua frente faz tudo valer a pena. Famílias escolhidas, forjadas na dor e na empatia, também são famílias.

É um filme de coragem tremenda - não pela nudez ou pela libido em cena, mas por expor as entranhas mais profundas e apodrecidas de pessoas cuja maldade, com frequência, manifesta-se disfarçada de um suposto amor ou temor a Deus. Certas coisas que são ditas no filme chegam a incomodar fisicamente. O preconceito é realmente um vício (como em oposição à virtude) dos mais hediondos, mas nem todo mundo tem coragem de vestir a carapuça que o filme lhe estende.

O Filho de Mil Homens é, enfim, um dos filmes mais bonitos que tive o prazer de assistir, em forma e conteúdo, prova inegável do talento superlativo de todos os envolvidos. É maravilhoso que ele seja brasileiro, pois é mais um que coloca nosso cinema em pé de igualdade com o melhor que é feito lá fora. Se um filme assim não merece a tela de cinema, eu não sei dizer qual outro mereceria.

13/01/2026

A felicidade é uma arma quente


Uma crítica da série
Pluribus, da Apple TV

Não há coisa que divirta mais a Hollywood do que imaginar o fim do mundo. Em filmes e séries dos mais diversos gêneros, o mundo já foi inundado, congelado, invadido, detonado por fora e por dentro. Pluribus vem somar-se a esta já longa mitologia, trazendo o que talvez seja o fim de mundo mais tranquilo já visto. O ideal é começar a vê-la sem saber de nada, mas, a esta altura, sendo a série mais vista na história da Apple TV, no mínimo, alguém já falou dela perto de você.

Quando um sinal alienígena é traduzido como uma sequência de RNA e reproduzido em um laboratório astronômico, não demora muito até que uma pequena distração vire um pesadelo: o vírus escapa e vai contaminando as pessoas, transmitido pela saliva. Após uma pequena convulsão, as pessoas contaminadas despertam integrando uma espécie de mente-colmeia, partilhando toda sua memória e conhecimentos com todos os demais indivíduos do planeta, unidos em perene igualdade e felicidade.

Bom, quase todos: a escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn) testemunha os espasmos e a posterior conversão de todos ao seu redor, mas ela, por sorte ou azar, mostra-se imune. A mente-colmeia não consegue absorvê-la e espera que Carol se junte voluntariamente, mas garante que jamais a forçará a unir-se e vai prover por ela até que mude de ideia. Furiosa porque sua namorada não sobreviveu à conversão - e, ora bolas, porque o livre-arbítrio foi tirado de oito bilhões de pessoas e o planeta virou uma utopia desprovida de personalidade - Carol começa a imaginar se consegue salvar o mundo.

Carol Sturka e Zosia, sua "babá" convertida: o fim do mundo é um porre

Pluribus marca o retorno de Vince Gilligan à televisão, após o sucesso e prestígio das séries "irmãs" Breaking Bad e Better Call Saul - desta vez, trocando a Netflix pela Apple TV, que vai rapidamente se tornando a rival por excelência da HBO em respeito à inteligência do público. Gilligan traz de volta suas assinaturas narrativas e visuais: os silêncios prolongados, os diálogos econômicos mas cortantes, os planos abertos grandiosos, os close-ups longos e incomuns, as rimas cromáticas. Não é para viciados em adrenalina, definitivamente.

Não é muito óbvio o objeto da crítica de Pluribus. Gilligan parece preferir que o espectador se ocupe de decifrar suas intenções, o que configura uma bem-vinda exceção num meio que vai sendo progressivamente empobrecido, com produtos feitos para garantir o entendimento de uma geração desfocada, que assiste à TV desviando os olhos para o celular e depois corre para procurar um vídeo de "final explicado". Gilligan não está nem aí pro seu TDAH, seja real ou da Shopee. Se você pega o celular porque está tudo muito parado numa cena, ele mete um lance importante justamente quando você não está prestando atenção - e aí, lá vai você, tendo que voltar dez segundos.

Aliás, entendo a felicidade compulsória da mente-colmeia justamente como uma crítica à massa que habita as redes sociais sem qualquer filtro crítico, reproduzindo trends e colocando sua privacidade e segurança em risco em troca de engajamento vazio, apresentando apenas o lado bonito da sua existência e uma felicidade encenada. Carol é como aquela comentarista que vai lá no teu post e diz que te conhece bem demais pra cair no teu papinho de "só agradecer".

Pode ser Carol a criticada, também: com sua teimosia birrenta e determinação em ser chata apenas porque sim, Carol, a "heroína", testa a nossa paciência em diversos momentos, como aquele amigo militante que está cego para qualquer ponto-de-vista alternativo. Pode ser uma crítica geral ao conformismo e ao comportamento de rebanho. De novo, Gilligan não oferece uma explicação fácil e limpinha. Ele quer que você pare, pense e tire suas conclusões.

Seja como for, o que não falta em Pluribus é material de identificação. Outros onze humanos são imunes como Carol, mas ela percebe que dez deles não compartilham de sua indignação e disposição de trazer o mundo de volta ao que era. Afinal, quem não gostaria de viver em um mundo em que a tristeza, a fome e a violência foram abolidas? Para um deles, pelo menos, viver em um mundo perfeitamente seguro e feliz parece valer o sacrifício da própria individualidade. A maioria, porém, quer apenas seguir perto de seus amigos e parentes, mesmo que não sejam mais exatamente quem eram, e desfrutar da disposição extrema dos convertidos em agradar aos ainda despertos, aspecto que torna o mauritano Koumba Diabaté (Samba Schutte) um inegável favorito. Ele só quer transar e "luxar", e eu não me sinto capaz de julgá-lo.

Diabaté: não sou rico, mas me permito certos luxos...

Há momentos em que Pluribus parece correr atrás do próprio rabo, mas a apatia e o tédio são inerentes à situação de Carol como alguém que teve a entrada ao "paraíso" negada e, agora, por indignação genuína ou orgulho besta, se nega a entrar com um convite tardio. A atuação explosiva de Rhea Seehorn, premiada com o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, revela novas camadas de Carol a cada episódio, da esperteza analítica à tristeza autodestrutiva, com direito à tentação de simplesmente entregar-se ao que parece impossível de combater (e, secretamente, tão desejável). Por sorte, Carol não está só: o único humano desperto que rejeitou o encontro inicial parece ainda mais determinado que ela em acabar com a invasão. O perigo vem do Paraguai e seu nome é Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga).

Pluribus tem três temporadas previstas, o que, para mim, já parece muito. Sempre existe a chance de que o sucesso a estique além do razoável, mas torço para que Gilligan seja como Carol Sturka e resista ferozmente à tentação da felicidade por meio do dinheiro fácil, o que parece uma tática da mente-colmeia para absorvê-lo. Se o mundo vai acabar em apatia e sorrisos amarelos, que não sejam os nossos, pela decepção. Por enquanto, em sua primeira temporada, Pluribus me deixou bastante feliz, mesmo desperto (ou será que estou?).

05/01/2026

Música & Mágica #9


CAETANO VELOSO
Estrangeiro
1989

Em 1989, ao mesmo tempo em que a geração BRock estava lançando discos elogiados e bem-sucedidos (Big Bang, dos Paralamas; Õ Blésq Blom, dos Titãs; As Quatro Estações, da Legião Urbana), havia no ar claros sinais de desgaste e mudança: a estética e a sonoridade "gringas" das bandas começavam a perder a atenção do público e da mídia, e o país voltava a olhar para dentro de si: o sertanejo e a axé music estavam surgindo para as plateias fora de seus estados originários, o romantismo desbragado de FM de Sullivan e Massadas ainda reinava, e até a estrangeira lambada ajudava a chamar atenção para a música feita na região Norte.

É bastante irônico que Caetano Veloso tenha escolhido esse contexto para lançar um álbum chamado Estrangeiro, que soava muito brasileiro e muito "do mundo" em iguais proporções. A produção esmerada dos brasilianistas Arto Lindsay e Peter Scherer deu ao disco timbres fortes, dignos de discos gringos, e a percussão de Carlinhos Brown e Naná Vasconcelos (1944-2016) deixavam pouca dúvida sobre seu alto teor de brasilidade.

"O Estrangeiro" (a canção tem o artigo masculino que falta ao nome do disco) abre com impressões de estrangeiros famosos sobre a Baía de Guanabara, principal cartão-postal do país. Na rebuscada letra, cheia de menções a artistas e movimentos culturais, Caetano, baiano radicado no Rio desde jovem, mistura suas próprias percepções às alheias, abraçando umas e refutando outras. Não finjo entender plenamente suas intenções, mas não há como ficar indiferente ao riff hipnótico de piano, a percussão poderosa, a gravidade da interpretação, e os mil barulhinhos eletrônicos sabiamente colocados.

"Os Outros Românticos", dedicada a Jorge Mautner, parece versar sobre a amizade dos dois, enquanto alude a Pixote e crianças abandonadas. Sobre mais uma base pesada de percussão, a letra de Caetano é vertida para o inglês e declamada pelo produtor Arto Lindsay, na segunda metade da canção.

Caetano em 1989

Para as mulheres de sua vida, Caetano dedica duas belas canções. Paula Lavigne é a musa da bossa "Branquinha", em que ele parece mal acreditar que ela pudesse ter-se interessado por "um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer". Para a primeira esposa, Dedé, Caetano dedica a delicada e sofisticada "Este Amor": "o que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer, o que de mim ninguém tira".

A admiração por João Gilberto (1931-2019) é reafirmada na funkeada "Outro Retrato" e na bossa "Etc.", enquanto "Jasper" tem poesia em inglês sobre teclados bonitos e climáticos. "Rai das Cores" fala disso mesmo: as cores das coisas. Parece óbvio falar que o mar é azul e a rosa é rosa, mas Caetano o faz com curiosidade e graça.

Dois momentos maravilhosos do disco são aqueles dedicados ao chamado "Brasil profundo", aquele pouco óbvio a uma mídia então acostumada a achar que o país era apenas Rio e São Paulo, "e o resto ao resto", para citar o próprio Caetano.

A primeira é a canção que se tornou simbólica da ascensão de Carlinhos Brown como compositor de prestígio: "Meia Lua Inteira" já era conhecida na Bahia por uma versão eletrificada do Chiclete com Banana, mas, ao ser incluída na trilha da novela Tieta, da Globo, ganhou o mundo na versão de Caetano. Os versos de fonética percussiva e nem sempre decifráveis de Brown trouxeram um frescor à MPB que se espalhou rapidamente. Ajudava muito que a música fosse um samba reggae delicioso, levado sobre riffs de teclado precisos e imediatamente reconhecíveis.

A segunda é "Genipapo Absoluto", que encerra o disco. A grafia atípica talvez traga referência a uma paquera de alguma festa de São João, em "junhos de fumaça e frio", quando se toma licor de jenipapo como se fosse água, na Bahia. A emocionante letra ainda traz menções carinhosas aos pais de Caetano, e evoca saudade de tempos mais simples, que pareciam perdidos para as novidades (de quase 40 anos atrás, mas, sim).

A sensação de ouvir Estrangeiro pela primeira vez foi a de estar escutando um disco extremamente moderno, carinhoso com o Brasil e culturalmente relevante. Não deixa de ser curioso que o polimento final tenha sido por um estadunidense (Lindsay) e um suíço (Scherer), mas, sejamos justos: mesmo nem sempre sendo um artista fácil (pelo que canta ou pelo que fala), Caetano sempre pautou sua carreira (que tinha em 1989 pouco mais de 20 anos) por um amor imenso ao Brasil e aos brasileiros. Tudo que ele diz e faz reverbera. Tudo mesmo.

* * * * *

Caetano Veloso
Estrangeiro
Produzido por Arto Lindsay e Peter Scherer
Lançado em 12 de novembro de 1989

1. O Estrangeiro
2. Rai das Cores
3. Branquinha
4. Os Outros Românticos
5. Jasper
6. Este Amor
7. Outro Retrato
8. Etc.
9. Meia Lua Inteira
10. Genipapo Absoluto

01/01/2026

A Flecha do Caçador


Uma crítica do omnibus
Arqueiro Verde por Mike Grell, Vol. 1

Este foi o primeiro omnibus que eu li. É verdade que eu já li Sandman Edição Definitiva, com mais de 600 páginas por volume, o que é mais do que alguns "busões" que a gente vê por aí, mas foi o primeiro oficialmente batizado como tal. Tendo estreado no formato, posso afirmar: eu não gosto dele.

Veja bem, este aqui, com suas 768 páginas, nem é dos mais volumosos. Fico imaginando o pesadelo que deve ser manusear as quase 1.300 páginas do primeiro volume com a Sociedade da Justiça por Geoff Johns. Um omnibus te obriga a ler sentado à mesa, como se estivesse debruçado sobre um Vade Mecum pra estudar Direito. Nada mais avesso à ideia geral do que é ler um gibi.

Antes que algum defensor de editora se apresse me desqualificar, deixo claro que não culpo a Panini Comics por nada disso. Ela não inventou o formato, cuja única vantagem consiste na semelhança com o hábito de maratonar uma série: você vai lendo os capítulos sem parar (se puder) e, de repente, dá conta de uma fase inteira. Porém, posso perfeitamente culpá-la por não apostar (ou não apostar também) em formatos menos "tijolescos": por exemplo, imagina essa fase do Johns saindo em uma A Saga da Sociedade da Justiça? Bem mais legal.

Disclaimer feito, vamos ao material em si.

O Arqueiro Verde já tinha uma tradição de tramas mais próximas da vida real, desde a famosa fase da road trip com o Lanterna Verde, escrita por Denny O'Neill e desenhada por Neal Adams, nos anos 70. Para esta versão, de 1987, o editor Mike Gold (que escreve um divertido posfácio) convenceu Mike Grell a voltar para DC Comics, sob pretexto de reinventar o Arqueiro Verde como um caçador urbano.

O primeiro fruto desse trabalho foi a graphic novel em três partes The Longbow Hunters, publicada no Brasil como Os Caçadores, a partir de janeiro de 1989, pela Editora Abril. Naquele fim de década, gibi de luxo ainda era um formato que dava seus primeiros passos por aqui, muita coisa chegando por conta do aniversário de 50 anos do Batman. A série, escrita e desenhada por Grell, colocava Oliver Queen contra traficantes de drogas, serial killers e a máfia japonesa Yakuza, na figura de uma ninja fatal chamada Shado, ela própria uma exímia arqueira. Além de um realismo que ainda era quase novidade, Os Caçadores tinha arte e acabamento gráfico de alto padrão, na época. Era um troço de encher os olhos do adolescente de 15 anos que eu era então.

A graphic novel abre este primeiro volume do omnibus de Arqueiro Verde por Mike Grell. Completam o livro as 20 primeiras edições da então nova revista do Arqueiro Verde, em que Grell dá continuidade à sua abordagem realista do herói. Pra começo de conversa, nada de Star City ou qualquer outro lugar que só existe no gibi: Oliver Queen e Dinah Lance (a Canário Negro) passam a viver em Seattle, metrópole real, chuvosa e cinzenta. As ameaças no caminho de Ollie são traficantes de drogas e de gente, ladrões, políticos e parte da polícia local que não aceita vigilantismo, por mais bem-intencionado. O compromisso com a verossimilhança é tanto, que nem se fala no grito sônico da Canário.

Na maioria das edições de Green Arrow, a arte ficou por conta de Ed Hannigan (em estilo bem próximo ao do próprio Grell), mas também é possível conferir o talento de Eduardo Barreto, Dan Jurgens (já com traços reconhecíveis do estilo que o consagrou na revista do Superman), e mais alguns outros. As tramas são rápidas, resolvendo-se em duas ou três edições, e os finais parecem, hoje em dia, até meio abruptos - mas era um tempo em que ninguém fazia vídeo explicando final de gibi ou de filme: o que não estava explícito era completado na imaginação do leitor, e ninguém morria por usá-la. Era uma abordagem digna da Vertigo dentro do universo regular da DC, explicitada pela recomendação a leitores adultos na capa.

As tramas são todas minimamente interessantes, e não há uma edição que se possa chamar de ruim. Entre os extras, existem fichas e estudos de personagens, capas de edições encadernadas e, para minha surpresa e confusão, diversas capas do título do Arqueiro Verde de 2012, dentro dos famigerados Novos 52. Meio aleatório, mas nada de que valha a pena reclamar, diante da alta qualidade geral do material reunido aqui. Volto a frisar, não gosto de omnibus, mas não vejo certas coisas ganhando novas chances por aqui em outro formato - então, tratei de garantir este primeiro volume, e mal vejo a hora de achar o segundo por um preço que não seja uma dolorosa flechada na minha carteira.

Prestação de contas

Primeiro dia do ano e aqui estou, para prestar contas sobre o sorteio do Sandman: Prelúdio, realizado no dia 19/12 e vencido pelo leitor de longuíssima data Rodrigo Bertuol, de Curitiba, PR. Parabéns e boa leitura!

15/12/2025

Resumão 2025 (Melhores do Ano)




FILMES


A Hora do Mal, de Zach Cregger - Depois do ótimo Noites Brutais, Cregger retornou com um filme que parece um filhote bastardo de M. Night Shyamalan com Sam Raimi. Estranheza cômica e brutalidade sangrenta dividindo o mesmo espaço. O nome de Amy Madigan (a pavorosa Tia Gladys) começa a ganhar força para o Oscar de 2026.


F1, de Joseph Kosinski - Este filme cumpre com excelência certas expectativas que Kosinski deixou frustradas com Top Gun: Maverick. História mais consistente, veterano (Brad Pitt) dividindo a tela numa boa com um novato em ascensão (Damson Idris), e resultado final que não parece apenas uma peça de propaganda de orçamento inflado. É cinema pra valer.


Faça Ela Voltar, de Michael Phillipou e Danny Phillipou - Fale Comigo foi interessante, mas os irmãos Phillipou voltaram com sangue nos olhos para este filme: o trauma e a perda são o tema de um filme incômodo e violento, que gruda em nossas retinas e mentes por dias. Não a vejo tendo chances no Oscar, mas a atuação de Sally Hawkins é um colosso.


Pecadores, de Ryan Coogler - Um filme de gângster, que é um filme de vampiros, que é um musical. Não é indecisão: tudo está tão bem mesclado, que só podemos qualificar como alquimia. Em seu primeiro grande projeto pessoal e original, Ryan Coogler beirou a genialidade. Que atire a primeira pedra (na própria cabeça) quem não se arrepiou na cena do baile.


Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson - Aos poucos, o cinema de PTA vai encontrando um caminho do meio entre o alternativo e o mainstream, respeitando a inteligência de quem vai ao cinema e preservando o senso de diversão e espetáculo, sem deixar de apontar o dedo para a cara feia da América de Donald Trump (no post anterior, uma crítica mais detalhada).


SÉRIES


A Diplomata (T3), Netflix - Trocando patriotadas malucas por uma visão realista e pragmática das relações internacionais, as desventuras da embaixadora americana Kate Wyler (Kerri Russell) para preservar os interesses nacionais e respeitar a soberania dos aliados rendem ótimos diálogos, regados a muito orgulho ferido, conchavos, concessões e sexo. É só gente falando o tempo inteiro, mas é sensacional e altamente viciante.


Andor (T2), Disney+ - Uma aula magna sobre a crueldade dos governos totalitários e a importância de combatê-los. Não se vê um Jedi por perto, mas, mesmo assim, Andor é o melhor produto com a marca Star Wars a sair dos estúdios da Disney. Fazendo ponte perfeita para a introdução de Rogue One (2016), chega em ótima hora para nos lembrar que não existe isso de "lado bom da ditadura".


Pluribus (T1), Apple TV - Vince Gilligan retoma a parceria com a maravilhosa Rhea Seehorn para mostrar o apocalipse mais sereno que já se viu: um vírus alienígena se espalha e a humanidade vira uma grande mente de colméia, com todo mundo feliz e dividindo memórias, conhecimentos e habilidades - exceto por 12 sortudos (?), entre os quais, a irascível e enlutada Carol Sturka (Seehorn), que se recusa a aceitar numa boa tanta paz e amor.


Task (T1), HBO Max - Foi anunciada como minissérie, mas já anunciaram uma segunda temporada, e eu não reclamo se virar uma antologia, na linha True Detective. Quando um grupo começa a atacar pontos de fabricação e distribuição de drogas para roubar dinheiro, o agente Tom Brandis (Mark Ruffalo) larga a "boa vida" do trabalho burocrático (e do recorrente alcoolismo) para investigar os crimes em campo. Vários níveis de miséria humana e ótimas atuações.


Terra Indomável, Netflix - O ano já começou a mil, com esta minissérie que mostra o oeste selvagem mais selvagem que já se viu. A promessa de terras e riquezas na costa pacífica leva gente boa e gente muito ruim a cruzar caminho em Utah, onde os fanáticos da igreja mórmon se somam aos enormes perigos naturais e humanos. É tudo tão potente e cuidadoso que lembra mais um produto da HBO que da Netflix.


QUADRINHOS


O inquestionável destaque do ano foi o sucesso da linha Absolute - que, a bem da verdade, começou lá fora no fim de 2024 e, em tese, deveria chegar ao fim com a derrota de Darkseid ao fim do evento DC K.O, mas é improvável que a DC vá jogar no lixo gibis que vendem tanto. Para mim, o Superman de Jason Aaron foi intragável desde o começo; o Batman de Scott Snyder começou muito bem, mas foi virando paródia de si próprio e me perdeu.

Já a Mulher-Maravilha de Kelly Thompson e Hayden Sherman é um gibi impecável, que não perdeu fôlego ao longo de suas atuais 14 edições. Traz uma ótima caracterização da heroína, que não teme ameaça ou sacrifício algum, exalando bondade e bravura, em arcos que se concluem a cada duas ou três edições.

Outro que também segue uma cartilha de quadrinismo clássico, com uma interpretação quase ideal do personagem, é o herói visto em Batman: Dark Patterns, maxissérie escrita por Dan Watters e, também, desenhada por Hayden Sherman. Nos quatro arcos de suas 12 edições, um vilão clássico repaginado (Scarface) e três novas ameaças, entre as quais sobressai o apavorante Wound Man. Aguardo ansioso pra ter na estante a versão nacional, a ser anunciada pela Panini.


MÚSICA

Eu não escutei nenhum discaaaço gringo em 2025, o que, logicamente, não significa que não tenha saído nenhum. A culpa foi minha, pois me dediquei mais a ouvir velharias - segundo o wrapped do Spotify, eu tenha 34 "anos musicais" como ouvinte, dando preferência a material das décadas de 2000 e 2010. Então, já que não me lembro de nenhum grande disco gringo no ano, me abstenho de fazer uma lista de melhores, mas posso afirmar que um disco muito bonito que escutei este ano foi o elegantíssimo R&B de Beloved, do Giveon.


Já na música nacional, 2025 foi um excelente ano, principalmente entre os independentes, que demonstraram riqueza e vigor musicais. Entretanto, exceto pelo já resenhado disco do Seu Pereira, me faltou tempo para uma audição mais cuidadosa e analítica dos indicados, por isso a falta de textos sobre eles (prometo ser menos relapso em 2026). Os cinco melhores discos brasileiros que escutei este ano foram:


Joaquim, Varanda dos Palpites
Luedji Luna, Antes que a Terra Acabe
Luedji Luna, Um Mar para Cada Um
Raquel Reis, Divina Casca
Seu Pereira e Coletivo 401, Obsoleto